Defesa da Fé


Um Deus à nossa imagem e semelhança?!


Por Antonio Lazarini Neto

Mestre em Ciências da Religião e diretor-geral e professor da Faculdade Teológica Batista de Campinas (SP)


Geralmente, as pessoas definem Deus ao seu próprio modo e, consequentemente, suas definições particulares podem não estar alinhadas com as Sagradas Escrituras e muito menos alicerçadas na Bíblia que o cristianismo considera ser a Palavra de Deus.

O estudo de Deus, caracterizado pela busca da compreensão do seu caráter, da sua natureza e de suas ações, constitui-se em algo relevante e profundamente prático para a vida de qualquer indivíduo. No entanto, conhecer Deus na prática não é o mesmo que conhecê-lo de forma subjetiva. O retrato de Deus encontrado nas páginas da Bíblia não reflete apenas uma teoria dogmática a respeito dele, mas uma relação com a realidade da vida cotidiana das pessoas. Assim, conhecer Deus na prática não pode significar conhecê-lo de qualquer jeito!

Como Deus está definido para você, amado leitor? Quem é Ele? O que Ele faz? Qual é o seu modo de agir? Quais são os seus atributos, as qualidades a Ele atribuídas? Qual é o retrato, a imagem que vem à sua mente, quando você pensa ou menciona o nome Deus?


O Deus da fé sensorial


A tentação do nosso tempo é a “gestação” de definições muito particulares — por demais privadas e inegavelmente pessoais — acerca de Deus. Cada pessoa pode, sem um referencial seguro, fazer o inverso da criação. Ou seja, em vez de compreender que fora criada à imagem e semelhança de Deus, “criar” um Deus à sua imagem e à sua semelhança. É um Deus que sai da cabeça do indivíduo e, na maioria das vezes, com a “cara” daquele que o idealizou. É a criação invertida, o nascedouro da idolatria, que nada mais é do que confeccionar um Deus que atenda às suas expectativas locais e aos seus caprichos particulares.

Isaías 45.15 declara: “Verdadeiramente, tu és Deus misterioso, ó Deus de Israel, ó Salvador”. A Versão Almeida Revista e Corrigida substitui “misterioso” pela frase “que te ocultas”, mas as duas expressões conferem a Deus uma tonalidade mística, velada, enigmática e incompreensível. Todavia, da boca de quem saem tais palavras? No verso 14, entendemos que “o trabalho do Egito, e o comércio dos etíopes, e os sabeus, homens de alta estatura, se passarão para ti e serão teus; irão atrás de ti, virão em grilhões e diante de ti se prostrarão; far-te-ão as suas súplicas, dizendo: Deveras Deus está em ti, e nenhum outro deus há mais”.

Desse modo, o verso 15 mostra o que Deus disse aquilo que os egípcios, os etíopes e os sabeus iriam dizer. Deus estava dizendo a Ciro que ele se faria conhecer até por aqueles que não o seguiam. Haveria um reconhecimento das nações vizinhas e inimigas de Israel de que o Senhor é verdadeiramente Deus, ainda que, para aquela gente, Ele fosse incompreensível, misterioso. Mas, e quanto a Israel e ao seu povo?

Os versos 17 a 23 esclarecem: “Israel, porém, será salvo pelo Senhor com salvação eterna; não sereis envergonhados, nem confundidos em toda a eternidade. Porque assim diz o Senhor, que criou os céus, o Deus que formou a terra, que a fez e a estabeleceu; que não a criou para ser um caos, mas para ser habitada: Eu sou o Senhor e não há outro. Não falei em segredo, nem em lugar algum de trevas da terra; não disse à descendência de Jacó: Buscai-me em vão; eu, o Senhor, falo a verdade e proclamo o que é direito. Congregai-vos e vinde; chegai-vos todos juntos, vós que escapastes das nações; nada sabem os que carregam o lenho das suas imagens de escultura e fazem súplicas a um deus que não pode salvar. Declarai e apresentai as vossas razões. Que tomem conselho uns com os outros. Quem fez ouvir isto desde a antiguidade? Quem desde aquele tempo o anunciou? Porventura, não o fiz eu, o Senhor? Pois não há outro Deus, senão eu, Deus justo e Salvador não há além de mim. Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro. Por mim mesmo tenho jurado; da minha boca saiu o que é justo, e a minha palavra não tornará atrás. Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua”.

Para Israel, Deus se manifestava de várias maneiras e não falava “em segredo” ou em “algum lugar de trevas”. Sua presença na vivência de Israel como Deus único, justo e salvador era tão clara que até podia dizer ao povo: “Olhem para mim!”. Por isso que, para eles, o conhecimento de Deus não caracterizava uma busca vã e inútil.

Mas, a questão ainda é: De onde vêm as definições que as pessoas têm de Deus? As igrejas falam sobre Deus nas suas orações e, por suas músicas, em muitas ocasiões, expressam os atributos de Deus. Mas, será que sabem do que se trata, ou melhor, de quem se trata? Onde está embasada a concepção de Deus que aqui e ali as igrejas expressam? Quem é Deus para o povo que cultua nos templos religiosos?

As orações do povo, a música da igreja e os testemunhos dos cristãos refletem as ideias sobre Deus. É notória a prática de uma devoção obcecada, neurótica e, por vezes, caprichosa, onde se opta por estar não aos pés de Deus, mas “no pé dele”, para que prove, a todo instante, se Ele é Deus de verdade. Há aqueles que fazem da oração uma obsessão e “não dão sossego” para Deus enquanto não age segundo as suas vontades ou atende aos seus aferros. Cada vez mais, parece crescer a casta de cristãos que está longe da tão necessária reeducação da mente que possibilita ao ser humano descansar na certeza de que Deus é Deus, independente de Ele atender ou não aos desejos de quem o busca.

Não é difícil, também, perceber que há uma quantidade significativa de músicas que se tornou parte dos cultos evangélicos que ameaça a beleza do senhorio e da soberania de Deus que tanto bem faria à alma de qualquer adorador sincero. São letras que saltaram de cabeças que pensam Deus de uma forma muito subjetiva e até ferem a revelação do próprio Deus descrita nas páginas das Escrituras.

Os testemunhos cristãos denotam um estranho desejo de intimidade com Deus que supera a demonstração de amor a Ele pela obediência. Multiplica-se o número daqueles que dizem ter visto Deus como nunca se viu na história e o experimentado numa intensidade tal como em nenhum lugar da Bíblia houve alguma orientação de como chegar lá!

À semelhança de algumas religiões gregas do passado, já não se adora uma divindade, mas busca-se uma relação de amor com Deus na tentativa de aliciá-lo, de assediá-lo e de impressioná-lo com lisonjas. Aquela adoração que se prostra e pela qual o adorador nega-se a si mesmo, pode dar lugar a um impulso por excitação pessoal, que se diz apaixonado por Deus, mas, em muitos casos (não todos!), num sentido efêmero, passageiro, liberal e sem compromisso. Assim, a fé acaba se tornando visceralmente sensorial, isto é, supervaloriza as sensações, desprovida de um compromisso que encarna as verdades da Palavra de Deus.

A. W. Tozer dizia que “essa perda do conceito da majestade ocorre quando as forças da religião começam a ganhar terreno de maneira dramática e as igrejas se tornam mais prósperas do que em qualquer outra época dos últimos séculos”. A questão é se esses lucros externos não estão causando um prejuízo interno. O alvo da fé contemporânea pode ser reduzido a uma “experiência diferente”, mas que “não faz diferença na vida” de quem a experimenta.


Os traços de Deus na Bíblia


A qualidade do movimento cristão está diretamente ligada aos pensamentos que cada cristão alimenta a respeito de Deus. No Salmo 50.21, a voz de Deus reclama: “Pensavas que eu era teu igual”. Alguém já disse que Deus não é exatamente como ninguém ou nenhuma coisa. Ele não pode ser comparado a nada. Não se trata de como o homem ou a humanidade se vê, mas qual imagem tem esse homem ou essa humanidade diante de si acerca de Deus. “Um deus gerado nas sombras de um coração decaído jamais corresponderá à imagem real do Deus verdadeiro”.

Davi, no Salmo 40, traz conceitos tão diferentes. No verso 6, ele assim se expressa: “Sacrifícios e ofertas não quiseste; abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado não requeres”.

A expressão “abriste os meus ouvidos” sofreu com a tradução. Houve uma perda do sentido original hebraico. A NIV assim traduziu: “Mas as minhas orelhas perfuraste”. Davi estava descrevendo o que Deus fizera a ele, reportando-se ao costume de perfurar a orelha de um escravo que não quisesse deixar o seu senhor, embora tivesse o direito e a opção de abandoná-lo. Tais prescrições se encontram em Êxodo: “Se comprares um escravo hebreu, seis anos servirá; mas, ao sétimo, sairá forro, de graça [...] Mas, se o escravo expressamente disser: Eu amo meu senhor, minha mulher e meus filhos, não quero sair forro. Então, o seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta ou à ombreira, e o seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre” (21.2,5,6).

A declaração de Davi tem a ver com um conhecimento genuíno de quem Deus é. Ele o conhece tanto que resolveu servi-lo por amor, como um escravo voluntário. Os versos 7 e 8 nos ajudam a compreender melhor a experiência de Davi: “Então, eu disse: eis aqui estou, no rolo do livro está escrito a meu respeito; agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei”.

Davi sabia quem Deus era. Mais do que isso, sabia o que o poderia agradar. Ele não gerou um deus dentro do universo da sua própria subjetividade, mas entendeu, em sua experiência com Deus, que o supremo Senhor tinha prazer em ver a lei dentro do seu coração.

Winkie A. Pratney, em seu livro, intitulado A natureza e o caráter de Deus, cita as palavras de Gerhard Tersteegen, as quais podem ser consideradas extraordinárias e deslumbrantes: “Ó Deus, tu és completamente diferente do que os homens sonham e ensinam; indescritível em qualquer linguagem, não representável em qualquer pensamento. Tu, Deus, és Deus — eles apenas aprendem que o teu grande nome deve ser daquele cujo coração arrebatado dentro de si arde porque caminha contigo”.

O que encontramos nas Sagradas Escrituras, quando nos detemos em lê-la, são “traços divinos” que vêm do deserto de Moisés, das batalhas de Josué e seu povo, dos pastos de Davi, da rotina apaixonada e estressante dos profetas, das caminhadas dos apóstolos com Jesus de Nazaré, das viagens cansativas e perigosas do apóstolo Paulo e seus companheiros e das experiências visionárias de homens de Deus, como João de Patmos.

Vejamos, por exemplo, a saga de Jó. Sua história já conhecemos bem. Mas, às vezes, não nos atentamos ao “livro de Jó”, composto por discursos que são reflexões humanas que tentam entender e interpretar as dificuldades pelas quais passa o ser humano, além de conter intervenções de Deus que, de fato, não têm a função de esclarecer os questionamentos humanos, mas, sim, de afirmar a soberania independente de Deus e lembrar ao homem sua incapacidade de entender o plano divino.

A situação difícil de Jó provoca reflexão em todos os que estão à sua volta! Todos se perguntam por que e para que tudo aquilo estava acontecendo. A tentativa de dar resposta às circunstâncias que não entendem os leva a pensar na existência de Deus, no seu caráter e em como Ele se manifesta.

Jó tinha seus amigos que vinham visitá-lo. Aqueles homens figuram o mundo que o rodeava tentando explicar sua trágica situação. Seus nomes eram Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú. Em Jó 42.7-9 há uma repreensão de Deus aos primeiros três, mas Eliú é poupado, o que pode ser um indício de que suas palavras foram mais sábias que as dos demais.

Jó 37.5, tanto na versão Almeida Revista e Atualizada (ARA) quanto na Versão Corrigida (ARC) foi traduzido assim: “Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que nós não compreendemos”. O versículo reproduz palavras de Eliú e é uma espécie de síntese de um dos seus discursos.

Eliú usa os fenômenos naturais, como chuva, trovões, ventos e relâmpagos, entre outros, como forma de mostrar a Jó a grandiosidade de Deus. Por isso, Eliú faz duas afirmações sobre Deus ao seu amigo. A primeira é que “a voz de Deus troveja maravilhosamente” — talvez, estivessem de fato debaixo de uma forte tempestade, ouvindo aqueles fortes e prolongados trovões. A segunda é que “Deus faz coisas muito grandes”. Eliú queria que Jó compreendesse que o que Deus diz e faz, por meio das circunstâncias, está acima da nossa compreensão.

Todavia, Eliú assegura ao seu amigo que, ainda que Deus seja soberano e esteja bem acima da compreensão humana, seu caráter e suas ações são justíssimas. O verso 23 registra: “Ao Todo-Poderoso, não o podemos alcançar; ele é grande em poder, porém não perverte o juízo e a plenitude da justiça”. Ou, como traduziu a Nova Versão Internacional (NVI): “Fora de nosso alcance está o Todo-Poderoso, exaltado em poder; mas, em sua justiça e retidão, não oprime ninguém”.

Quando tamanho retrato de Deus é percebido na experiência diária de obediência aos seus princípios, fugimos da tentação de criar um Deus à nossa imagem e segundo a nossa semelhança e, como povo de Deus, nos tornamos fortes e ativos (Dn 11.32), levando a igreja a ser uma comunidade relevante e não apenas respeitada por aqueles que a cercam.

Curso Teologia Online Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Básico de Teologia Série Apologética Curso Médio de Teologia Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Bacharel de Teologia Série Apologética

ICP - Instituto Cristão de Pesquisas © Todos os direitos reservados. 2017