Defesa da Fé


A influência da maçonaria na política do Brasil


Da Redação

Caro leitor, ao passar pelos portais de entrada de vários municípios brasileiros, você já notou como é comum a presença dos símbolos maçônicos? Em alguns Estados do nosso país, mais da metade dos municípios possui os emblemas dessa sociedade, que já foi mais secreta do que é atualmente. Na maioria das vezes, esses símbolos encontram-se intocáveis e imponentes, em lugares de fluxo intenso de veículos, nas praças mais destacadas. Como é possível explicar tamanha “onipresença”? Se a Igreja evangélica brasileira se unisse para homenagear a Bíblia por meio de monumentos nas entradas dos nossos municípios, seria algo fácil? Certamente, não! O caminho para semelhante façanha seria apelar aos poderes políticos desses municípios, a fim de conseguir tal concessão. Esses obeliscos e marcos são apenas um exemplo despretensioso, mas que atesta a influência da maçonaria nos meandros de nossa sociedade. Nem todos os brasileiros sabem, mas a maçonaria exerceu papel importante na história do nosso país (em alguns casos, controverso).

A despeito desse engajamento político, a maçonaria é, definitivamente, uma religião, embora isso seja negado por grande parte dos maçons. Poucos conseguem entender como uma entidade filantrópica tão atuante e socialmente relevante pode ser incompatível com o verdadeiro cristianismo e ser alvo de tantas críticas dos apologistas evangélicos. Por isso, antes de tratarmos da história dos maçons na política brasileira, introduziremos um comentário esclarecedor e bem fundamentado do pesquisador David Bay sobre as duas facetas, aparentemente contraditórias, da maçonaria.

Para aqueles que esperam um posicionamento doutrinário negativo sobre a maçonaria que esteja além desta ressalva, esclarecemos que esta pesquisa tem apenas o condão de analisar a maçonaria como fenômeno religioso de influência sociopolítica. O ICP já combateu doutrinariamente a maçonaria em diversas publicações, deixando muito claro seu posicionamento. Aos leitores interessados, recomendamos a leitura das matérias “Deve o cristão ser maçom?” (DF, nº 6) e “Profanação no templo” (DF nº 49), no seguinte site: www.icp.com.br


Duas organizações maçônicas: uma visível, outra invisível


Existe uma organização maçônica que a maioria dos seus adeptos desconhece, mesmo aqueles que já tenham atingido o grau 33. Frequentemente, os maçons contestam a ligação da maçonaria com o ocultismo, o satanismo ou qualquer outra prática religiosa. Isso ocorre porque, até mesmo os maçons de elevada posição dentro dessa sociedade, não sabem que a maçonaria é uma organização dentro de outra organização. Uma organização é deliberadamente enganada com mentiras e levada a crer em falsas interpretações, enquanto a outra organização, mais secreta, conhece a suposta “verdade espiritual” e a abraça de todo o coração, alma e mente.

Leiamos o que nos declara um autor maçom, Manly P. Hall, ao descrever essa organização bidimensional: “A maçonaria é uma fraternidade dentro de uma fraternidade, uma organização exterior que esconde uma irmandade interior dos eleitos [...] É necessário estabelecer a existência dessas duas ordens separadas, porém, independentes, a visível e a invisível. A sociedade visível é uma esplêndida camaradagem de homens ‘livres e aceitos’ que se reúnem para dedicar seu tempo às atividades éticas, educacionais, fraternais, patrióticas e humanitárias. A sociedade invisível é uma fraternidade secreta e augustíssima, de majestosa dignidade e grandiosidade, cujos membros dedicam-se ao serviço dos arcanos: os segredos e mistérios” (Lectures on Ancient Philosophy, Manly P. Hall, p. 433).

Muitos homens bem intencionados são membros dessa sociedade visível sem saberem nada sobre a sociedade invisível. Na verdade, Albert Pike, um dos mais importantes autores maçons, teve algumas coisas a dizer sobre os membros da sociedade visível: “A maçonaria, como todas as religiões, todos os mistérios, o hermetismo e a alquimia, esconde seus segredos de todos, exceto dos adeptos e sábios, ou eleitos, e usa falsas explicações e falsas interpretações sobre seus símbolos para enganar aqueles que merecem somente ser enganados; para esconder a verdade, que chama de Luz, e afastá-los dela” (Morals and Dogma, p.104-5).

Pike diz que a maçonaria é uma religião, da ordem dos mistérios satânicos, da mesma categoria que a filosofia hermética e a alquimia. A maçonaria esconde seus segredos dos irmãos que estão na sociedade visível exterior, independente do grau deles; somente os eleitos na sociedade invisível interna conhecem a verdade. Aqueles que estão na sociedade visível recebem uma dieta de “falsas explicações e falsas interpretações” de seus símbolos. E, por que razão? Esses pobres homens na sociedade visível “merecem somente ser enganados”.

Se, no início de sua participação na maçonaria, um homem demonstrar venerar Jesus Cristo, ele será imediatamente colocado na sociedade visível e nunca aprenderá a verdade. Nunca será considerado um sábio ou um dos eleitos, pois esses termos são reservados somente aos membros da sociedade invisível. Ele será um daqueles que aprende mentiras sobre as doutrinas da maçonaria e que, deliberadamente, recebe falsas explicações sobre seus símbolos, para que, simplesmente, pense que conhece a verdade.

Em seguida, Pike completa suas instruções sobre o engano intencional dos membros da sociedade visível, dizendo: “Portanto, a maçonaria, zelosamente, esconde seus segredos e leva os intérpretes presunçosos ao erro” (Morals and Dogma, p. 105).

Os membros da sociedade visível são chamados de “massas” e constituem 95% de toda a maçonaria. Observe o que Albert Pike diz sobre a verdade da organização para as “massas”: “Um espírito que ama a sabedoria e contempla a Verdade que está por perto é forçado a disfarçar-se, para induzir as multidões a aceitá-la [...] O povo precisa de ficções, e a Verdade torna-se mortal para aqueles que não são fortes o suficiente para contemplá-la em todo o seu fulgor” (Ibid., p. 103).

Há um pequeno parágrafo que define correta e concisamente o coração e a alma da fraternidade invisível da maçonaria. Vejamos mais uma citação de Manly P. Hall: “Quando o maçom aprende que o segredo para o guerreiro é a correta aplicação do dínamo do poder da vida, ele aprende o mistério de sua Arte. As energias ardentes de Lúcifer estão em suas mãos e, antes que ele possa avançar para frente e para cima, precisa provar sua capacidade de aplicar corretamente a energia” (The Lost Key to Freemasonry, p.17).

O Scottish Rite Journal elogiou Manly P. Hall, em 1990, como sendo “o maior filósofo da maçonaria”. Alguns maçons nunca ouviram falar de Manly P. Hall, mas o livro dele foi publicado pela editora Macoy Publishing, tradicionalmente maçônica. A única razão por que alguns maçons de graus elevados desconhecem os escritos de Manly P. Hall é que Hall é um líder da “fraternidade invisível”, enquanto esses outros maçons participam apenas da “fraternidade visível”.

Esta é a maçonaria invisível, sobre a qual muitos são mantidos na ignorância durante muito tempo. Agora, esclarecidos sobre esse caráter bidimensional da maçonaria, podemos narrar os acontecimentos que envolveram os maçons em nossa história.


A maçonaria e os conflitos entre Brasil e Portugal


As incursões mais nítidas da maçonaria na história do Brasil podem ser identificadas no final do século 18, quando o iluminismo francês ecoava nas mentes dos intelectuais brasileiros que queriam a emancipação de Portugal ou alterar alguns aspectos da dominação metropolitana.

Com o passar dos anos, os interesses da metrópole portuguesa e da colônia brasileira começaram a colidir, agravando-se e gerando tensões que eclodiram rebeliões em várias regiões do país, quase sempre, contando com o envolvimento da maçonaria.

O que exporemos a seguir é uma breve narrativa histórica dos principais eventos influenciados por essa “sociedade secreta” em nossa história, considerando também a própria literatura histórica da maçonaria que, reconhecemos, é eivada de especulações, mas que não recebeu ainda uma séria versão contraditória por parte dos demais historiadores.


A Inconfidência Mineira (1789)

Esta foi a primeira real tentativa de independência da colônia brasileira. Minas Gerais, no século 18, foi o mais rentável centro econômico do Brasil e, consequentemente, padeceu intensas pressões e exploração da metrópole portuguesa.

Portugal recusava-se a acreditar no declínio do ouro nas Minas e o ministro da metrópole, Marquês de Pombal, em 1750, determinou uma cota anual de uma tonelada e meia de ouro a ser tributado a Portugal como imposto. Como o ouro era insuficiente para tanto, em 1763, Portugal instituiu a “derrama”, outro tipo de taxa complementar, que tinha o objetivo de fazer a população fornecer a parte que ficava faltando do imposto real.

Em meio a esse ambiente de tensão, a sociedade mineira organizou-se, com o apoio da Igreja Católica e da maçonaria, para deflagrar um movimento de revolta, que contou com a adesão incontinente de José Joaquim da Maia, aluno de um grande centro maçônico francês, a Universidade de Montpelier. O principal nome entre os inconfidentes, porém, foi mesmo o do alferes (espécie de tenente) Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que também era maçom, tendo ingressado na sociedade religiosa na Bahia, um pouco antes da eclosão dos inconfidentes.

O movimento concentrou padres, militares, mineiros e representantes da classe alta, mas apenas Tiradentes recebeu a condenação de pena de morte, tendo sido condenado ao enforcamento em 21 de abril de 1792, tornando-se o patrono cívico da nação.

Segundo a redação da revista História Viva, “os maçons defendem que a origem da bandeira de Minas Gerais seria mais uma prova do envolvimento da maçonaria na Inconfidência [...] utilizando como disfarce a ideia da Santíssima Trindade, o triângulo representaria a sagrada trindade da maçonaria: liberdade, igualdade e fraternidade [...] A partir de 1870, a maçonaria elegeu Tiradentes como seu símbolo maior e reivindicou a organização do levante dos inconfidentes. As narrativas maçônicas encontram explicação também para um instigante mistério: o sumiço da cabeça de Tiradentes. A urna funerária contendo sua cabeça, decapitada, teria sido retirada secretamente às altas horas da noite pelos maçons remanescentes do movimento. O roubo da cabeça seria, segundo Raymundo Vargas, uma das primeiras afrontas da maçonaria às autoridades repressoras portuguesas [...] Segundo autores maçons, não teria sido por acaso que, no mesmo local onde a cabeça de Tiradentes fora exposta, o então presidente da província mineira e grão-mestre da maçonaria brasileira, Joaquim Saldanha Marinho, em 3 de abril de 1867, ergueu uma coluna de pedra em memória do mártir maçom”.


A Conjuração Literária do Rio de Janeiro (1794)

Academia Científica do Rio de Janeiro foi o nome dado a uma sociedade literária que acumulou também a função de loja maçônica, um lugar onde os intelectuais maçons se reuniam para confabulações.

Composta por dez escritores, a Academia foi fundada em 1771 e tinha como finalidade divulgar, pela literatura, as ideias republicanas e liberais da Revolução Francesa, o que era algo ameaçador à metrópole portuguesa.

Em 1794, o conde de Resende, vice-rei na colônia brasileira, encerrou as atividades dessa sociedade e processou seus membros sob a alegação de envolvimento com a maçonaria. Os conjurados denunciados foram presos, entre eles, os poetas Manuel Inácio da Silva Alvarenga, Vicente Gomes e João Manso Pereira, maçons influentes na sociedade carioca.


A Conjuração Baiana (1799)

Também chamada de Revolta dos Alfaiates (porque muitos de seus líderes exerciam este ofício), esta Conjuração tinha ideais semelhantes àquelas cultivadas na Conjuração Literária do Rio de Janeiro, mas envolveu a camada mais humilde da sociedade baiana, contando com mais de seiscentas pessoas. Nesse contexto, uma sociedade literária também estava envolvida.

Fundada em Salvador, a Academia dos Renascidos foi criada pela Loja Cavaleiros da Luz, alegadamente a primeira loja maçônica brasileira, em 1797. Essa Academia fomentou as discussões que conduziram à Conjuração, que contou com a participação de pequenos comerciantes, soldados, artesãos, alfaiates, negros libertos e mulatos, caracterizando-se, assim, um dos primeiros movimentos populares da história do Brasil.

Por intermédio desta Academia, a Loja Maçônica Cavaleiros da Luz panfletou Salvador com os ideais da trindade maçônica de liberdade, igualdade e fraternidade, sendo um dos conteúdos dos folhetos: “Animai-vos povo baiense, pois está para chegar o tempo feliz da nossa liberdade: o tempo em que todos seremos fraternos; o tempo em que todos seremos iguais”.

Um dos nomes mais expressivos da Conjuração Baiana foi Cipriano Barata. que, juntamente com o professor Francisco Muniz Barreto, foi membro proeminente da referida loja maçônica, até hoje reverenciada pelos maçons.


A Revolução Pernambucana (1817)

Também chamada Revolução dos Padres, por causa da adesão massiva desses ao movimento de rebelião. A eclosão dessa revolução deu-se com o assassinato de um oficial português do exército e com a libertação dos presos políticos que estavam sob sua guarda.

A liderança do grupo criou um governo provisório. Quase todos os seus componentes eram maçons, entre os quais, os padres João Ribeiro de Melo Montenegro e Miguel de Almeida e Castro (o Miguelinho), delineando uma relação entre a Igreja Católica e a maçonaria. O idealizador principal foi Domingos José Martins, que recebeu muita influência dos círculos maçônicos em suas viagens ao Reino Unido, tendo sido iniciado na maçonaria em 1812, por Hipólito José da Costa, considerado o patriarca da imprensa brasileira. Outro nome maçom dessa revolução foi Antonio Carlos de Andrada e Silva, igualmente diplomado pela maçonaria.


A presença de clérigos católicos na maçonaria

Ao longo da história, vários bispos, padres e frades entraram na maçonaria. Foram exemplos, além de João Ribeiro e Miguel de Almeida, d. José Joaquim de Azeredo Coutinho, bispo de Olinda; cônego Januário; frei Sampaio; frei Montalverne; padre Diogo Feijó; padre José de Santa Rita; frei Francisco de Santa Tereza; frei Monte Alverne; frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Entre outros. Quais intuitos teriam levado a maçonaria a aliciar para suas fileiras bispos e padres?

Todos os nomes de bispos, padres e frades citados pelos maçons são geralmente do início do século retrasado, quando, em muitos meios políticos, predominava a ideia da Independência do Brasil. A própria maçonaria de então foi fundada no Brasil com finalidades pronunciadamente políticas. Algumas lojas de Pernambuco foram fundadas por padres, como, por exemplo, a loja ou academia Areópago, criada pelo carmelita Arruda Câmera, em 1801. A Loja do Paraíso, ou Loja Suassuna, foi fundada pelo padre João Ribeiro.

Ora, esses frades ou padres quase nada sabiam ou não se interessavam pelas doutrinas maçônicas, o que queriam eram ambientes secretos para discutir suas ideologias liberais ou ideias revolucionárias. As lojas de Pernambuco e da Bahia, em meados de 1810, como também as do Rio, por volta de 1820, eram, de fato, centros políticos, que “tramavam” a Independência. Até as publicações maçônicas insistem nesse particular.

O maçom Adelino Figueiredo Lima, no seu livro, intitulado Nos bastidores do mistério, ao falar da fundação do Grande Oriente, escreve: “E encerrou-se a sessão sob o juramento solene de que a nova potência maçônica independente tinha um fim específico a cumprir: fazer a independência do Brasil”. E não faltaram, então, padres e frades que alimentavam o mesmo ideal, daí a Revolução Pernambucana, de 1817, não ter ficado conhecida como a revolução dos maçons, mas como a revolução dos padres.

Frei Caneca, frei Sampaio, cônego Januário, entre outros, fossem, talvez, excelentes patriotas e hábeis políticos, mas não se pode, por isso, dizer que tivessem sido, também, sacerdotes católicos disciplinados e religiosos exemplares. Identificaram-se os ideais políticos desses padres com os ideais políticos da maçonaria de então, que, ao menos no Brasil, ainda não manifestara provas de anticlericalismo. E, para conseguir a independência, conjugaram suas forças. Não como sacerdotes, mas como políticos. Embora fossem sacerdotes, tornaram-se maçons.

Na época das revoluções pernambucanas, e até mesmo durante todo o Império, os padres e políticos não se sentiam adstritos, em consciência, às leis da Santa Sé, que condenavam e interditavam a maçonaria. Nesse tempo, a maçonaria incipiente ainda estava se fortalecendo nas estruturas do poder e não se tinha revelado anticlerical.

Foi somente durante o Segundo Império que a maçonaria logrou o poder ministerial e o poder militar. Quase todos os ministros e governadores de Estados foram membros da maçonaria. Mais ainda, a maçonaria tinha-se infiltrado em quase todas as confrarias e irmandades da Igreja Católica e pretendia dominar o próprio poder eclesial.

Em Olinda, o próprio deão, Joaquim Francisco de Faria, vigário capitular, que, em duas vacâncias, tinha sido governador da Diocese, teve de ser suspenso pelo bispo por causa da sua recusa em desligar-se da maçonaria. Revoltado, ele liderou a insurreição dos maçons contra os jesuítas, cujo colégio foi assaltado e destruído; contra o jornal católico União, cuja tipografia foi destroçada; e contra a residência do bispo, que só não foi invadida porque, na última hora, surgiu uma proteção policial.


Fonte:

Texto adaptado pelo autor, do bispo católico, d. João Evangelista Martins Terra, publicado na revista Texto & Texts.


A Revolução Farroupilha (1835)

Também conhecida como Guerra dos Farrapos, foi a mais longa revolta de todo o período regencial e imperial, tendo ocorrido na província do Rio Grande do Sul. Os motivos de ordem econômica estão entre suas principais causas. A saber: o Rio Grande do Sul era um importante produtor de carne-seca e os comerciantes gaúchos exigiam maior proteção para o seu negócio por parte do governo central, devido à concorrência que sofriam de países platinos, os quais exportavam a carne-seca para o Brasil a preços incomparavelmente mais baixos. Além disso, os farroupilhas eram favoráveis a uma maior liberdade administrativa para sua província.

Os homens mais expressivos desse embate foram o general Bento Gonçalves da Silva, chefe militar do movimento e uma das figuras mais representativas da província, e o revolucionário maçom Giuseppe Garibaldi.

Segundo a historiadora Eliane Lucia Colussi, a Revolução Farroupilha e o movimento maçônico no Rio Grande do Sul foram concomitantes e estiveram unidos no campo das ideias. Outro historiador, João Pinto da Silva, citado por Colussi, “aponta a difusão das sociedades e clubes literários e secretos como algo fundamental para a vida política e cultural da província sulista às vésperas da Revolução Farroupilha. As dificuldades econômicas enfrentadas pelo Rio Grande do Sul, em razão de sua condição periférica e de sua economia voltada ao mercado interno, teriam estimulado a resistência às políticas do poder central. Tal situação coincidia com um ambiente cultural propício à difusão de associações de ‘lojas misteriosas’. Entre as sociedades secretas, a de maior destaque, na perspectiva da organização maçônica, foi o gabinete de leitura ‘O Continentino’, instalado na cidade de Porto Alegre”.

Nesse contexto, outro acontecimento que parece evocar a maçonaria foi o escape de Bento Gonçalves do presídio da Bahia, em 1837. Acredita-se que um plano da irmandade maçônica tenha sido colocado em ação para possibilitar a libertação de Bento Gonçalves. Conforme alguns pesquisadores, a maçonaria interveio no caso assim que Bento assumiu sua identidade maçom.


A independência do Brasil (1822)


O rei de Portugal, d. João VI, fugindo de Napoleão Bonaparte, chegou às terras brasileiras, com toda a sua corte e parte de seu tesouro, em 1808. A independência do Brasil está relacionada ao o retorno de d. João VI a Portugal, em 1821, como resultado da Revolução do Porto, nas terras lusitanas.

D. João VI regressou, mas aqui deixou seu filho como príncipe regente, o jovem Pedro de Alcântara, nosso d. Pedro I. Rapidamente, o príncipe, inexperiente, se viu envolvido com intelectuais políticos ligados à maçonaria e que constituíam a elite pensante da época.

As cortes de Lisboa exigiam, também, o regresso do príncipe, que deveria completar seus estudos em Portugal, mas José Bonifácio, Cipriano Barata e Gonçalves Ledo colecionaram em um documento oito mil assinaturas solicitando a permanência do príncipe no Brasil. O documento foi recebido e aprovado pelo príncipe em 9 de janeiro de 1822, data que ficou conhecida como o “dia do (eu) fico”.

Nesse mesmo ano, mais precisamente no dia 13 de maio, o senado e a maçonaria conferiram a d. Pedro o título de Defensor Perpétuo do Brasil. Meses depois, José Bonifácio aconselhou d. Pedro a assinar um decreto determinando que as ordens das cortes portuguesas somente seriam obedecidas no Brasil mediante autorização dele, o imperador.

Em 3 de junho de 1822, d. Pedro convocou uma assembleia com o escopo de elaborar a primeira Constituição do país, ato importante para a independência do Brasil. Naquele mesmo mês, a Loja Maçônica Comércio e Artes, repleta que estava de adeptos, decidiu multiplicar-se em outras duas lojas: Esperança de Niterói e União e Tranquilidade. Essas três lojas unidas foram responsáveis pelo surgimento do Grande Oriente do Brasil (GOB), entidade à qual estão subordinadas muitas lojas maçônicas atualmente. José Bonifácio foi eleito o primeiro grão-mestre, tendo Joaquim Gonçalves Ledo como primeiro vigilante e o padre Januário Cintra Barbosa como grande orador.

Conforme reza o Boletim Oficial do Grande Oriente do Brasil, de 1822, “o imperador d. Pedro foi grão-mestre da Ordem no período de 5 de agosto a 25 de outubro de 1822. Como se vê, sua fé de ofício maçônica é pequena. Tendo sido tão rápida sua passagem pela maçonaria, pouco há para se referir a respeito. Submetido a todas as provas do Ritual, adotou o nome maçônico simbólico Guatimozim, com o qual escreveu a música do hino maçônico, ainda em vigor. Aclamado grão-mestre da Ordem em 5 de agosto, dois meses depois, mais precisamente em 4 de outubro, tomou posse de seu cargo, que exerceu até o dia 25 do mesmo mês, quando houve a interrupção dos trabalhos maçônicos”.

No dia 7 de setembro, regressando de Santos para São Paulo, às margens do Ipiranga, d. Pedro, que, na ocasião, contava com apenas 24 anos, recebeu uma comitiva que lhe participou notícias incisivas de José Bonifácio. Após tomar conhecimento do conteúdo, teria declarado: “As cortes me perseguem, chamam-me, com desprezo, de rapazinho e de brasileiro. Verão, agora, quanto vale o rapazinho. De hoje em diante, estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal”.

No mesmo dia em que d. Pedro tomou posse do cargo de grão-mestre do Grande Oriente do Brasil, Joaquim Gonçalves Ledo redigiu a seguinte nota patriótica ao povo brasileiro: “Cidadãos! A liberdade identificou-se; a natureza nos grita independência, a razão nos insinua; a justiça o determina; a glória o pede; resistir-lhe é crime, hesitar é dos covardes, somos homens, somos brasileiros. Independência ou morte! Eis o grito de honra, eis o brado nacional”.

Sobre a atuação da maçonaria no processo de independência do Brasil, o livro didático Documentos históricos brasileiros, de Lydinéa Gasman, declara: “A maçonaria, perseguindo os ideais de liberdade e fraternidade, esteve presente em inúmeros movimentos em prol da Independência do Brasil. A iniciação de d. Pedro em seus quadros, que já contava com José Bonifácio, veio apenas confirmar o seu significado na jornada da emancipação brasileira do jugo português”.


A maçonaria e a abolição da escravatura (1888)


O professor Jefferson Fernandes Cajazeira, especialista em geopolítica e história, muito apropriadamente questiona os motivos que levaram a maçonaria a combater, apenas nesse período, o escravismo. Segundo ele, até então, a maçonaria era uma sociedade elitista, vinculada a uma economia centrada na atividade agrária, interessada, portanto, no regime escravocrata.

Após a segunda metade do século 19, entretanto, é possível ouvir vozes de envergadura dentro da maçonaria negando o regime de escravidão imposto ao negro, notadamente José do Patrocínio e Joaquim Nabuco.

Segundo Tenório d’Albuquerque, citado por Jefferson Cajazeria, “Eusébio de Queiroz, como verdadeiro maçom, era abolicionista e contava com o decidido apoio do senador Nabuco de Araújo. Enfrentando tenaz oposição dos escravocratas, dos indignos exploradores do braço negro, o Ministério arremessou-se à luta pela abolição. Em 4 de setembro de 1850, foi aprovada a Lei número 584, que proibia o tráfico de escravos e estabelecia penas rigorosas para os transgressores. [...] Foi a primeira lei, em realidade, eficiente contra a escravatura. Era a extinção do tráfico desumano dos africanos”.

Outro maçom, Uriel Rotta, “venerável mestre” da Fraternidade Acadêmica Universitária Bernardino de Campos, destaca o movimento da maçonaria também na Lei Áurea, ao lembrar que, “em 08 de maio de 1888, o ministro da agricultura, Rodrigo Silva, maçom declarado, apresentou o projeto de abolição, sancionado pela princesa Isabel, filha do imperador d. Pedro II, em 13 de maio do mesmo ano, declarando-se, assim, extinta a escravidão negra no Brasil”.


A Proclamação da República (1889)


A República dos Estados Unidos do Brasil foi proclamada em 15 de novembro de 1889 e inaugurou a forma republicana federativa presidencialista de governo em nosso país, derrubando a monarquia constitucional parlamentarista vigente e pondo fim à soberania do imperador d. Pedro II. Esse episódio ocorreu na capital do império, que, à época, era o Rio de Janeiro.

Conforme a narrativa de Visconde de Ouro Preto, em sua obra Advento da ditadura militar no Brasil, a proclamação foi oficializada após “um grupo de militares do Exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, dar um golpe de Estado, fazendo uso de coação [...] Foi instituído, naquele mesmo dia 15, um ‘governo provisório’ republicano. Faziam parte desse governo, organizado na noite de 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca, como Presidente da República e chefe do governo provisório, o marechal Floriano Peixoto, como vice-presidente, e, como ministros, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Campos Sales, Aristides Lobo, Demétrio Ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk, todos membros regulares da maçonaria brasileira”.

Assim, a maçonaria arroga para si a “honra” de poder declarar que o primeiro ministério republicano era todo constituído por maçons. O próprio Deodoro da Fonseca é apontado como 13º grão-mestre da maçonaria, iniciado em 20 de setembro de 1873, na Loja Maçônica Rocha Negra do Oriente, de São Gabriel, Estado do Rio Grande do Sul. Segundo o pesquisador especialista João Alves da Silva, o vice e posterior presidente, Floriano Peixoto, pertenceu à Loja Maçônica Perfeita Amizade Alagoana, tendo sido nela iniciado em 1875.


Vinte homens ilustres do Brasil aclamados pela maçonaria


A efetiva ligação de alguns desses homens com a maçonaria nem sempre é passível de comprovação sem controvérsias, mas há documentação suficiente sobre a maioria dos casos:


• Rei d. Pedro I

• Presidente Deodoro da Fonseca

• Presidente Floriano Peixoto

• Presidente Prudente de Morais

• Presidente Nilo Peçanha

• Presidente Hermes da Fonseca

• Presidente Jânio Quadros

• Presidente Wenceslau Pereira

• Presidente Washington Luiz Pereira

• Presidente Nereu Ramos

• Presidente João Café Filho

• José Bonifácio de Andrada e Silva

• Joaquim Gonçalves Ledo

• Joaquim Nabuco

• Duque de Caxias

• Barão do Rio Branco

• Visconde de Taunay

• Benjamim Constant

• José do Patrocínio

• Eusébio de Queiroz


A influência da Igreja evangélica na sociedade


Independente dos interesses e das motivações maçônicas, quase sempre apresentadas pelos maçons de forma romântica e, em alguns pontos, quase fictícia, seria hipocrisia negar a atuação da maçonaria em nossa sociedade, seja no âmbito filantrópico, nos meandros sociais, ou na atmosfera política entre os poderes regentes de nosso país.

A reflexão que fica após toda essa leitura é: Qual tem sido a contribuição da Igreja evangélica para a transformação da nossa nação? Hoje, somos quase 40 milhões de crentes, mas o impacto de tantos salvos não repercute socialmente na mesma proporção. Por quê?

Excetuando-se algumas vozes corajosas, que “clamam no deserto”, a participação da Igreja evangélica nas discussões mais acaloradas do cristianismo, envolvendo política, é muito pequena, sendo superada inclusive pela Igreja Católica, muito mais engajada na luta contra o liberalismo que envolve a homossexualidade e o aborto, por exemplo.

Definitivamente, não precisamos da maçonaria para fazer valer a nossa influência. A Igreja evangélica brasileira tem condições de se fazer representar, de forma eloquente, em todas as esferas da sociedade. Mas, talvez, neste sentido, tenhamos algo a aprender com os maçons...


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http://bibliot3ca.wordpress.com/a-presenca-de-clerigos-catolicos-na-maconaria/

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