Defesa da Fé


Missões - A prioridade de Deus


Por Russel Shedd

Ph.D. em Novo Testamento pela Universidade de Edimburgo, Escócia


Lucas relata que Jesus, depois de ressuscitar, reuniu seus discípulos e lhes falou duas coisas. A primeira foi que o Antigo Testamento ensinava, de forma clara, que o Messias tinha de morrer e ressuscitar. Em seguida, acrescentou que o evangelho seria pregado a todas as nações.

O ensino que Jesus transmitiu aos discípulos, após a ressurreição, deve ter sido uma novidade para eles, mas estava claramente expresso no texto sagrado. Veja como Jesus falou: “Eis o que está escrito: O Cristo padecerá, e ao terceiro dia ressurgirá dentre os mortos, e em seu nome se pregará o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24.46,47).

A ordem de fazer missões é muito clara no Novo Testamento, porém, Jesus buscou no Antigo Testamento a base para essa declaração. Se lermos a Bíblia toda sem observar sua ênfase sobre missões, provavelmente estamos lendo a Palavra de Deus superficialmente.

Leiamos alguns textos que Jesus poderia ter usado para comprovar que a tarefa de levar o evangelho a todas as criaturas, nações, línguas e povos não era uma novidade do século 1o, antes, começou no coração de Deus e foi anunciada inicialmente no Antigo Testamento.


A finalidade da criação


O Antigo Testamento começa com a criação de tudo o que existe. No centro de seu plano, Deus criou o homem — e todos nós — à sua imagem, por várias razões. O próprio Universo não existiu eternamente. Deus o criou com um propósito. O Universo teve início num momento da história — “no princípio” — e terminará no fim da história, após a segunda vinda de Cristo. Por que Deus decidiu fazer tudo o que fez? Os cientistas ateus pesquisam a criação, descobrem os segredos da natureza e como funcionam os processos e leis naturais, mas lamentam por não saberem a razão da existência de qualquer coisa. Todavia, nós, os cristãos, sabemos os motivos de o Universo e o homem existirem. Citaremos apenas cinco deles.


O desejo de Deus

O primeiro motivo da criação foi o desejo de Deus de ter pessoas com quem pudesse desfrutar comunhão. Deus é social. Ele ama pessoas como nós — gente. Gente que conversa com Ele. O Senhor Deus queria alguém com quem pudesse conversar e de quem recebesse adoração, por isso, criou-nos à sua imagem, para ter um relacionamento amoroso conosco. Isso se encaixa estreitamente na tarefa missionária. O propósito das missões tem seu fundamento nesse desejo de Deus. Cada pessoa que se converte hoje passa a ter comunhão com Ele eternamente.


A felicidade de Deus

Deus é um Deus feliz. Deduzimos isso de uma frase do texto de 1Timóteo 1.11, que diz: “O evangelho da glória do Deus bendito”. A palavra bendito (do grego, makârios) quer dizer “feliz” (compare com as bem-aventuranças). Deus queria compartilhar sua felicidade com o ser humano. As pessoas mais felizes da terra devem ser os missionários. Com certeza, divulgar as boas-novas, obedecer à última ordem de Cristo, levar pessoas a conhecê-lo e, por conseguinte, poder entrar no gozo do Senhor é um trabalho glorioso e tem relação direta com o motivo de Deus ter criado a humanidade.


O amor de Deus

Deus nos criou para mostrar o seu amor. Deus já amava o Filho, e o Filho amava o Pai, mas queriam um povo para demonstrar seu amor. Então, Deus multiplicou a população da terra para revelar seu infinito amor. Derramou seu amor em nosso coração para que possamos, também, amar aqueles que Deus ama. Se você não é missionário, no sentido mais lato da palavra, talvez o amor de Deus tenha sido sufocado em sua vida. Ou seja, não entrou em suas veias e artérias, por isso, o desejo de alcançar os perdidos não circula em seu coração. Deus criou homens e mulheres para que possam compartilhar sua felicidade e demonstrar seu amor. Devemos responder e corresponder ao seu amor com grata obediência.


A glória de Deus

Deus criou o mundo para ser glorificado por meio dele. Criou o ser humano à sua imagem para que o ser humano pudesse glorificá-lo por causa de sua graça. Efésios 1.6 é uma passagem fundamental das Escrituras, porque explica o motivo pelo qual Deus nos criou. Considere, seriamente, o seguinte: tanto a eleição (antes da fundação do mundo) como a predestinação (para sermos filhos adotivos) aconteceram, segundo esse texto, “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”. Não é possível negar, à luz dessa passagem, que o propósito original no plano da criação foi que pessoas inteligentes e dotadas de emoção louvassem a graça gloriosa de Deus. Esse é o principal motivo das missões. Paulo escreveu aos coríntios: “Todas as coisas [os sofrimentos] existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graça, por meio de muitos, para glória de Deus” (2Co 4.15).


A santidade de Deus

Deus criou o homem para compartilhar com Ele sua santidade. “Sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44). Deus não admitirá pecadores rebeldes no lar celestial. Por isso, nos manda aumentar a santidade no mundo e multiplicar o número de “santos” na terra. Um dos títulos do povo de Deus é “nação santa” (Êx 19.6), confirmando que, se Deus tem filhos na terra inseridos em sua Igreja, eles serão marcados pela santidade do Pai celestial.


O coração missionário de Deus revelado no Antigo Testamento


Examinemos alguns textos-chave da Bíblia para buscar as bases para missões e o propósito divino para a humanidade.


Gênesis 12.1-3

Essa passagem central no Antigo Testamento apresenta a chamada de Abraão, nosso pai na fé, e tem importantes implicações para a obra missionária: “Disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra”.

Nessa passagem, que Jesus deve ter mencionado aos seus discípulos, temos uma dupla ordem: “Sai da tua terra” e “Sê tu uma bênção”. Abraão deveria sair para ser uma bênção e ser abençoado. Nele, o mundo inteiro — todos os lugares, tribos, povos e nações — seriam abençoados. Cremos na Palavra de Deus e que essa promessa, ainda não concretizada inteiramente, irá se cumprir.

Existe algo mais interessante nesse texto. Qualquer contador, ou pessoa que trabalha com números, sabe que a soma de todas aquelas fileiras de cifras depende dos números que estão em cima. Sabe que, se houver um erro em alguma dessas cifras, haverá um resultado errado na última linha. Esse princípio da matemática pode ilustrar e explicar porque o compromisso das igrejas com as missões é tão fraco.

O Brasil evangélico, até agora, enviou um número quase inexpressivo de missionários. Há menos de um missionário para cada dez mil crentes. Estou convencido de que essa desproporção tem uma explicação razoável. Vejamos como se aplica à tarefa missionária. Como já vimos, se escrevemos números errados nas linhas de cima, a soma estará errada.

A passagem de Gênesis contém a promessa de que Deus há de abençoar Abraão. Todos querem as bênçãos de Deus. Isso corresponde à “linha de cima”: o “abençoarei”. Contudo, se entendermos mal a “linha de cima”, a “linha de baixo” — “Sê tu uma bênção” para todas as nações (famílias) da terra — sairá errada. A bênção da promessa está diretamente ligada à obediência, à ordem de ser uma bênção. Não dá certo buscar a bênção sem querer ser uma bênção.

Todas as nações receberão as bênçãos prometidas a Abraão. A Palavra de Deus não pode falhar, mas primeiro é essencial que Abraão e seus descendentes, pela fé, sejam uma bênção. É inútil reivindicar bênçãos se não estamos abençoando os perdidos com a oferta do evangelho.

Receber benefícios da parte de Deus corresponde à “linha de cima”. Transmitir esses benefícios para os que não têm acesso à bênção abraâmica está diretamente vinculado às bênçãos recebidas. A bênção da salvação implica na responsabilidade de ser uma bênção, de compartilhar essa salvação com os que não têm acesso ao evangelho.


Gênesis 50.15-21

A história de José, no texto bíblico em referência, revela o mesmo princípio. Seus irmãos estavam preocupados com o fato de que José, agora exaltado com plenos poderes no Egito, retribuísse o mal que sofreu: “Vendo os irmãos de José que seu pai já era morto, disseram: É o caso de José nos perseguir e nos retribuir certamente o mal todo que lhe fizemos. Portanto, mandaram dizer a José: Teu pai ordenou, antes da sua morte, dizendo: Assim direis a José: Perdoa, pois, a transgressão de teus irmãos e o seu pecado, porque te fizeram mal; agora, pois, te rogamos que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai. José chorou enquanto lhe falavam. Depois, vieram também seus irmãos, prostraram-se diante dele e disseram: Eis-nos aqui por teus servos. Respondeu-lhes José: Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. Não temais, pois; eu vos sustentarei a vós outros e a vossos filhos. Assim, os consolou e lhes falou ao coração”.

Está bem claro no texto citado acima que a bênção na vida de José, depois de muitas maldições, não deveria ser limitada a ele próprio. A grande bênção que recebeu teria de implicar na bênção de sua família e de muitos milhares de vidas salvas. A revelação que José recebeu, sobre os anos de prosperidade e sobre a fome no Egito, mostrou que Deus tinha um propósito central para sua vida. Deus o abençoou para que ele pudesse abençoar outras pessoas. Os benefícios recebidos implicam na concessão de benefícios aos que não os possuem.

Deus nos revelou algo muito mais precioso, uma revelação mais importante que a recebida por José. A questão é: por que Deus tem abençoado a sua vida? A razão bíblica é a preservação de vidas para a eternidade na gloriosa presença de Deus. Se nos interessamos apenas em receber a bênção da salvação, sem passá-la adiante, estamos contrariando o propósito de Deus. Desprezamos a prioridade divina.


Deuteronômio 4.5-8

Aqui, Moisés mostra também as bênçãos decorrentes de ser o povo escolhido e a responsabilidade de abençoar as nações: “Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir. Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão: Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente. Pois que grande nação há que tenha deuses tão chegados a si como o Senhor, nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que grande nação há que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que eu hoje vos proponho?”.

Imagine se o Brasil estivesse na posição de Israel, prevista nesse momento histórico. Se as leis escritas e assinadas pelo presidente fossem leis criadas na mente de Deus e passadas diretamente aos deputados em Brasília, como o país estaria bem!

Imagine se o Brasil, como o Israel antigo, em vez de pensar em problemas e dívidas internacionais, pudesse dobrar os joelhos e usufruir a bênção notável de empregos para todos, pudesse oferecer os devidos cuidados aos meninos de rua. Imagine a bênção de saber que os órfãos estão sendo nutridos com as verdades de Deus. Imagine um Brasil que não precisasse cuidar de suas fronteiras nem combater o tráfico de drogas. Pense em ter Deus tão próximo protegendo a nação: não seria preciso gastar dinheiro com o Exército nem com policiais.

Leis falhas e interesseiras, feitas por homens, seriam substituídas por leis divinas e perfeitas. Beneficiado por essas leis e pela proteção divina nas crises, em resposta às orações do povo de Deus, o Brasil seria um país invejável. Foram essas bênçãos, segundo o texto de Deuteronômio, que Deus ofereceu a Israel.

Qual seria o efeito dessas bênçãos sobre os países vizinhos? O próprio texto responde. Seria um forte efeito missionário com seus benefícios. As nações vizinhas buscariam o Senhor e seguiriam suas leis. Aprenderiam a viver bem imitando o Brasil e obedecendo às leis criadas no céu. Buscariam o Deus único e o seu reino para obter as bênçãos desfrutadas pelo Brasil.

Vejo um país que tem grande interesse em ser um evangélico. Existem até previsões de que, em poucos anos, o Brasil será do Senhor, mesmo antes de sua vinda. Não sei se podemos realmente esperar uma bênção tão grandiosa, mas, se acontecer, não será surpresa se os países vizinhos vierem buscar a mesma bênção.

Houve uma época em que um país foi extraordinariamente abençoado. Esse país foi fundado no século 17. Os fundadores fugiram da Inglaterra para estabelecer uma nação em que Deus seria honrado e haveria liberdade de consciência. As bênçãos de Deus caíram sobre os Estados Unidos. Houve um tempo em que as crianças podiam sair de casa sem perigo. Não havia meninos de rua. As chaves ficavam dentro do carro, sem que fosse preciso trancar as portas.

As casas ficavam abertas sem muros ou sistemas de alarme. Não se pensava em violência nem se falava em drogas. Homicídio era uma raridade. Hoje, não é mais assim. Esse país mudou, depois que abandonou a maioria dos princípios que garante a bênção. A preocupação com a evangelização de todos os povos diminuiu.

Quando Jimmy Carter estava na presidência, um amigo foi convidado para falar num congresso de missões nos Estados Unidos da América. Cerca de quatro mil pessoas esperavam, atentas, a palavra do pastor Greg Livingstone (hoje, diretor de uma missão no norte da África).

Concederam-lhe um minuto para falar. Ele foi à frente e fez a seguinte pergunta: “Quantos de vocês estão orando pela libertação dos 52 americanos sequestrados no Irã?”. Os mais velhos lembram-se da grande preocupação causada pelo sequestro daqueles americanos. Quase todas as mãos se levantaram no auditório, indicando uma preocupação generalizada. Em seguida, fez outra pergunta: “Quantos estão orando pela libertação de 52 milhões de iranianos das algemas de Satanás?”. Os braços foram abaixando até não restar mais que um ou dois em toda aquela multidão. Meu amigo se sentou, sem utilizar todo o seu minuto, dizendo: “Percebo que vocês são mais americanos que cristãos!”.

Aqueles milhares de pessoas se preocupavam apenas com a ““linha de cima””. Sabiam de quem e em que nome podiam pedir a libertação dos sequestrados, mas não tiveram a preocupação de pedir a libertação de 52 milhões de seres humanos algemados espiritualmente.

Quero deixar assentado, primeiramente em meu coração, depois no do leitor, que a “linha de baixo” depende de entendermos a razão pela qual Deus abençoa nossa vida. Se não recebi bênção alguma, tudo bem. Se não ganhei nada de Deus, Ele não cobrará nada de mim. No entanto, se Deus tem nos abençoado de alguma maneira especial, e se Ele nos tem dado conhecimento da verdade de sua Palavra, com o resultado de que podemos viver e morrer felizes, temos de levar a sério a “linha de baixo”.


Salmo 67.1,2

Mais um texto confirma a tese desta mensagem. O salmo 67 mostra as duas linhas de maneira notável. Quantos se esqueceram de orar hoje? Quantos têm coragem de admitir isso? Provavelmente, a maioria orou. E quem não pediu qualquer bênção? Sabemos que é raríssimo orar sem pedir pelo menos uma bênção.

Animou-me bastante notar que, no Salmo 67.1,2, Deus não condena a prática de pedir bênçãos. Esse salmo fala de bênçãos, mas não exatamente de prosperidade: “Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação”.

Meditando, perguntei para mim mesmo o que teria acontecido se a nação israelita, receptora original dessas palavras inspiradas, tivesse dado prioridade a esse texto. Como seria diferente a história da humanidade se Israel tivesse dado valor à “linha de baixo” e estabelecido, como o mais importante alvo de sua existência, abençoar a todos os árabes! O mundo tem mais de um bilhão de muçulmanos. Israel é apenas uma pequena ilha num oceano inimigo de muçulmanos.

Se, em vez de se preocupar com a própria segurança, Israel tivesse pedido a bênção de Deus para os muçulmanos, a fim de que conhecessem os caminhos do Senhor, como seria diferente a história atual! Provavelmente, milhares de pessoas estariam vivas, e famílias inteiras, ainda unidas. As torres gêmeas não teriam caído em Nova York, soterrando quase três mil pessoas.

Quase todos os dias morrem vítimas do ódio em Israel. Parece que Israel formou sua nação para buscar a própria segurança, em vez de abençoar os povos vizinhos. Não é meu propósito lançar críticas contra ninguém, mas esse salmo não deixa dúvidas quanto ao propósito de Deus. Paremos um instante para refletir. Qual é minha preocupação maior na vida? A resposta de todos nós é a mesma. Ser abençoado por Deus. Quero que o Senhor abençoe minha família, meus filhos, meus netos, minha esposa, meu trabalho, minha situação financeira. É isso o que mais importa. E Deus não despreza tais petições, porém, não estaremos glorificando a Deus se dermos prioridade à “linha de cima” e ignorarmos a “linha de baixo”.

Jesus, pouco antes de sua exaltação, declarou aos discípulos que a bênção de os povos gentios conhecerem os caminhos do Senhor deve ser o foco de seu ministério. Em Jerusalém, na Judeia, em Samaria e até os confins da terra, eles seriam testemunhas da graça de Deus que salva.


Para o Brasil se tornar um celeiro de missões


Quero encerrar afirmando algo sobre nossa nação. Os irmãos sabem que a teologia predominante no Brasil é a chamada “teologia da prosperidade”. É quase certo que o pregador que conseguir convencer brasileiros — evangélicos, católicos, espíritas e mesmo pessoas sem religião — de que possui poder para liberar bênçãos, como, por exemplo, saúde, emprego, salário maior e paz na família. Ou seja, de que serão bem-sucedidos. Quem promete abençoar o povo material e socialmente está fadado ao “sucesso”. Contudo, quero enfatizar que é uma distorção do evangelho, pois não há interesse prioritário na “linha de baixo”. As promessas da antiga aliança, que abençoaram Israel materialmente, tinham o propósito de persuadir os povos de que deveriam adorar e obedecer a Deus na totalidade de sua existência.

Quais são as promessas da nova aliança? Cristo voltará quando todas as nações tiverem ouvido que Cristo é o único caminho para Deus. Ele é o único Salvador. O descaso para com a obrigação missionária, em razão do interesse voltado para esta vida, demonstra pouco compromisso com a vida vindoura. Não se fala muito sobre o investimento no destino final.

A busca pelo poder do Espírito, como forma de obter alívio, conforto e bem-estar, em vez de testemunho e proclamação, está em desacordo com o propósito central de Deus. A teologia da prosperidade destaca o ter e não o ser. A lei da nova aliança deve ser interna. “Esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” ( Jr 31.33). Não é a vontade de Deus que busquemos os benefícios do seu reino sem dar prioridade ao próprio reino. Os benefícios ilimitados de Deus virão no milênio, mas poucos querem esperar um futuro distante e pouco almejado.

O resultado dessa distorção pode ser percebido no desinteresse em conhecer a Palavra de Deus. Não há, também, quase nenhum interesse pela exegese, pela hermenêutica, pelo discipulado e pelo estudo da Palavra. Busca-se a experiência e não o Senhor das experiências. Parece uma diferença sutil, mas é importante. O Espírito Santo é apresentado mais como fonte de poder do que como pessoa divina que glorifica o Senhor Jesus (Jo 14.13). A ênfase exagerada sobre o indivíduo desvia a nossa atenção da comunhão e da responsabilidade mútua da Igreja de Cristo (1Pe 2.9,10).

Não é certo omitir a ênfase sobre a obrigação e destacar apenas a motivação do amor que produz a alegria no Senhor (1Co 13.1,4,5).

É muito comum omitir-se a proclamação da teologia bíblica acerca do sofrimento. Nesse caso, onde se encaixaria a cruz de Cristo ou as condições do discipulado? “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz [diariamente] e siga-me”. São palavras pouco ouvidas, mas foram pronunciadas por Jesus. Buscar os dons e as manifestações do poder de Deus em benefício próprio e não em benefício do Corpo de Cristo é mais um desvio do propósito bíblico revelado na Palavra.

Todas essas aberrações e distorções, até o ponto em que caracterizem a Igreja brasileira, mostram preocupação com a “linha de cima” e não com a “linha de baixo”. Para o Brasil se tornar um verdadeiro celeiro de missões, é necessário que haja uma mudança de paradigma. Como Israel, no período do Antigo Testamento, teve a oportunidade de influenciar o mundo ao seu redor em prol do Deus único, cumprindo suas leis e demonstrando um amor profundo pelo Senhor, temos o desafio para realinhar nossas prioridades.

Se, genuinamente, nos preocuparmos com a “linha de baixo”, isto é, que o evangelho seja proclamado e vivido entre todos os povos, a bênção gloriosa cairá sobre nós. Paulo assim se refere a esse futuro: “Para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da criatura aguarda a revelação dos filhos de Deus [...] para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.18,19,21).


Fonte:

Extraído do livro Perspectivas no movimento cristão mundial.

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