Defesa da Fé


Controvérsias da CCB


A saudação, o ósculo, o véu, a oração, o diaconato e o batismo (Parte 4)


Por Elvis Brassaroto Aleixo

Bacharel em Teologia pela FWM e mestre em crítica literária pela UNICAMP


Nas três matérias anteriores, tratamos sobre o perfil da CCB e sua representatividade no meio pentecostal; o emprego da Bíblia com finalidades divinatórias; o proselitismo e o exclusivismo; a censura ao dízimo e ao sustento pastoral; além de outros elementos, como, por exemplo, a liturgia, a hierarquia e a administração. Neste artigo, trataremos de outras controvérsias, em geral, relacionadas a normatizações proibitivas, tais como: a única saudação correta entre os irmãos é “a paz de Deus”; o cumprimento entre os homens deve ser feito com o ósculo santo; as irmãs não devem cultuar a Deus sem o véu na cabeça; Deus recebe somente orações realizadas de joelhos; o batismo possui implicações salvíficas; e, por fim, a necessidade de ser ancião para exercer o diaconato. Vejamos, a seguir, como uma interpretação bíblica correta pode nos ajudar a dirimir esses impasses.


A paz de Deus!


Nas Sagradas Escrituras, encontramos inúmeros exemplos de saudações cristãs, especialmente nas epístolas do Novo Testamento. A epístola, como gênero literário, independente de seu conteúdo religioso, oferece condições apropriadas para a saudação, por isso estão quase sempre situadas nos primeiros versículos das cartas de Paulo, Pedro, João e Tiago.

O apóstolo Paulo, escritor mais pródigo do Novo Testamento, evoca muito frequentemente a graça e a paz de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo (Fl 1.2; Ef 1.2; Gl 1.3; 1Co 1.3; 2Co 1.2; Rm 1.7). O apóstolo Pedro, além da graça e da paz, menciona a presciência de Deus Pai e a santificação do Espírito (1Pe 1.2). Judas saúda com a paz, o amor e a misericórdia (Jd 1.2), assim como o apóstolo João, que relaciona tudo isso à verdade (2Jo 3). Tiago, diferentemente de todos, deseja saúde aos seus destinatários (Tg 1.1).

Todas essas referências atestam que a saudação é um elemento muito peculiar de cada escritor e, consequentemente, variável, sendo um dos importantes fatores para se determinar a autoria de uma epístola por meio da verificação de seu estilo, quando não há testemunho claro de quem a escreveu. O próprio Jesus tinha sua maneira peculiar de saudação: “E falando destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: Paz seja convosco” (Lc 24.36 – grifo do autor).

A CCB, no entanto, ignorando todos esses exemplos. Elegeu a expressão “a paz de Deus!” como sua saudação oficial, o que não chega a ser um problema em si, porquanto esta expressão também é bíblica, embora não a encontremos em saudações propriamente ditas (Fl 4.7; Cl 3.15). A bem da verdade, a maioria das denominações evangélicas preserva uma maneira mais corriqueira de saudação, em detrimento das demais possíveis. Isso é tão factual que, muitas vezes, uma simples saudação na igreja serve como um provável indício da denominação frequentada pelo saudador.

A grande diferença, porém, é que as igrejas evangélicas não impõem aos seus membros uma única forma estratificada de saudação, muito menos a defendem como a melhor ou a única correta, desmerecendo as demais por meio de argumentos insustentáveis. Mas, qual seria o argumento propalado pelos membros da CCB?

Os membros da CCB resistem ao emprego do termo “senhor” nas saudações, pois, segundo afirmam, existem muitos senhores, mas apenas um Deus. Assim, quando alguém saúda a igreja com “a paz do Senhor”, não estaria claro a que senhor se destina a saudação. Logo, como se observa, os membros da CCB tropeçam por falta de um conhecimento quase banal ao confundirem o termo “Senhor”, que é um título divino, proveniente do hebraico Shalom e do grego Kýrios, com o pronome de tratamento “senhor”, da língua portuguesa. Os pronomes de tratamento são palavras que exprimem o distanciamento e a subordinação em que uma pessoa voluntariamente se põe em relação a outra, a fim de agradá-la e ensejar um bom relacionamento, não sendo este o caso na saudação “A paz do Senhor” (em hebraico Shalom Adonai).

Sobre esse título, o apóstolo Paulo ensina: “Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo.” (1Co 12.3 – grifo do autor). Quando tentaram forçar Policarpo, um dos pais da Igreja primitiva, a clamar a expressão “Senhor César!”, no culto ao imperador, ele disse “Senhor Jesus!”, recusando-se a cultuar César. Caso o termo “senhor” fosse mero pronome de tratamento, isso seria um absurdo.

Além disso, é verdade que só existe um deus digno de culto, mas o termo “deus” é empregado também para se referir a Satanás: “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.” (2Co 4.4 – grifo do autor). Qualquer estudo teológico introdutório sobre os nomes de Deus mostrará facilmente que o termo “deus” é muito mais genérico e menos contundente que o vocábulo “senhor”, que é específico e exclusivamente tributado a Jesus, no contexto cristão.

Esse tipo de equívoco tão simples aqui exposto é o suficiente para mostrar quão prejudicial pode ser a marginalização do estudo bíblico-teológico, que expõe os crentes da CCB a interpretações totalmente desprovidas de nexo, quase ensejando comentários anedóticos.


O ósculo santo


Ainda no âmbito da saudação, prosseguimos, agora, falando sobre o ósculo santo, tipo de cumprimento em que as pessoas se beijam, como sinal de comunhão e amizade. Jesus, Paulo e Pedro falaram sobre o ósculo santo e, em especial os apóstolos, chegaram, inclusive, a recomendá-lo em suas epístolas (Lc 7.45; Rm 16.16; 1Co 16.20; 2Co 13.12; 1Ts 5.26; 1Pe 5.14). Mas isso, salientamos, ocorreu no contexto cultural judaico, que não pode ser vertido para o contexto ocidental sem reservas.

A CCB usa a saudação oscular como se fosse uma bandeira de superioridade em relação às demais igrejas evangélicas, sendo muito comum seus membros julgarem que há mais comunhão e santidade na CCB, devido à observância desse tipo de cumprimento. Ocorre que o ósculo não passa de um costume oriental, nada tendo de superior ao nosso costumeiro aperto de mão ocidental. Aliás, o ósculo é um hábito que remonta aos tempos do Antigo Testamento, como podemos ler em alguns textos bíblicos: “Então Esaú correu-lhe ao encontro [de Jacó], e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço, e beijou-o; e choraram” (Gn 33.4 – grifo do autor. V. tb. Gn 29.11; 1Sm 10.1).

Beijar alguém ao cumprimentar não é necessariamente sinal de santidade, Judas Iscariotes que o diga! (Lc 22.48). Os argentinos, os italianos e os franceses preservam esse costume até hoje, que é raro no resto do mundo ocidental, diga-se de passagem. Não precisa ser versado em antropologia cultural para saber que os cumprimentos variam de acordo com as culturas. Os japoneses saúdam curvando a coluna em direção à pessoa saudada. Em outros países asiáticos, a saudação é realizada pela união das próprias mãos, sem contato com a outra pessoa. Em algumas regiões dos EUA e da Austrália, ainda se preserva o costume de saudar o outro levantando levemente o chapéu, que, a propósito, não é usado em lugares considerados sagrados. Existem até alguns tipos de cumprimentos exóticos para nós, como é o caso dos esquimós, que se cumprimentam esfregando as pontas dos narizes.

Não bastasse isso, vemos na Bíblia o ósculo sendo utilizado no contexto das culturas pagãs, até mesmo em atos litúrgicos idolátricos. No texto de 1Reis 19.18, percebemos que os seguidores de Baal tinham o costume de oscular sua imagem: “Também deixei ficar em Israel sete mil: todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou” (grifo do autor). Em Oseias 13.2, lemos algo semelhante: “E agora multiplicaram pecados, e da sua prata fizeram uma imagem de fundição, ídolos segundo o seu entendimento, todos obra de artífices, dos quais dizem: Os homens que sacrificam beijem os bezerros” (grifo do autor).

Milton Narita, especialista em culturas, explica que, em alguns ritos maçônicos, observa-se o que eles chamam de “ósculo da fraternidade”, dado pelo dirigente da cerimônia de iniciação na testa do neófito. A intenção do oficiante é tocar a mente do iniciado para selá-lo misticamente, segundo a simbologia maçônica.

Ademais, não há evidências de que os membros da CCB praticam o ósculo santo tal como recomendado pelos apóstolos, pois não é possível provar pelas páginas bíblicas que o ósculo santo estava limitado às pessoas do mesmo sexo, como ocorre na CCB. Ao contrário, as expressões bíblicas são vagas: “Saudai-vos, uns aos outros, com ósculo santo” (1Co 16.20), dando margem para sua prática entre pessoas de sexos diferentes, o que, em certo sentido, seria ainda mais coerente. Afinal, o ósculo é “santo”, portanto, desprovido de pensamentos maliciosos.

Em suma, a saudação com ósculo é uma questão de costume e não deve ser dogmatizada, como faz a CCB. Afora o choque cultural, não censuramos essa prática, mas o preciosismo que esse grupo confere a tal costume é injustificado e não pode ser, por si só, um termômetro para aferição de comunhão ou santidade entre os irmãos.


O véu sobre a cabeça


Outro assunto polêmico e também motivado por questões culturais é a cobertura da cabeça das mulheres com o véu nos cultos. O texto que serve de base para a CCB é escrito por Paulo nos seguintes termos: “Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu. O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem [...] Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos” (1Co 11.5-10).

Segundo a revista Moda noiva, há anotações históricas sobre o uso de véu em diversas culturas. “Em geral, esse assessório feminino está associado a costumes religiosos, mas também já foi usado para proteção e até para sedução”. Veja o leitor como o costume de uma sociedade pode relativizar o significado de uma peça de vestuário.

No contexto islâmico, Yasmin Anukit, especialista em museologia e sagrado feminino, lembra que “Mohamed instituiu o uso do véu a partir do século 6o, na Arábia, para que as muçulmanas também gozassem da mesma dignidade das demais seguidoras entre os povos da Bíblia [...] seu uso simbolizava a elevação espiritual da condição feminina [...] Com o tempo, na forma de burkas, xadors e abayas, o véu veio a cair nas mãos de uma intolerância patriarcal cada vez maior, tornando-se motivo de apologia entre os fundamentalistas da Arábia Saudita, radicais do Irã pós-Khomeíni, talibãs afegãos e guerrilheiros do Hamas, na Palestina. Para esses, o véu tornou-se uma arma de controle e exclusão, privando a mulher de escolha quanto à sua própria indumentária [...] hoje em dia, eventualmente, esta questão se reverte, pois muitas mulheres muçulmanas passam a reivindicar o uso do véu, tanto no Oriente Médio quanto na Europa, como uma afirmação de identidade religiosa e como um ato de resistência cultural”.

Nesse contexto de afirmação religiosa, no ano retrasado, a França proibiu legalmente o uso do véu pelas muçulmanas em lugares públicos, a fim de tentar minorar e afrontar a influência dos cinco milhões de islâmicos que vivem no país. Segundo informações do site “Jornalismo educativo”, a multa para quem utilizasse os trajes seria de 150 euros, o equivalente a aproximadamente 342 reais. O homem que obrigasse sua esposa a usar o véu poderia ser multado em até 30 mil euros (68 mil reais) e ser condenado a um ano de prisão. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, chegou a dizer publicamente que os muçulmanos que não se adaptassem aos costumes das comunidades francesas não seriam bem-vindos no país. Para ele, a burca é um símbolo de servidão e contrário à ideia da república francesa sobre a dignidade da mulher.

Esses comentários vêm nos mostrar o quanto o uso do véu está relacionado aos costumes e culturas. Então, a pergunta central para o entendimento da sequência bíblica aos coríntios é por que as mulheres daquela cidade precisavam usar o véu? Será que as razões que justificavam essa necessidade, naquela época e espaço, ainda subsistem hoje, em nossa sociedade? Será que os membros da CCB já ouviram ao menos falar dessas razões? Qual foi o contexto da recomendação de Paulo aos coríntios?

Como comenta o professor Caramuru Afonso, a cidade de Corinto tinha uma situação privilegiada. Localizava-se no extremo ocidente, entre a Grécia central e o Peloponeso (península do sul da Grécia), o que conferia condições para controlar muitas rotas comerciais. Foi uma cidade próspera e cosmopolita, ou seja, que atraía gente de todas as partes do mundo. Como se não bastasse, enquanto cidade grega, Corinto foi centro de adoração a Afrodite, a “deusa do amor”, de tal sorte que logo ali se estabeleceram, também, diversos cultos a deuses de fertilidade, e a cidade era conhecida pelo número de “prostitutas cultuais”. Para se ter uma ideia, o historiador e geógrafo grego Estrabão (64/63 a.C. – 24 d.C.) afirmou que, em Corinto, havia cerca de mil prostitutas cultuais na sua época.

Mas, o que tem a ver isso com o uso do véu? O fato é que o apóstolo Paulo não escreve a sequência de versículos destacada no início desse tópico para discutir sobre o uso do véu em si mesmo, mas para tratar sobre a posição da mulher na sociedade, especialmente sobre sua submissão, em amor, devida ao seu marido. Naquela época, uma mulher sem o véu, na igreja ou fora dela, podia indicar pelo menos três condições sociais:luto, adultério ou, ainda, sua identificação com o exercício da prostituição, praticada em cada esquina de Corinto.

Assim, perguntamos aos defensores do véu: hoje, em nossa sociedade, a ausência do véu significa qualquer uma dessas coisas? Alguém em sã consciência ousaria rotular uma mulher de adúltera por não usar o véu? Ou arriscaria consolá-la por causa de seu suposto luto? Ou, ainda mais grave, consideraria uma mulher sem véu como prostituta? Qual é o critério de vestuário que um fornicador contumaz dos nossos dias empregaria para identificar uma meretriz na praça? Seria a ausência do véu? É óbvio que não! Está claro que essa simbologia se perdeu com o decorrer dos séculos e se tornou obsoleta entre os cristãos atuais.

Como explica R. N. Champlin, acreditamos que “a ordem divina dos poderes, de hierarquias, de quem deve estar sujeito a quem, pode ser mantida hoje, sem os sinais externos, como, por exemplo, o uso do véu”. Essa exposição não significa, contudo, que devemos pregar contra o uso do véu. Apenas quer nos elucidar que o propósito que justifica seu uso não faz mais sentido, o que torna inconsistente a condenação que alguns membros da CCB promovem às mulheres evangélicas de outras denominações que não observam semelhante costume.

Mais uma vez, portanto, o problema não está em observar um costume oriental, mas, sim, dogmatizá-lo e usá-lo como emblema de santificação e superioridade. Estamos novamente diante de uma questão cultural e não doutrinária.


A oração de joelhos


Segundo creem certos membros da CCB, Deus atende apenas às orações realizadas de joelhos e os que fazem diferente são “fariseus”.

Inegavelmente, a prostração diante da presença de Deus visa demonstrar, por parte dos verdadeiros adoradores (nem todos o são!), a reverência devida à sua majestade e o reconhecimento de seu senhorio. Isso é tão verdadeiro que, num tempo escatológico, não haverá quem deixará de se prostrar diante de Jesus. Assim explica Paulo: “Por isso, também Deus o exaltou [Jesus] soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl 2.9-11 – grifo do autor).

Contudo, depreender disso que Deus não atende orações realizadas em outra posição física é inconcebível. Segundo esse “raciocínio”, como faria para orar uma pessoa num leito de enfermidade, num hospital? E o que dizer de um deficiente físico ou alguém que estivesse impossibilitado por qualquer outro motivo? Como seria possível interpretar a recomendação de Paulo sobre “orar sem cessar”? (1Ts 5.17).

Impor a posição em que os crentes devem orar é usurpar o lugar de Deus, limitando sua ação e proibindo o que sua Palavra não proíbe. Será que Jonas estava ajoelhado quando orou dentro do ventre do grande peixe? “E orou Jonas ao Senhor, seu Deus, das entranhas do peixe” (Jn 2.1).

E quanto a Jesus? Seria possível orar ajoelhado, estando crucificado? “E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34).

Lembram-se os crentes da CCB que uma oração de Jesus, em pé, e com os olhos abertos, ressuscitou um morto há quatro dias? “Tiraram, pois, a pedra de onde o defunto jazia. E Jesus, levantando os olhos para cima, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste” (Jo 11.41,42 – grifo do autor).

Hoje em dia, as diferentes liturgias seguidas nas diversas denominações evangélicas contemplam orações com os crentes de joelhos, sentados com as frontes curvadas, ou ainda em pé. E Deus atende, não por causa da posição física dos crentes, mas por causa de seu amor, sua condescendência e sua onisciência, que lhe permite perscrutar o coração do fiel que lhe dirige a petição. É o pecado que impede o Senhor de nos ouvir e não a posição do nosso corpo no momento da oração: “Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal” (Is 1.15,16).


A restrição do diaconato aos anciãos


Na gênese da Igreja cristã, em Atos dos apóstolos, lemos sobre a instituição do diaconato e temos informação de que foram sete os primeiros diáconos selecionados para o serviço junto às viúvas gentias que não podiam ser socorridas pelos apóstolos. “E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra. E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timão, e Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia; e os apresentaram ante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos” (At 6.2-6).

Em toda a narrativa da escolha dos diáconos, não vemos a velhice como um pré-requisito para o serviço dedicado a Deus, embora a experiência acumulada pelos anos seja sempre bem-vinda. Os dois únicos epítetos do texto nada falam sobre idade. Sabemos que Nicolau era “prosélito de Antioquia”, o que não é um requisito para consagração, e que Estêvão era “homem cheio de fé e do Espírito Santo”, que é o parâmetro seguido pelas igrejas evangélicas para consagrar seus diáconos, ou seja, a comunhão com Deus.

Quando Paulo fala dos atributos que deve ter os diáconos ao seu jovem discípulo Timóteo, a idade novamente não é mencionada como pré-requisito: “Da mesma sorte os diáconos sejam honestos, não de língua dobre, não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância; guardando o mistério da fé numa consciência pura. E também estes sejam primeiro provados, depois sirvam, se forem irrepreensíveis [...] sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a seus filhos e suas próprias casas. Porque os que servirem bem como diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus” (1Tm 3.8-13).

Portanto, a honra aos anciãos das igrejas é algo louvável, mas, se quisermos nos pautar pela Bíblia, não é norma para consagração do diaconato.


A declamação batismal


Em primeiro lugar, é mister lembrar que a CCB emprega uma fórmula diferente para a prática batismal. Tomando as palavras do renomado apologista Natanael Rinaldi, que muito colaborou para esta sequência de matérias sobre a CCB, esse grupo realiza o batismo usando as palavras: “Em nome do Senhor Jesus (At 2.38), te batizo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 2818-19), conforme consta no livreto Batismo por imersão.

Segundo explica Rinaldi, “os adeptos da CCB acreditam que o único batismo válido diante de Deus é o que é praticado de acordo com a fórmula que eles criaram. Todos os que não são batizados nos moldes da CCB devem negar a experiência anterior e ser rebatizados em nome de Jesus”.

O ensino da Bíblia sobre o ritual do batismo prescreve que esse ato deve ser feito “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.18,19). Não há que se acrescentar antes a expressão “em nome de Jesus”, até porque Jesus é o Filho do Pai (2Jo 1.3). Grupos unicistas têm defendido o batismo apenas em nome de Jesus, com vistas à negação da Trindade, buscando amparo em textos como Atos 2.38; 8,16; 10.48 e 19.5. Mas, será que esses textos alteram a recomendação batismal deixada pelo próprio Jesus?

Analisemos as referências: “Eram batizados em nome do Senhor Jesus” (8.16); “batizados em nome do Senhor” (10.48); e “batizados em nome do Senhor Jesus” (19.5). Lendo esses textos atentamente, observamos que não se trata de uma fórmula batismal, pois não são uniformes, antes, suas expressões são variadas. Obviamente, a declaração em foco, que diz: “E cada um seja batizado em nome de Jesus Cristo” (2.38), está se referindo à ideia de “pela autoridade de Jesus”, como se lê nas passagens 3.16 e 16.18, nas quais a autoridade de Jesus é invocada. Isso é válido para a interpretação de todos os demais textos utilizados pelos unicistas.

Ademais, a declamação batismal de Mateus 28.18,19 foi ratificada pelos pais da Igreja primitiva desde os tempos cristãos mais remotos e autenticada, em diversas passagens da obra Os ensinos dos doze apóstolos, conhecida também como Didaquê.

Apesar de a CCB não negar a doutrina da Trindade, infelizmente, ao antepor a expressão “em nome de Jesus” na declamação batismal, acaba fazendo coro com os unicistas, e indo além, ao criar uma fórmula “quaternária” para a realização de seus batismos.

Outro ponto ainda relacionado à declamação batismal da CCB e refutado pelo ministério Sola Scriptura, relaciona-se à expressão “eu te batizo”. A CCB entende que, ao dizer: “eu te batizo”, é a carne que opera e o homem se coloca na frente de Deus. Mais uma vez, alguns membros da CCB parecem desconhecer a língua portuguesa, pois que diferença há em dizer: “eu te batizo” ou “te batizo”, como eles usam fazer? O sujeito não está oculto? (também chamado elíptico e desinencial). Se pelo fato de utilizarmos a expressão “eu te batizo” estivermos aborrecendo o Senhor Deus, João Batista o teria ofendido grandemente, pois ele dizia “eu vos batizo com água”. Será que a CCB julga que João Batista era carnal e se colocava na frente de Deus? Justo ele, que disse, “importa que ele [Jesus] cresça e eu diminua” (Jo 3.30).

Isso tudo leva a CCB a praticar o “rebatismo” ao negar esse rito ministrado na vida dos crentes das outras igrejas evangélicas, acentuando seu exclusivismo e permitindo uma comparação explícita com outros grupos sectários. Se a CCB é uma denominação evangélica, não deveria seguir a recomendação de Paulo: “Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4.5)?


Concluindo


Como temos afirmado, desde a primeira matéria sobre a CCB, nem todos os seus membros concordam com os erros que apresentamos nesta pesquisa. Há aqueles que têm conhecimento bíblico e rejeitam tais práticas. Alguns permanecem na CCB, como sentinelas, na esperança de, aos poucos, as coisas mudem. Outros já fazem parte de um movimento que ficou conhecido como Ministério da Reforma da CCB.

Por ser um fenômeno religioso de expressão, ocorrido dentro de um movimento contraditório, dedicaremos a última abordagem dessa sequência de matérias,na próxima edição, a esse movimento.

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