Defesa da Fé

Edição 94

A celebração do Natal e os reformadores protestantes


Por Solano Portela

Presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil em Santo Amaro (SP) e mestre pelo Biblical Theological Seminary (EUA)


Não é de hoje que tenho percebido um movimento crescente de cristãos contrários à celebração do Natal. A chamada “festa máxima da cristandade” está sob ataque cerrado de vários flancos e, desta vez, a luta é interna. Multiplicam-se os textos e os posicionamentos contrários às características eminentemente comerciais do feriado, viés esse que sempre foi um legítimo campo de batalha dos cristãos. Contudo, paralelo a esse pensamento, ou quase sempre o acompanhando, somos alertados, também, de que o Natal não é nada mais do que um feriado pagão assimilado pela igreja medieval, persistindo no campo evangélico apenas por desconhecimento do seu histórico. Essa origem, além da exploração comercial, inviabilizaria a sua observância religiosa pelos cristãos, sendo fútil a tentativa de se resgatar o conceito abrigado no desgastado chavão do “verdadeiro sentido do Natal”.

A literatura infantil já nos brindou com alguns exemplos de personagens que não gostavam do Natal. Temos Charles Dickens, no livro Um conto de Natal (teria sido melhor traduzido como Um cântico de Natal), trazendo a história de Ebenezer Scrooge, durante um período de festividades natalinas. Scrooge era um homem rico, não ligava para ninguém; desprezava as crianças pobres; era avarento e egoísta. Teve, entretanto, um sonho no qual empobrece, modificando sua atitude para com a data. A mensagem de Dickens é que a “essência” do Natal conseguiu derreter aquele coração endurecido.

Outro personagem famoso é o Grinch – da pena do escritor Dr. Seuss, que publicava seus contos em rimas. Ele escreveu a obra Como Grinch roubou o Natal, que virou, anos atrás, um filme com o ator Jim Carey. A história retrata Grinch como uma criatura mal-humorada que tem o coração bem pequeno. Ele odeia o Natal, pois não consegue ver ninguém demonstrando felicidade. E, por conta disso, planeja roubar todos os presentes e ornamentos para impedir a celebração do evento em uma aldeia perto de sua moradia. Para seu espanto, a celebração ocorre de qualquer maneira. A mensagem do autor é que a “essência” do Natal não estava nos presentes ou nos ornamentos, mas transcendia a tudo isso.

Obviamente, aquilo que posso chamar de “movimento dos cristãos contra o Natal” não tem relação com qualquer desses personagens, ou com aquele outro, registrado nas páginas das Escrituras Sagradas, que também odiou o Natal: o rei Herodes, mas, parece que está virando moda termos cristãos contra o Natal. Além das razões relacionadas com as origens pagãs e a distorção comercial já mencionada, há cristãos que apresentam algumas razões teológicas firmadas em suas convicções do que seria ou não apropriado ao culto e celebrações na Igreja de Cristo.


Cristãos reformados contra o Natal


No campo reformado, os argumentos contra o Natal são ampliados com uma veia histórica. Pretende-se provar que a verdadeira teologia da Reforma Protestante e, principalmente, os reformadores e seus seguidores próximos foram avessos à celebração do Natal. Argumenta-se que a celebração do Natal fere o “princípio regulador do culto”, defendido pela ala reforma da Igreja. Consequentemente, se desejo ser seguidor da Reforma Protestante, tenho que, coerentemente, rejeitar a celebração desta data.

Nessa linha de entendimento, muitos artigos têm sido escritos presumindo uma linha uniforme de pensamento nos teólogos reformados e correntes denominacionais reformadas no que diz respeito à rejeição da comemoração do Natal. Normalmente, o raciocínio se estende também a outras datas celebradas pela cristandade, como, por exemplo, a Páscoa, que seria igualmente condenável pelo calendário cristão. Por vezes, a defesa apaixonada deste ponto de vista tem resultado em dissensões e desarmonia nas igrejas.

Deixando de lado a questão das origens (se elas têm a força de determinar a correção de uma observância religiosa), o que seria um ensaio à parte, será que a opinião dos reformadores foi sempre uniforme com relação à celebração do Natal e de outras datas importantes ao cristianismo? Será que houve sempre tanta harmonia assim, nas denominações reformadas, com relação à rejeição da comemoração do Natal, resultando nessa tradição monolítica? Será que João Calvino, para citar um exemplo, realmente se posicionou contra o Natal? Será que o que me escreveu uma vez um irmão reformado procede? Vejamos. Ele disse que a rejeição ao Natal seria “coerente com a fé cristã bíblica e reformada, principalmente com a posição histórica encontrada em João Calvino e João Knox. Fica a pergunta.


Calvino e Knox eram contra a celebração do Natal?


A primeira coisa que temos que observar é que essa hipotética concordância entre Calvino e Knox não existiu. E muito menos há uma visão monolítica sobre a questão no seio reformado histórico, como muitos pretendem transmitir. Aquele irmão, em sua carta, desafiava: “Por favor, cite uma fonte primária que prove que Calvino aprovou o Natal ou recomendou o mesmo”.

Bom, se é isso que vai ajudar, vamos lá: uma das fontes primárias é uma carta de Calvino ao pastor da cidade de Berna, Jean Haller, de 2 de janeiro de 1551 . Nela, Calvino escreveu: Priusquam urbem unquam ingrederer, nullae prorsus erant feriae praeter diem Dominicum. Ex quo sum revocatus hoc temperamentum quae sivi, ut Christi natalis celebraretur. Para alguns, isso bastaria para resolver a questão. Mas, para o resto de nós, entre os quais me incluo, a versão ao português é necessária. Possivelmente, uma tradução razoável para a nossa língua seria a do reverendo Elias Medeiros: “Antes da minha chamada à cidade, eles não tinham nenhuma festa, exceto no dia do Senhor. Desde então, tenho procurado moderação, a fim de que o nascimento de Cristo seja celebrado”.

Outra carta, de março de 1555, para os magistrados (Seigneurs) de Berna, que aderentemente eram contrários à celebração do Natal, diz o seguinte: “Quanto ao restante, meus escritos testemunham os meus sentimentos nesses pontos, pois neles declaro que uma igreja não deve ser desprezada ou condenada porque observa mais festivais do que outras. A recente abolição de dias de festas resultou apenas no seguinte: não se passa um ano sem que haja algum tipo de briga e discussão; o povo estava dividido a ponto de desembainharem as suas espadas” (mesma fonte).

Nesse contexto, Calvino parece indicar que os oficiais que haviam abolido a celebração tinham boas intenções de eliminar a idolatria (vamos nos lembrar da situação histórica), mas, parece igualmente claro que ele indica que, se a definição estivesse em suas mãos, teria agido de forma diferente.

Historicamente, Knox e a Igreja escocesa seguiram a opinião dos oficiais de Genebra; ou seja, em seu contexto histórico de se dissociar de tudo que era proveniente do catolicismo, reforçou a abolição das festividades nas igrejas. Mas, não esqueçamos que Knox também rejeitou instrumentos musicais, cânticos e várias outras formas de adoração. Então, pergunto: será que o movimento dos reformados contra o Natal está dispostos a seguir Knox em tudo, como parâmetro infalível?

Ocorre que João Calvino é sempre apontado como uma força instigadora e radical na gestão de Genebra. Na realidade, entretanto, ele agiu, em muitos casos, como um pólo de moderação e encaminhamento, mas nem sempre sua opinião prevaleceu. O governo de Genebra era conciliar e fazer valer a visão da maioria. Por exemplo, o reverendo Hérmisten Maia Pereira da Costa aponta que a persuasão de Calvino era a de que a Santa Ceia devia ser celebrada semanalmente, enquanto que, nas cidades de Berna e Genebra, a Santa Ceia era celebrada, no máximo, quatro vezes por ano.

João Calvino deu até o que se poderia chamar de “jeitinho reformado” ou de “jogo de cintura”. Hérmisten cita: “Calvino procurou atenuar a severidade desses decretos fazendo arranjos para que as datas da comunhão variassem em cada igreja da cidade, provendo, assim, oportunidade para a comunhão mais frequente do povo, que podia comungar em uma igreja vizinha”.

Hérmisten aponta, também, que, em Genebra, os magistrados determinaram que a ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas. A conclusão óbvia é a citada pelo próprio Hérmisten: “As cinco festas da Igreja Reformada eram: Natal, Sexta-Feira Santa, Páscoa, Assunção e Pentecostes”.

A suposta unidade monolítica e histórica dos reformados sobre esta questão das celebrações de festividades do chamado “calendário cristão” é mais um mito do que verdade. Ousaríamos rotular o Sínodo de Dordrecht (Dordt) de “não reformado”? Pois bem, em 1578, temos a seguinte decisão:

“Considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa e o dia seguinte ao Pentecostes, e, em alguns lugares, o dia de Ano Novo e o dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda e qualquer diligência, a fim de prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão para a congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”.

Assim, as igrejas reformadas procedentes do ramo holandês comemoraram várias dessas datas até em dose dupla (incluindo o dia seguinte). Augustus Nicodemus mencionou não somente este trecho, mas adicionou a admissão dessa visão na Confissão de Fé de Westminster (Cap. 21) e na Confissão Helvética (XXIV). Igualmente, outro ícone reformado também não vê problemas na celebração do Natal. Estamos falando de Turretin (1623-1687). Ou seja, a rejeição do Natal, atualmente “ressuscitada”, não tem o respaldo histórico-teológico que pretende ter.


As Escrituras acima de tudo


Obviamente, todos esses referenciais históricos são importantes, mas o que firma a nossa convicção é a Palavra de Deus, a Bíblia. Em suas páginas, aprendo que a questão das origens não determina a propriedade de uma coisa ou situação, mas, sim, a atitude de fé do interessado. Isso pode ser extraído de um estudo do texto de 1Coríntios 8.1-13; ou, então, examinando como os artefatos e itens preciosos (surrupiados pelos israelitas dos egípcios imediatamente antes do Êxodo — muitos dos quais, com certeza usados em cultos e festividades pagãs) foram utilizados em consagração total e sem restrições no Tabernáculo (Êx 35 – 39).

Das Escrituras, posso inferir, que Jesus, possivelmente, tenha participado de celebrações de festividades que não procediam das determinações explícitas da lei Mosaica, antes, refletiam ocorrências históricas importantes na vida do povo de Deus — como, por exemplo as festas de purim e hanucah , deixando implícita a propriedade dessas celebrações como algo que provém “de fé”, não sendo, portanto, pecado.

Os textos de Romanos 14 e 15 trazem considerações sobre tais questões, demonstrando a necessidade da consciência pura, ao lado da preocupação com os irmãos na fé, para que procuremos “as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua”. Nesse texto, lemos, igualmente: “Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias; cada um esteja inteiramente convicto em sua própria mente” (14.5). Se Deus decidiu não disciplinar condenatoriamente a questão, por que devemos fazer isso?!

Um feliz Natal reformado a todos os leitores de Defesa da Fé!


Notas

DICKENS, Charles. Um conto de Natal. São Paulo: Rideel, 2003, p. 32.

Dr. Seuss. Como Grinch roubou o Natal. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000, p. 64.

Mateus 2.1-18. Herodes, conhecido como “o Grande” e “rei dos judeus”, nasceu em 73 a.C. Filho de Antipater II, era da região chamada Indumeia, sendo indicado pelo imperador romano, Júlio César, como “governador da Judeia”.

Selected Works of John Calvin: Tracts and Letters. Editadas por Jules Bonnet, traduzida para o inglês por David Constable; Grand Rapids: Baker Book House, 1983, p. 454; reprodução de Letters of John Calvin (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1858).

MAXWELL, William D. Maxwell. El culto cristiano: sua evolución y sus formas, p. 140-1.

CALVIN, John. To the Seigneurs of Berne. John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163.

BAIRD, Charles W. A liturgia reformada: ensaio histórico, p. 28.

Turretin admite as celebrações de dias especiais pelas igrejas, desde que não sejam impostas por elas como matéria de fé ou consideradas mais santas do que as demais. Referindo-se à censura de igrejas que escolheram não celebrar o Natal e outras datas, escreve: “Não podemos aprovar o julgamento rígido daqueles que acusam essas igrejas de idolatria”. In: Institutes of Elenctic Theology. Philipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed, 1994, vol. 2, p. 100.

Possivelmente, a festividade relatada em João 5, relacionada com os incidentes narrados no livro de Ester.

Também grafado Chanukah, festividade originada na época dos Macabeus, em celebração ao livramento físico do povo judeu. Jesus estava em Jerusalém na época da celebração (Jo 10.23-30).

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