Defesa da Fé


O exclusivismo cristão


Por W.Gary Crampton

Doutor em teologia pelo Whitefield Theological Seminary

Tradução de Ariel Sullivan


O exclusivismo cristão, que tem sido a visão das igrejas reformadas e biblicamente ortodoxas ao longo dos séculos, é o ensinamento que diz que Jesus Cristo é o único Salvador e, por isso, é essencial crer nele para ser salvo. Essa ótica está admiravelmente apresentada no Catecismo Menor de Westminster (Q.21), na Confissão de fé de Westminster (10:4; 14:2) e no Catecismo Maior de Westminster (Q.60).

Há um grande número de passagens bíblicas que ensina o exclusivismo cristão. Quatro das mais explícitas são: João 3.16-18,36; 14.6; Atos 4.12; 1Timóteo 2.5. Vejamos um pouco sobre cada uma delas:


João 3.16-18


“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (grifo do autor).

Esses versículos dificilmente poderiam ser mais claros. Os que creem em Cristo têm a vida eterna e os que não crêem, já estão condenados. A fé em Jesus Cristo é um fator indispensável da salvação. Não se pode ser salvo sem essa fé.


João 14.6


“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”.

Aqui, nas palavras do próprio Cristo, aprendemos que Ele é o único caminho para o Pai. “Ninguém vem ao Pai, senão for por mim”, ou seja, por Jesus Cristo. Mais uma vez, as palavras não poderiam ser mais claras. Aqueles que desconhecem Jesus não podem ser salvos. William Hendriksen escreve o seguinte, a respeito desse versículo: “Tanto o absoluto (exclusivismo) da religião cristã como a urgente necessidade das missões cristãs são claramente indicados nesse versículo”.


Atos 4.12


“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”.

As palavras de Pedro, registradas por Lucas, são tão diretas e exclusivistas quanto as que lemos no evangelho de João. Cristo é o único salvador. Segundo Simon Kistemaker: “O verbo ‘devamos’ (do grego dei) revela uma necessidade divina de que Deus insistiu, de acordo com o seu plano e decreto, em nos salvar mediante a Pessoa e obra de Jesus Cristo. Além disso, esse ‘devamos’ significa que o homem está sob a obrigação moral de responder à chamada para crer em Jesus Cristo e, assim, obter a salvação. O homem não tem outro meio de salvação, senão o Filho de Deus”.


1Timóteo 2.5


“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”.

Como podemos ver nesse texto, nas palavras do apóstolo Paulo, assim como existe apenas um Deus vivo e verdadeiro, existe também apenas “um mediador entre Deus e os homens”, e esse mediador é o homem Jesus Cristo. Em outras palavras, não há outra maneira pela qual os homens podem ser salvos, exceto mediante Jesus Cristo. Charnock escreveu: “Cristo é declarado o único Mediador no mesmo sentido em que Deus é declarado o único Deus. Assim como só existe um Criador do homem, só existe também um Mediador para os homens. Como Deus é o Deus de todos os que morreram antes que Cristo viesse, bem como de todos quantos morreram depois, assim também Cristo é o Mediador de todos os que morreram antes de sua vinda e também de todos os que verão o seu dia”.


Apenas uma reposta é bíblica


Muito embora a Igreja de Cristo tenha sempre sustentado a visão do exclusivismo cristão, isso, no entanto, não tem impedido a existência daqueles que se opõem a ela. Infelizmente, os adversários do exclusivismo cristão, até dentro das igrejas evangélicas, estão aumentando hoje. Ronald Nash escreve: “Antigamente, os cristãos se identificavam pela crença absoluta em Jesus Cristo como o único e suficiente salvador do mundo. Mas, a unidade dos cristãos (professos) desapareceu. Hoje, muitos dos que se dizem cristãos escolhem entre três repostas fundamentalmente diferentes à pergunta ‘Jesus é o único Salvador?’. As respostas podem ser declaradas e pontuadas sucintamente assim: ‘Não!’. “Sim, mas...’. ‘Sim!’”.


Os pluralistas (Não!)

A resposta negativa é dada pelos chamados pluralistas. Pluralistas como John Hick negam Jesus Cristo como sendo o único Salvador e, também, que é essencial crer nele para ser salvo. A salvação, dizem os pluralistas, pode vir por qualquer uma das religiões mundiais e por qualquer um dos vários salvadores. Hick explica: “Não existe meramente um caminho, mas uma pluralidade de caminhos de salvação [...] os quais ocorrem de formas diferentes, nos contextos de todas as grandes tradições religiosas”.

Basta dizer que a posição adotada pelos pluralistas religiosos está tão obviamente em desacordo com os ensinamentos das Escrituras, que não pode, racionalmente, ser considerada uma visão “cristã”, de modo algum. Ou seja, se João 3.16-18; 14.6; Atos 4.12 e 1Timóteo 2.5 são de fato ensinos das Escrituras (e são mesmo!), então não existe possibilidade de haver outro Salvador além de Jesus Cristo. E se o cristianismo for a única religião verdadeira (e é mesmo!), então todas as outras religiões são falsas. Simples assim. O “pluralismo cristão” é uma contradição de termos. O pluralismo soteriológico (salvífico) é anticristão. Jesus afirma isso da seguinte maneira: “Aquele que não está comigo é contra mim, e o que comigo não ajunta, espalha” (Lc 11.23).


Os inclusivistas (Sim, mas...)

Existe, no entanto, um número crescente de pensadores declaradamente cristãos, como Gavin D’Costa , Clarck Pinock e John Sanders , que respondem à pergunta “Jesus é o único Salvador?” com uma afirmativa condicionada: “Sim, mas...”. Esse grupo adere ao conhecido “inclusivismo cristão”. Os inclusivistas respondem que sim, que Jesus é de fato o único Salvador, mas dizem que as pessoas não necessitam saber de Cristo ou crer nele para receber os benefícios de sua obra redentora. Ou seja, como Nash corretamente expõe, os inclusivistas “distinguem entre a necessidade ontológica da obra de Cristo como redentor e a afirmação separada de que sua obra redentora seja epistemologicamente necessária”.

O inclusivista John Sanders explica: “Os não evangelizados são salvos ou perdidos com base em seu comprometimento, ou falta dele, com o Deus que salva mediante a obra de Cristo. [Os inclusivistas] acreditam que a apropriação da graça salvadora é mediada pela revelação geral e pelas obras providenciais de Deus na história humana. Resumidamente, os inclusivistas afirmam a particularidade e a finalidade da salvação apenas em Cristo, mas negam o conhecimento de que sua obra seja necessária à salvação”.

O inclusivismo está-se tornando a visão predominante no Catolicismo Romano. Como indica Nash, esse movimento é uma herança do Concílio Vaticano II (1962-1965), no qual se concluiu que “também podem conseguir salvação eterna aqueles que, não tendo nenhuma imputabilidade, desconhecem o evangelho de Cristo ou sua Igreja, embora sinceramente procurem a Deus e, movidos pela graça, esforcem-se sozinhos por fazer a sua vontade, conforme lhes seja conhecida pelos ditames da consciência”.

Obviamente, então, a autorrevelação de Deus pela revelação geral é crucial na teoria inclusivista. Pois esse é o meio (alegado) pelo qual Deus leva alguns à salvação sem fé em Cristo. “Portanto”, dizem os inclusvistas, “também existe uma distinção necessária entre ‘crentes’ e ‘cristãos’. Os primeiros (crentes), estão salvos porque puseram sua fé em Deus; os últimos (cristãos), por outro lado, estão salvos porque puseram sua fé em Cristo”.


A resposta bíblica (Não!)

Existem algumas dificuldades que se opõem a tudo isso que temos apresentado. Primeiro, a Bíblia não faz distinção entre os crentes e os cristãos. Isto é, os crentes são chamados crentes porque creem em Cristo (Jo 3.16-18,36). Além disso, aprendemos nas Escrituras que “quem nega o Filho também não tem o Pai; [mas] quem confessa o Filho tem também o Pai” (1Jo 2.23; cf. Jo 5.23). Saulo de Tarso é um exemplo de “crente em Deus” que era tão inteligente em seu judaísmo que negava o cristianismo, a ponto de perseguir a Igreja de Cristo (At 9.1-3; 22.1-5; 26.11). Mas, até ser confrontado por Jesus Cristo e convertido no caminho de Damasco (At 9.3-19; 22.6-16; 26.12-18), ele se considerava o principal dos pecadores perdidos (1Tm 1.12-16; cf. Fp 3.3-16).

Em segundo lugar, as Escrituras ensinam que, embora a revelação geral seja suficiente para mostrar Deus como Criador, deixando, então, os homens indesculpáveis (Rm 1.18-21; 2.14,15), ela não é suficiente para mostrá-lo como Salvador. As Escrituras são imprescindíveis para o conhecimento da redenção: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” (Rm 1.16,17). E ainda: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17).

Igualmente, a Confissão de Westminster sumariza o assunto nos seguintes termos:

“Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e de diferentes modos, a revelar-se e a declarar, à sua Igreja, aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja, contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido a escrevê-la toda. Isso torna indispensável a Escritura Sagrada”.

Sendo assim, a teoria dos inclusivistas fracassa completamente. A Bíblia nega o inclusivismo e claramente ensina o exclusivismo cristão: “Quem crê nele [Jesus] não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus [...] Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (Jo 3.18,36). Falando simplesmente, o inclusivismo, como o pluralismo, não é uma visão cristã, de forma alguma. Por negarem os ensinos claros das Escrituras, inclusivismo e pluralismo são anticristãos.


Fonte:

Esse ensaio foi publicado primeiro como livreto sob o título Christ the Mediator, pela editar The Blue Banner, em 2000.


1 HENDRIKSEN, William. New Testament Commentary: Exposition of the Gospel According to John. (Baker [1953-1954]), II:269.

2 KISTEMAKER, Simon J. New Testament Commentary: exposition of Acts of the Apostles (Baker, 1990), p.156.

3 Citado pelo editor em John Calvin, Commentaries, Volumes I-XXII (Baker, 1981), Commentary on 1Thimothy 2:5.

4 NASH, Ronald H. Is Jesus Only Savior? (Zondervan, 1994), p. 9.

5 HICK, John. God Has Many Names. (Westminster, 1982) e Problems of Religious Pluralism (St. Martin’s Press, 1985).

6 HICK, John Problems of Religious Pluralism (St. Martin’s Press, 1985), p. 34.

7 D’COSTA. Gavin. Theology and Religious Pluralism. (Basil Blackwell, 1986).

8 PINNOCK, Clarck. A Wideness in God’s Mercy. (Zondervan, 1992).

9 SANDERS, John. No Other Name. (Eerdmans, 1992).

10 NASH, Ronald H. Is Jesus Only Savior? (Zondervan, 1994), p. 23.

11 SANDERS, John. No Other Name. (Eerdmans, 1992), p. 215.

12 NASH, Ronald H. Is Jesus Only Savior? (Zondervan, 1994), p.108-9.

13 SANDERS, John. No Other Name. (Eerdmans, 1992), p.224-5.

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