Defesa da Fé

Edição 94

A secularização do Natal


Por Augustus Nicodemus Lopes

Mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em interpretação bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA)


Como todos os cristãos em geral, sou contra a secularização do Natal. Ou seja, o comércio que se faz em torno da data, as festas e as bebedeiras que ocorrem nessa época. Sabemos que Papai Noel, árvores de Natal, guirlandas, bolinhas brilhantes e coloridas, bengalinhas de açúcar e anjinhos pendurados nas árvores não fazem parte do Natal. São acréscimos culturais e pagãos feitos ao longo dos séculos e, certamente, não pelos verdadeiros cristãos.

Por isso, penso que não deveríamos ter, nos cultos de Natal, qualquer desses símbolos, desde Papai Noel até árvores. Há quem pense diferente. Ellen White, profetisa-mor do Adventismo do Sétimo Dia, ensinava que se deveria ter uma árvore de Natal no culto, e que a mesma poderia ser enfeitada durante a celebração. “Deus muito se alegraria se, no Natal, cada igreja tivesse uma árvore de Natal sobre a qual pendurar ofertas, grandes e pequenas, para essas casas de culto”.

Sou veementemente contra essa ideia.

Também, sou contra fazer de 25 de dezembro uma espécie de dia “santo”. Para nós, cristãos, há somente um dia “santo”, por assim dizer, que é o dia do Senhor, o domingo. A maioria dos cristãos esclarecidos sabe que a data 25 de dezembro foi escolhida depois do período dos apóstolos, por três razões: para substituir as celebrações pagãs da Saturnália; para substituir as celebrações do solstício do inverno, quando era adorado o Sol Invicto; e, por ser a data de aniversário do imperador Constantino. Todos estão conscientes de que Jesus pode não ter nascido – e provavelmente não nasceu – nessa data. Ela é uma convenção apenas, aceita pela cristandade desde tempos antigos.

Por causa dos abusos, dos acréscimos pagãos e do desvirtuamento do sentido, muitos têm-se posicionado contra as celebrações natalinas no decorrer dos séculos. Posso entender perfeitamente seus argumentos. Um bom número de seitas, por exemplo, insiste em que o Natal é uma festa pagã e que todos os verdadeiros cristãos deveriam afastar-se dela. As testemunhas de Jeová estão entre as que atacam, de maneira mais ferrenha, as festividades natalinas. Num artigo intitulado “Crenças e costumes que desagradam a Deus”, as testemunhas de Jeová argumentam: “Jesus não nasceu em 25 de dezembro. Ele nasceu por volta de 1° de outubro, época do ano em que os pastores mantinham seus rebanhos ao ar livre, à noite (Lc 2.8-12). Jesus nunca ordenou que os cristãos celebrassem seu nascimento. Antes, mandou que comemorassem ou recordassem sua morte (Lc 22.19,20)”. Todavia, considerando a rejeição aberta e agressiva que as testemunhas de Jeová mantêm contra a encarnação e a divindade de Jesus Cristo, não se poderia esperar outra atitude delas.

Casos há em que igrejas e pregadores neopentecostais passaram a atacar duramente os cultos natalinos. Os argumentos são similares aos utililizados pelas seitas contra o Natal, só que com mais ênfase no caráter pagão/satânico do bom velhinho. O ataque é resultado da visão dicotomizada de mundo que costuma caracterizar os pentecostais (não a todos, obviamente), o que enfraquece bastante a força dos seus ataques ao Natal.

Os abusos e distorções também têm provocado reação contrária de pastores e estudiosos reformados. Os argumentos são basicamente os mesmos empregados pelas seitas e pelos neopentecostais: falta de prescrição bíblica, incerteza da data exata do nascimento, origem pagã da festa e introdução de elementos pagãos ao longo do tempo.

Estou de acordo com as críticas feitas aos abusos e distorções. Todavia, acredito que precisamos jogar fora somente a água suja da banheirinha e não o bebê. Penso que a realização de um culto de gratidão a Deus pelo nascimento de Jesus Cristo, nessa época do ano, como parte do calendário de ocasiões especiais da cristandade, se encaixa no espírito cristão bíblico.

Além disso, alguns dos argumentos usados para a cessação total da realização de cultos dessa ordem não me parecem persuasivos. Por exemplo, o argumento do silêncio da Bíblia, usado quanto às prescrições de comemorar o nascimento de Jesus, não é definitivo. A Bíblia silencia sobre muita coisa praticada em nossos cultos. Se formos interpretar e aplicar o chamado “princípio regulador” de modo estrito, teremos de abolir não somente os cultos natalinos, mas, também, algumas práticas, como, por exemplo, batizar membros durante o culto (não há um único caso de alguém que foi batizado durante um culto no Novo Testamento).

Sabemos que a celebração dos anjos e dos pastores, na noite do nascimento de Jesus, bem como a atitude dos magos posteriormente, não são argumentos suficientes para estabelecermos cultos natalinos, mas, pelo menos, essas situações mostram que não é errado nos alegrarmos com o nascimento do Salvador.

Os argumentos de que os reformadores e os puritanos antigos eram contra o Natal também não é final. A começar pela falibilidade das opiniões deles, especialmente nas áreas em que as Escrituras não tinham muita coisa a dizer. Há muita manipulação das opiniões desses antigos heróis da fé pelos seus seguidores hoje (entre os quais, me incluo, mas não na categoria de seguidor cego). Em geral, quando se concorda com o que esses antigos irmãos disseram, eles são citados; quando se discorda, eles são esquecidos, algo muito semelhante ao que se faz com a patrística, por sinal.

A questão toda, ao final, é quanto ao calendário litúrgico, isto é, a validade ou não de as igrejas evangélicas realizarem cultos temáticos alusivos às datas tradicionais da cristandade, como o nascimento de Jesus, sua paixão, morte e ressurreição, pentecostes, etc.

Nenhum reformado realmente coloca 25 de dezembro como um dia santo, em mesmo pé de igualdade com o domingo. Trata-se de uma data do calendário litúrgico cristão, que pode ou não ser usada como uma ocasião propícia. As grandes confissões reformadas consentem com o uso dessas datas.

A Confissão de Fé de Westminster diz que “são partes do ordinário culto de Deus, além dos juramentos religiosos; votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso”.

A Segunda Confissão Helvética, de 1566, produzida sob supervisão de Bullinger, discípulo de João Calvino, declara (XXIV): “Ademais, na liberdade cristã, as igrejas celebram de modo religioso a lembrança do nascimento do Senhor, a circuncisão, a paixão, a ressurreição e a sua ascensão ao céu, bem como o envio do Espírito Santo sobre os discípulos, damos-lhes plena aprovação”.

A velha Igreja Reformada Holandesa, no famoso Sínodo de Dort (1618-1619), adotou uma ordem para a igreja que incluía a observância de vários dias do calendário cristão, inclusive o nascimento de Jesus (art. 67). Isso mostra que, no mínimo, muitos reformados eram favoráveis à celebração de datas especiais do calendário litúrgico cristão.

Por fim, acredito, também, que a celebração do Natal no calendário cristão encaixa-se perfeitamente com a celebração dos grandes eventos da redenção pela oportunidade de esclarecer a doutrina da encarnação (Jo 1.1-4,14). Afinal, o que deve ser celebrado não é simplesmente o nascimento de Jesus, mas a encarnação do Verbo de Deus, a vinda do Emanuel para a libertação do seu povo.

Pode-se argumentar que essa doutrina (e outras quaisquer) pode ser ensinada e celebrada regularmente pelo povo Deus, em qualquer domingo. Mas, o argumento contrário também poderia ser usado: deveríamos parar de celebrar qualquer culto que não seja no domingo? É lógico que não!


Referências:

Review and Herald, 11 de dezembro de 1879. Citado em http://www.cacp.org.br/Natal_e_os_adventistas.htm

http://www.watchtower.org/t/rq/article_11.htm

Confissão de Fé de Westminster, XXI, 5.

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