Defesa da Fé


Controvérsias da Congregação Cristã no Brasil


O dízimo, o sustento pastoral e a motivação evangelística


Por Natanael Rinaldi

Ministro do evangelho pela Igreja Evangélica da Paz, pesquisador de religiões e consultor do CACP


Como já afirmamos em matérias anteriores, não podemos errar pela generalização, mas é fato que a irmandade da Congregação Cristã no Brasil (CCB) é, em grande parte, proselitista. Isto é, engajada na conversão dos “infiéis” a Cristo. É fato, também, que uma pequena parcela de membros da CCB não demonstra essa tendência, o que deveria servir de exemplo aos demais. Entretanto, membros de outras denominações evangélicas e, especialmente seus pastores, sabem que, quando adeptos da CCB se aproximam de algum crente, quase nunca é para firmar laços de comunhão como irmãos de fé, mas, muitas vezes, com a intenção de encaminhar “o crente de estranha fé” à “verdadeira graça de Deus”, suposta e exclusivamente representada pela própria CCB. Em suma, para muitos membros da CCB, os “infiéis” são os próprios crentes de outras igrejas evangélicas.


A técnica proselitista empregada


Podemos perceber o proselitismo desenvolvido pelos membros da CCB em algumas situações típicas e cotidianas. Talvez, não seja difícil ao leitor reconhecer já ter vivenciado algum caso semelhante.

Não é incomum crentes da CCB lançarem julgamentos hostis sobre certos elementos observados e seguidos por outras igrejas. Num relacionamento de trabalho, por exemplo, quando dois crentes se conhecem, um da CCB e outro de qualquer denominação evangélica, existe a preocupação de o crente da CCB logo indicar pelo menos dois fatores muito criticados por eles dentro das outras igrejas evangélicas.

O primeiro fator contestado é o cargo de pastor, o qual costumam afirmar que se trata de uma posição exclusivamente ocupada pelo Senhor Jesus na CCB. Assim, com certo orgulho religioso, reiteram que a CCB é a única igreja evangélica em que o único pastor é Jesus Cristo.

O segundo fator criticado, decorrente do primeiro, é a idoneidade dos pastores evangélicos. Em geral, eles são apresentados como impostores que exercem sua função interessados no dinheiro das ovelhas. E contrastam: “Os anciãos da CCB trabalham com as próprias mãos de onde retiram o sustento para suas famílias”.

Daí, surge um terceiro fator, que é a oposição ao dízimo requerido pelas igrejas evangélicas, sob a alegação de que o mesmo foi uma observância dos tempos da lei, algo bastante tentador aos crentes que não têm fé suficiente para crer na provisão de Deus.

Tudo isso, embora seja apenas o começo, já é mais que suficiente para deixar em confusão muitos crentes evangélicos. A seguir, tentaremos esclarecer cada uma dessas oposições.


O pastorado eclesiástico e seu sustento


Qualquer leitor da Bíblia não ignora que Jesus é chamado de sumo pastor: “E, quando aparecer o sumo pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1Pe 5.4). Sumo pastor, como o próprio nome apresenta, é o chefe dos pastores, assim como o sumo sacerdote do Antigo Testamento era o maioral entre os demais sacerdotes. O termo sumo significa “máximo”, “supremo”, e é óbvio que isso infere pastores inferiores, menores, que estariam hierarquicamente abaixo do “pastor superior”.

Jesus, como sumo pastor, ordenou pastores para sua Igreja: “E ele mesmo [Jesus] deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11,12 – grifo do autor).

Em relação à idoneidade dos pastores, reconhecemos, com pesar, que a imagem dos pastores realmente anda desgastada por escândalos em nossa nação, mas, os envolvidos não representam, de forma alguma, a maioria dos servos de Deus. O que ocorre é que a mídia nunca perde a oportunidade de explorar, muitas vezes enfaticamente, casos de pastores que dão mau testemunho. Na verdade, nem poderíamos esperar outra coisa dos veículos informativos seculares. O que, porém, nos entristece é o fato de que alguns membros da CCB, e também outros evangélicos, peguem carona nessa atitude e ajudem a espalhar os escândalos aos quatro ventos do país.

O próprio Jesus falou desses pastores iníquos: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.22,23).

Todavia, não podemos, jamais, perder de vista os fiéis que existem no mundo. Elias também se equivocou ao julgar que era o único fiel a Deus, mas foi advertido pelo Senhor: “Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou” (1Rs 19.18). Graças a Deus, esses homens existem, e estão servindo ao Senhor em nossas igrejas evangélicas!

Em relação ao sustento pastoral, escreveu o apóstolo Paulo: “Porque diz a Escritura: Não amordace o boi enquanto está debulhando o cereal, pois o trabalhador merece o seu salário” (1Tm 5.18, NVI – grifo do autor). O próprio Paulo recebia salário para o seu sustento, não da igreja de Corinto, mas de outras igrejas em que trabalhava: “Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado” (2Co 11.8 – grifo do autor). Assim como os demais judeus, Paulo também tinha uma profissão alternativa. Ele era fazedor de tendas (At 18.3) e, desse ofício, tirava o necessário para o seu sustento, pois temia escandalizar os irmãos. Além disso, não queria correr o risco de ser interpretado como aventureiro em Corinto. Apesar de tudo, ele recomenda que o obreiro não se envolva com negócios estranhos ao seu ministério pastoral (2Tm 2.4). E Paulo foi reconhecido pelos demais apóstolos, quando da instituição do diaconato: “Mas nós [os apóstolos] perseveraremos na oração e no ministério da palavra” (At 6.4).


A observância do dízimo


Os dízimos eram destinados aos levitas e sacerdotes (Nm 18.21-24; Hb 7.5), para que não faltasse mantimento na casa de Deus (Ml 3.10). Os filhos de Levi e os ministros do altar, por sua vez, pagavam os dízimos dos dízimos recebidos (Nm 18.26).

Não é certo que o dízimo seja algo restrito aos tempos da lei de Moisés, pois sabemos que o primeiro dizimista na Bíblia foi Abraão e não Moisés: “E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o possuidor dos céus e da terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo” (Gn 14.18-20 – grifo do autor).

O que é interessante observar é que a lei que obrigava os israelitas a pagar o dízimo só foi dada 430 anos depois de Abraão: “Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa.” (Gl 3.17 – grifo do autor). Logo, o dízimo não teve origem na lei, mas na espontaneidade de Abraão, muito antes da lei.

O que os membros da CCB não contam aos seus prosélitos é que, mesmo criticando a contribuição dizimal que ocorre nas igrejas evangélicas, a CCB criou cinco tipos de contribuições. Estamos falando de cinco modos para recolher dinheiro da irmandade. Vejamos: oferta de piedade (voltada ao trabalho social); oferta para compra de terrenos (voltada às construções); oferta de viagem (voltada às viagens dos anciãos); oferta para conservação de prédios (voltada à manutenção); e oferta de votos (voltada às necessidades especiais e excepcionais).

Ora, tudo isso, e muito mais, é suportado pelos dízimos entregues como sacrifício de adoração em nossas igrejas. O que a CCB fez foi mudar a nomenclatura. Aliás, não seria exagero dizer que, dependendo do coração do fiel da CCB, é possível que ele desembolse mais dinheiro nesta igreja do que em qualquer outra. Em resumo, a CCB critica, sem fundamentação bíblica, o sistema dizimal, e ainda o substitui por algo mais pesado de ser carregado por seus membros.

É preciso salientar também que o dízimo não é devolvido a Deus com o objetivo de salvação, mas apresentado com amor, pois Deus ama os que ofertam com alegria: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2Co 9.7). Assim, cada oferta é como se fosse uma semente de bênçãos que, na hora certa, todos colheremos: “Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, também vos dê pão para comer, e multiplique a vossa sementeira, e aumente os frutos da vossa justiça” (2Co 9.10).


Motivação para a pregação do evangelho


Não bastasse todo essa estratégia proselitista, grande parte dos membros da CCB defende uma motivação muito estranha para a pregação do evangelho. Segundo muitos deles, devem difundir as boas-novas apenas quando “sentirem” que devem fazer ou “sentirem” que determinada pessoa pode aceitá-lo.

Jesus não ordenou a seus discípulos que esperassem, até que alguém sentisse que deveria aceitar o evangelho. O Senhor Jesus jamais disse ao pecador: “Se sentires e fores ao templo, serás salvo”. Pelo contrário. Ele disse à sua Igreja: “Ide por todo o mundo; pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Se não formos obedientes a esse mandamento, estaremos pecando contra a Palavra do Senhor Jesus Cristo. Mas, a CCB, além de não cumprir o mandamento, escarnece de todos aqueles que obedecem à ordem de Cristo.

A CCB defende que não se deve sair para evangelizar, utilizando-se de versículos bíblicos fora do contexto, como, por exemplo, Mateus 7.6, que diz: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem”.

É comum ouvirmos da irmandade que os crentes vão à praça pública para aparecer, escandalizando, assim, a Palavra de Deus. É importante que o leitor saiba, portanto, que a Igreja do Senhor Jesus cresceu porque os novos cristãos, bem como todos os membros cheios do Espírito Santo, saíam por todas as partes anunciando a Palavra, ou seja, pregando o evangelho. Dizer que quando alguém vai a algum lugar público anunciar o evangelho é porque deseja aparecer é uma atitude desprovida de qualquer realidade bíblica. Será que quando Estêvão pregava fazia isso para aparecer? E Paulo? Será que, na Grécia, ele fazia isso para se aparecer? Será que, no dia de Pentecoste, quando Pedro pregou publicamente, fez isso para aparecer? (At 2.14-36). Será que Paulo, quando pregou na cadeia de Filipos, fez isso para aparecer (At 16.25-34)? E, quando ele pregou no areópago para os filósofos, fez isso para aparecer? (At 17.22-31). Será que homens de Deus imitariam esses exemplos só para aparecer?

Outro argumento da CCB é que devemos pregar o evangelho somente quando sentirmos, ou melhor, quando o Espírito Santo mandar. Esse argumento da irmandade é muito interessante porque, muitas vezes, só sentem que devem “anunciar” ou são ordenados pelo Espírito Santo a agir dessa forma quando, coincidentemente, alguém aceita Jesus em alguma igreja evangélica. Estranho! Por que, afinal, antes de a pessoa se converter ninguém sente nada? E o Espírito Santo, fica mudo?

Vejamos o que a Palavra de Deus ensina:

“E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24.47).

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1.8).

“De sorte que disputava na sinagoga com os judeus e os religiosos, e todos os dias na praça com os que apresentavam” (At 17.17).

Ainda poderíamos citar muitos outros versículos!

Por exemplo:

Lucas 13.23; 14.21-23; 13.26; Marcos 1.15-20; Mateus 8.1; Atos 16.13; 21.5; Romanos 1.14,15; 1Coríntiso 9.16; e Hebreus 4.2.

Vejamos o que diz parte da letra de um dos hinos que os seguidores da CCB cantam em seus cultos, cujo título é: “Levemos a mensagem com amor”: “Por terra, pelo ar e pelo mar, o evangelho vamos proclamar...” (Louvores e súplicas a Deus, nº 209).

Só não enxerga essa realidade quem não quer: a prática da CCB contradiz até mesmo a teoria dos seus hinos de louvor.

Finalizamos este pequeno comentário fazendo o seguinte alerta: Será que a CCB, ao invés de criticar a pregação do evangelho fora do templo, não deveria imitar o Senhor Jesus, a Igreja primitiva, os apóstolos e todos os verdadeiros discípulos de Cristo, que, sem se deixarem intimidar, levaram as boas-novas a todo o mundo? Será que não lhes seria mais glorioso entrar na seara e trabalhar?

Cristo morreu para que fôssemos um só nele e, antes de ir para a cruz, orou ao Pai pedindo a unidade dos cristãos: “E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim” (Jo 17.20-23).

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