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Defesa da Fé


Há mitos na Bíblia?


Por Augustus Nicodemus Lopes,

Mestre em NT pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em interpretação bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA)


Os liberais sempre estiveram certos. Há mitos na Bíblia. Mitos eram abundantes no mundo religioso do Antigo Oriente ao redor de Israel, bem como nas religiões à época da Igreja apostólica do primeiro século. Por conseguinte, os escritores bíblicos registraram vários deles em suas obras.


Mitos no Antigo Testamento


No Antigo Testamento, encontramos vários desses mitos. Há a crença dos cananeus de que existiam deuses chamados Astarote, Renfã, Dagom, Adrameleque, Nibaz, Asima, Nergal, Tartaque, Milcom, Renfã e Baal.

Sobre este último, há o mito de que podia responder com fogo ao ser invocado por seus sacerdotes. Há, também, o mito egípcio de que o Nilo, o sol e o próprio Faraó eram divinos; o mito filisteu do rei-peixe Dagom; e que o Deus de Israel precisava de uma oferta de hemorróidas e ratos de ouro para ser apaziguado. Para não falar do mito cananeu da Rainha dos Céus, que exigia incenso e libações (bolos) dos adoradores (Jr 44.17-25).

Outro mito na Bíblia é que o sol, a lua e as estrelas eram deuses, mito esse que sempre foi popular entre os judeus e radicalmente combatido pelos profetas (2Rs 23.5,11; Ez 8.16). O mito pagão de monstros e serpentes marinhas é mencionado em Jó, Salmos e Isaías, em contextos de luta contra o Deus de Israel, em que eles representam os poderes do mal, os povos inimigos de Israel (Jó 26.10-13; Sl 74.13-17; Is 27.1).

O livro de Jó cita mitos de outros povos, como Leviatã (Jó 41.1), mas não podemos imaginar que o autor, por isto, esteja dizendo que os aceita como verdade. Os profetas, apóstolos e autores bíblicos se esforçaram por mostrar que os mitos eram conceitos humanos, falsos, e em chamar o povo de Deus a submeter-se à revelação do Deus que se manifestou poderosa e sobrenaturalmente na história.

Os escritores bíblicos sempre estiveram empenhados em separar mitologia de história real, e as invenções humanas da revelação de Deus. Elias desmitificou Baal no alto do Carmelo (1Rs 18.17-39). Moisés também desmitificou o Nilo, o sol e o próprio Faraó, provando, pelas pragas que caíram, que a divindade deles era só mito mesmo (Êx 7.19-12.36). E quando ele queimou o bezerro de ouro e o reduziu a cinzas, desmitificou a ideia de que foi o bovino dourado que tirou o povo de Israel do Egito (Êx 32.1-29). O próprio Deus se encarregou de derrubar o mito de Dagom, rei-peixe dos filisteus, quando a sua imagem caiu de bruços diante da Arca do Senhor e teve a cabeça cortada (1Sm 5.2-7).


Mitos no Novo Testamento


No Novo Testamento, o apóstolo Paulo se refere, por quatro vezes, aos mitos (gr. mythoi). Mitos são estórias profanas inventadas por velhas caducas: “Rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade” (1Tm 4.7), que promovem controvérsias em vez da edificação do povo de Deus na fé: “Nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora” (1Tm 1.4).

Entre os próprios judeus, havia muitas dessas fábulas, histórias fantasiosas: “Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tt 1.14). E, já que as pessoas preferem os mitos à verdade (2Tm 4.4), Timóteo e Tito, a quem Paulo escreveu essas passagens, deveriam adverti-las, e eles mesmos deveriam se abster de se deixar envolver por esses mitos. A advertência era necessária, pois os cristãos das igrejas sob a responsabilidade deles vinham de uma cultura permeada de mitos.

O próprio Paulo se deparou várias vezes com esses mitos. Uma dessas ocasiões ocorreu em Listra, quando a multidão o confundiu, juntamente com Silas, com os deuses do Olimpo e queria sacrificar-lhes: “E as multidões, vendo o que Paulo fizera, levantaram a sua voz, dizendo em língua licaônica: Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e desceram até nós. E chamavam Júpiter a Barnabé, e Mercúrio a Paulo; porque este era o que falava” (At 14.11,12).

Outra vez foi em Éfeso, quando teve de enfrentar o mito local de que uma estátua da deusa Diana havia caído do céu, da parte de Júpiter, o chefe dos deuses: “Então, o escrivão da cidade, tendo apaziguado a multidão, disse: Homens efésios, qual é o homem que não sabe que a cidade dos efésios é a guardadora do templo da grande deusa Diana, e da imagem que desceu de Júpiter?” (At 19.35).

Em todas essas ocasiões, Paulo procurou afastar as pessoas dos mitos e trazê-las para a fé na ressurreição de Jesus Cristo. De acordo com Paulo, mitos são criações humanas, oriundas da recusa do homem em aceitar a verdade de Deus. Ao rejeitar a revelação de Deus, os homens inventaram para si deuses e histórias sobre esses deuses, que são as religiões pagãs (Rm 1.17-32).

Pedro também estava perfeitamente consciente do que era um mito. Quando escreve aos seus leitores acerca da transfiguração e da ressurreição de Jesus Cristo, faz a cuidadosa distinção entre esses fatos, que ele testificou pessoalmente, e os mitos, “fábulas engenhosamente inventadas” (2Pe 1.16). Pedro sabia que a história da ressurreição poderia ser confundida com um mito, algo inventado espertamente pelos discípulos de Jesus. Ao que parece, Paulo e Pedro, juntamente com os profetas e autores do Antigo Testamento, estavam perfeitamente conscientes da diferença entre uma história real e uma história inventada.


A desmitificação precede Bultmann


Dizer que os próprios autores bíblicos criaram mitos significa dizer que eles sabiam que estavam mentindo e enganando o povo com fábulas espertamente inventadas por eles. Mas, seus escritos mostram claramente que eles estavam conscientes da diferença entre uma história inventada e os fatos reais. Através da história, os cristãos têm considerado o mito como algo a ser suplantado pela fé na revelação bíblica, que registra os poderosos atos de Deus. Equiparar as narrativas bíblicas aos mitos pagãos é validar a mentira e a falsidade em nome de Deus. É adotar uma mentalidade pagã e não cristã.

Existe, naturalmente, uma diferença entre o mito neoliberal e os contos que aparecem na Bíblia. Há várias histórias na Bíblia, criadas pelos autores bíblicos, que claramente nunca aconteceram. Contudo, elas nunca são apresentadas como histórias reais, como fatos reais sobre os quais o povo de Deus deveria colocar sua fé, mas como comparações, visando ilustrar determinados pontos de fé por meio de uma linguagem figurada. São as parábolas e os contos, como aquela história do espinheiro falante contada por Jotão (Jz 9.7-16). Há, também, a poesia, quando se diz que as estrelas cantam de júbilo, que Deus cavalga querubins e viaja nas asas do vento. Os salmos contêm muito disso. Quando os neoliberais deixam de reconhecer a diferença entre mitos e gêneros literários, que usam licença poética e linguagem figurada, fazem uma grande confusão.

Afirmamos que a atitude dos profetas, apóstolos e autores bíblicos, em relação ao mito, foi de desmitificação. Sabemos que dizer isso é anacrônico, pois foi somente no século passado que Rudolph Bultmann propôs seu famoso programa de desmitificação da Bíblia. Ele achava que havia mitos na Bíblia e que era preciso separá-los da verdade. Mas, antes dele, os próprios profetas, apóstolos e autores bíblicos já haviam manifestado essa preocupação. É claro que eles e Bultmann tinham conceitos diferentes. Mas, se ao fim o mito é uma história de caráter religioso que não tem fundamentos na realidade, e que se destina a transmitir uma verdade religiosa, eles não são, de forma alguma, uma preocupação exclusiva de teólogos modernos.

Portanto, o programa de desmitificação começou muito antes de Bultmann! Começa na própria Bíblia, que nos chama a separar a verdade do erro. Que isso sempre esteja claro em nossa mente ao lermos as Sagradas Escrituras!

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