Defesa da Fé


O surgimento da apologética moderna

(Parte final)


Por Kean Boa e Robert Bowman

Tradução de Elvis Brassaroto Aleixo


O teólogo suíço Karl Barth (1886-1968), contemporâneo mais velho de C. S. Lewis, tomou uma direção apologética diferente daquela que vinha sendo observada por seus predecessores. Enquanto Lewis se converteu do ceticismo para o cristianismo anglicano, Barth se converteu do liberalismo teológico alemão para uma fé radicalmente cristocêntrica.

Incapaz de suportar o liberalismo por mais tempo, e pouco disposto a retornar à ortodoxia protestante conservadora, Barth julgou necessário reconstruir a teologia cristã de acordo com um novo paradigma. Sua principal reivindicação era a de que Deus pode ser conhecido apenas em Jesus Cristo.

Baseado nessa premissa, Barth rejeitou o liberalismo (que ensinava que Deus poderia ser encontrado na moral do homem e em seu senso espiritual) e o fundamentalismo (combatido, erroneamente, por ele, porque essa corrente ensinava que o conhecimento de Deus pela Bíblia superava o conhecimento de Deus por Jesus Cristo).

Barth também rejeitou a teologia natural. Ou seja, a tentativa de conhecer Deus por meio da natureza. De acordo com Barth, esse entendimento era infiel ao princípio de que Deus pode ser conhecido somente por meio de sua autorrevelação em Jesus Cristo.

Em geral, os evangélicos mais conservadores rejeitam a abordagem teológica de Karl Barth e discordam de seu posicionamento negativo sobre a apologética. Contudo, alguns evangélicos, que não creem na inerrância bíblica, mas preservam uma visão evangélica sobre Cristo e a salvação, apreciam a teologia de Barth, mesmo criticando alguns de seus posicionamentos. Exemplos notáveis são Bernad Ramm e Donal Bloesch.


Pressuposicionalismo


Segundo essa escola, o cristianismo forma um sistema completo de pensamento, com autoridade própria, não podendo ser autenticado por evidências externas, por ser necessariamente verdadeiro. Os pressuposicionalistas alegam que a conquista do conhecimento exige um método confiável de análise que permita deduzir informações necessariamente extraídas de premissas anteriores, o que só seria possível mediante o raciocínio sobre as declarações divinamente reveladas na Bíblia e nunca das sensações ou da razão pura.

O pressuposicionalismo de Vant Til foi a tendência apologética mais conservadora que dominou a segunda metade do século 20. Durante os anos 50, três apologistas norte-americanos ofereceram três diferentes respostas ao desafio de Van Til por conta da apologética tradicional.

Um deles foi Gordon H. Clark (1902-1985), filósofo reformado, cuja ênfase na dedução lógica o levou a um debate ferrenho com Van Til, o que dividiu a corrente pressuposicionalista. Clark defendia que as leis da lógica e as proposições das Escrituras proviam as únicas bases seguras para o conhecimento.

Outro grande apologista dos anos 50 foi Edward John Carnell (1919-1967), sendo presidente do Seminário Teológico Fuller durante grande parte desta década. Seus livros estabeleciam uma espécie de apologética semipressuposicionalista, que abordava o cristianismo como uma hipótese a ser verificada e comprovada pela demonstração de sua sistematicidade e aplicabilidade. Tal como os pressuposicionalistas, Carnell rejeitou as provas tradicionais acerca da existência de Deus. Entretanto, contra o pressuposicionalismo, insistiu que a natureza dos argumentos apologéticos em favor da verdade histórica reclamada pelo cristianismo, mais notavelmente a ressurreição de Jesus, somente poderiam basear-se em probabilidades.

Um terceiro grande apologista que emergiu na década de 50 foi Stuart Hackett. Diferente dos apologistas citados anteriormente, Hackett foi declaradamente anticalvinista. Ele considerava o que chamou de “a ressurreição do teísmo” um sistema racional filosófico, defendido por provas teístas tradicionais e apresentou uma das primeiras críticas detalhadas contra Van Til. Considerando que Dooyeweerd, Van Til, Clark, Carnell, entre muitos outros apologistas, concordaram com o criticismo de David Hume e Emmanuel Kant contra as provas teísticas tradicionais e a validade das evidências apologéticas, Hackett foi extremamente divergente e desenvolveu uma crítica consistente contra o criticismo desses filósofos.


Evidencialismo


Alega que as evidências materiais favorecem a validade do cristianismo. O evidencialista começa num ponto comum com os não cristãos, presumindo que os sentidos e a inteligência são ferramentas úteis para descobrir a verdade. Para tanto, menciona registros históricos em favor da Bíblia. Quando a razão mostra-se limitada para encontrar respostas a questões que transcendem o campo da investigação, como, por exemplo, o sentido da existência, o evidencialista recomenda a aceitação do cristianismo, pelas abundantes evidências acumuladas em favor dessa religião.

William Lane Craig (nascido em 1949), um dos alunos de Hackett, publicou uma quantidade maior de trabalhos apologéticos, pelos quais muda de uma posição similar à de Hackett para uma abordagem mais eclética. Os escritos de Craig foram divididos entre as defesas acadêmicas da existência de Deus (baseadas, primariamente, nas formas filosóficas e científicas do argumento cosmológico) e as defesas acadêmicas da ressurreição de Cristo, sob uma ótica histórica e teológica. Apesar de sua abordagem possuir fortes afinidades com o evidencialismo, em geral, sua apologética é mais bem classificada como tradicional.

Na obra Jerusalém e Atenas (alusão à filosofia de Atenas e à teologia de Jerusalém), de 1971, Craig publicou uma série de ensaios em homenagem a Van Til, incluindo diversos textos críticos respondidos por Van Til. Com a publicação desse livro, passaram a existir pelo menos duas maneiras de entender e desenvolver o pressuposicionalismo de Van Til.

A primeira delas, que, na verdade, antecede à obra, pode ser chamada de interpretação transcendental, sendo articulada especialmente por Robert D. Knudsen (1924-2000), um aluno de Van Til, que se tornou seu colega em Westminster, onde Van Til lecionou até 1995.

De acordo com Knudsen, a apologética de Van Til é mais bem entendida como transcendental, isto é, como algo que apresenta o cristianismo como a única posição que pode apresentar adequadamente a verdade, a razão e a existência humana. Para Knudsen, Van Til deveria ser considerado membro da escola filosófica calvinista, ao lado de Dooyeweerd e de outros pensadores reformados.

A segunda interpretação do pensamento de Van Til origina-se de John M. Frame (nascido em 1939), também aluno de Van Til e professor de apologética de uma extensão de Westminster na Califórnia (EUA). Frame desenvolveu uma teoria epistemológica chamada “perspectivalismo”, que buscou integrar os aspectos racional, empírico e existencial do conhecimento humano. Em seu livro A doutrina do conhecimento de Deus (1987), Frame apresenta o perspectivalismo como um refinamento sistemático da posição de Van Til, fazendo uma crítica mais positiva à lógica e à evidência factual e, ao mesmo tempo, preservando a essência do pensamento de Van Til. Frame também aplicou seu perspectivalismo às questões éticas, enquanto seu colega, Vern S. Poythress (nascido em 1946), professor do Novo Testamento do pólo de Westminster da Filadélfia (EUA), aplicou o perspectivalismo à teologia sistemática e à hermenêutica.

Em 1970, o mais notável crítico de Van Til foi John Warwick Montgomery (nascido em 1931), um apologista luterano que contribuiu com um ensaio satírico sobre o livro Jerusalém e Atenas, intitulado “Era uma vez um pressuposto”, que caracterizou a posição de Van Til como um abandono a todos os argumentos racionais em favor da fé.

Montgomery, influenciado especialmente pelos acadêmicos do século 19 e pelo apologista Simon Greenleaf (1783-1853), defendeu um evidencialismo empiricamente baseado nos argumentos históricos sobre a ressurreição de Jesus. Esse evidencialismo no pensamento de Montgomery, em geral, também confere mais crédito às evidências científicas sobre a criação do que aos argumentos filosóficos sobre a existência de Deus.

Numerosos apologistas dos dias atuais têm concentrado seus esforços nessas evidências, entre os quais, temos J. P. Moreland (nascido em 1948), que fez contribuições significativas ao desenvolvimento da filosofia cristã voltada ao contexto científico, além de defender a reabilitação histórica dos evangelhos. Outro apologista que fortaleceu a apologética evidencialista e criticou Van Til foi Clark Pinnock (nascido em 1937). Nos anos 80 e 90, Pinnock distanciou-se da posição mais conservadora, questionando a inerrância bíblica e outros aspectos da teologia evangélica.

Norma Geisler é outro que enfileira os críticos de Van Til. Acadêmico centrado na apologética clássica, Geisler baseia seu posicionamento principalmente no pensamento de Tomás de Aquino. Sua abordagem envolve três estágios argumentativos.


Epistemologia


Epistemologia ou teoria do conhecimento é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados com a crença e o conhecimento. É o estudo científico da ciência (conhecimento), sua natureza e suas limitações. A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento, motivo pelo qual também é conhecida como teoria do conhecimento.

Primeiro, Geisler examina várias teorias que tentam fundamentar todo o conhecimento na razão, no fato empírico e na experiência, mostrando que isso é inadequado. No lugar dessa epistemologia, Geisler defende os princípios gêmeos da “não afirmatividade” (qualquer alegação que não possa ser consistentemente afirmada é falsa) e da “não negatividade” (qualquer alegação que possa ser consistentemente negada é verdadeira).

Em segundo lugar, Geisler examina a maioria das cosmovisões (incluindo o ateísmo, o panteísmo, etc.), a fim de mostrar que apenas o teísmo (cosmovisão monoteísta comum nas religiões judaica, cristã e islâmica) pode ser aprovado como verdadeiro. A chave desse segundo estágio é uma versão reconstruída do argumento cosmológico de Tomás de Aquino.

No terceiro e último estágio, Geisler defende, de forma probabilística, o teísmo como única verdade possível. Nesse ponto, seu argumento enfoca a ressurreição de Jesus Cristo e a reabilitação histórica dos escritos bíblicos. As pesquisas de Geisler têm contribuído grandemente para a apologética evangélica e têm sido apreciadas até mesmo por aqueles que não aceitam o método de Aquino.

Outro apologista que publicou suas pesquisas no final da década de 60 e início dos anos 70 foi Francis Schaeffer (1912-1984). Como Van Til, Schaeffer enfatizou a necessidade de desafiar as pressuposições não cristãs, especialmente o relativismo, que se tornou proeminente na cultura ocidental durante a década de 60. Assim como Van Til, Schaeffer também criticou os argumentos apologéticos que se baseavam mais nas probabilidades do que nas certezas.

Durante o mesmo período, o filósofo reformado Alvin Plantinga (nascido em 1932) publicou a obra O pensamento de Deus e outros pensamentos. Nesse e em outros livros, Plantinga desenvolveu um pensamento acadêmico sobre uma “nova epistemologia reformada”, que não foi influenciada positiva ou negativamente por Van Til. Plantinga defendia que o exercício da fé em Deus é racionalmente justificado, mesmo que o crente não ofereça qualquer evidência de sua crença.

O enfoque dessa “nova epistemologia reformada” tem sido justificar a fé em face do desafio da descrença. Sua abordagem possuía afinidade com o pressuposicionalismo, especialmente devido à sua rejeição ao evidencialismo (o qual defende que as crenças são racionais apenas se puderem ser justificadas pelas evidências). Essa corrente esteve em evidência em 1983, com a publicação do livro Fé e racionalidade, numa coautoria entre Plantinga e Woltertorff. A “nova epistemologia reformada” e o pressuposicionalismo são as duas maiores correntes da apologética reformada hoje.

Durante as últimas duas décadas do século 20, um grande número de apologistas tem unido a perspectiva subjetiva e existencialista proposta por Soren Kierkegaard à apologética tradicional, notavelmente o filósofo cristão C. Stephen Evans (s/d.). Outros apologistas têm defendido explicitamente a inutilidade da variedade dos métodos apologéticos no diálogo com pessoas de diferentes crenças e temperamentos. Um exemplo recente desse posicionamento é David K. Clark (s/d.), que, em sua obra Apologética dialógica, apresenta uma abordagem centrada na pessoa para a construção de uma apologética que permita a aproximação eficaz.

Enquanto o debate sobre os métodos apologéticos prosseguem, um número crescente de pensadores está propagando que a era da apologética terminou. Tais pensadores entendem que a apologética desenvolveu-se a partir do ideal de conhecimento racional, que é a base das objeções racionalistas modernas apresentadas contra o cristianismo. Contudo, com o suposto declínio do racionalismo moderno e o advento do pós-modernismo, tanto o racionalismo anticristão quanto a apologética que ele provoca tornaram-se antiquados.

Por outro lado, há ainda grupos de pensadores cristãos que entendem que a complexidade que envolve a apologética contemporânea não pode ser apresentada assim, de maneira tão simplista. Segundo eles, o pós-modernismo não abandonou os ideais racionalistas, mas os aperfeiçoou. Logo, ainda há um espaço importante para a apologética nos dias atuais, sendo esse ramo da teologia mais necessário do que nunca.

As diversidades de abordagens sobre o estudo e a prática da apologética cristã fizeram que fosse necessário encontrar uma maneira teórica de classificar essas metodologias e ordenar as várias questões segundo suas essências, semelhanças e diferenças.

Encerrando, a finalidade deste artigo é traçar um panorama dos principais nomes que nos permitiram chegar até o ponto em que nos encontramos. Agora, é responsabilidade nossa prosseguir a batalha pela fé (Jd 3).

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