Defesa da Fé

Edição 94

Celebrai o Natal para a glória de Deus


Por Josaías Cardoso Ribeiro Jr.

Membro da Terceira Igreja Batista do Plano Piloto (Brasília, DF) e colaborador do site monergismo


Sou completamente a favor da comemoração do Natal, não porque necessite dessa festa para me lembrar da vinda de Cristo, mas porque nenhum argumento até hoje utilizado é “bíblico o suficiente” para impedir a comemoração da festa.

Antes de entrarmos no assunto, notemos algumas peculiaridades da história do Natal, conforme narram os evangelhos. Um detalhe que passa despercebido, depois de tanto ouvirmos a história, é a própria festa organizada por Deus, mesmo enquanto Maria e José lutavam para encontrar uma hospedagem decente para o bebê. O próprio Deus e Criador do Universo designou anjos para cantarem e anunciarem a chegada de seu Filho amado; trouxe pastores para verem o bebê, alegrarem a festa e alegrarem-se com a festa.

Dias depois, uma estrela (não vamos entrar em detalhes quanto à natureza da estrela) foi movida, a fim de que magos — literalmente homens pagãos, para os judeus da época — encontrassem o bebê e pudessem presentear e adorar o Rei dos judeus. Poderíamos gastar um bom tempo comentando a alegria de João Batista, ainda no ventre de sua mãe, ao sentir a presença do Messias, ou o hino de Maria pela chegada do Cristo, e também a satisfação do velho Simeão pela vinda de Jesus, a ponto de ele não desejar mais nada nesta vida.

Pergunto-me se, com tantas pessoas, seres celestiais e a própria criação comemorando, festejando e se alegrando com a chegada de Jesus, deveríamos nos privar do mesmo sentimento? Outro ponto importante é que o Verbo, se tornando carne e habitando entre nós, é o cumprimento da festa dos tabernáculos, instituída pelo próprio Deus, por meio da lei. A chegada de Cristo é uma festa em seu cumprimento pleno, no mais perfeito sentido da palavra e da forma mais divina.

Com tanta alegria tomando a terra, não tenho dúvida de que deveríamos festejar isso todos os dias, mas é impossível, logicamente — além do que, a morte e a ressurreição de Cristo formam o ponto crucial de nossa crença. Mas, a impossibilidade de ceias de Natal diárias não tira a possibilidade de um dia designado especialmente para pensarmos profundamente no assunto.

Acredito que é um dia em que as pessoas estão mais abertas à pregação do evangelho (não por causa do dia, mas pelo excelente estrategista que é o Espírito Santo, que se utiliza de todas as formas para chamar aqueles que lhe aprazem). E, não há dúvidas de que o dia de Natal faz as pessoas pensarem sobre o assunto. Faltar a uma comemoração de Natal de seus amigos, vizinhos, parentes não cristãos é agir de forma contrária ao que Paulo fez. Isto é, “de tudo, a fim de ganhar a todos” (1Co 9.22).

Mas, sem desenvolver muito os argumentos a favor, vamos tratar dos argumentos contra.


O Natal é proveniente de festas pagãs


Com base em 1Coríntios 8.8, e usando as palavras de C. Mattew McMahon (um pesquisador que não comemora o Natal, diga-se de passagem): “Árvores não nos tornam mais agradáveis a Deus. Nem mesmo perus, presentes, guirlandas ou presuntos feitos para a ocasião do Natal [...] O Natal não pode ser condenado por causa de suas origens pagãs. O Natal, tão pagão quanto possa ser, e quantas ideologias pagãs possa conter, não pode ser condenado porque, há mil,quinhentos ou cinco dias, alguém se prostrou diante de uma árvore e cometeu idolatria. As pessoas usam molduras de madeiras em suas casas para colocar fotos, mas seria coerente censurá-las porque aquela moldura veio de uma árvore e alguém adorava árvores há quinhentos anos? O cristão não é preso por suposições dessa natureza”.

O fato de reinos pagãos verem deuses em árvores nada significa e, por essa lógica, deveríamos nos privar dos benefícios do sol, da lua, dos mares, da chuva e de todas as outras manifestações dos atributos visíveis e invisíveis de Deus na criação (Rm 1.18). Inclusive, deveríamos deixar de visitar zoológicos e nos relacionar com seres humanos, visto que eles também são alvo da natural tendência humana à idolatria (Rm 1.23).


O Natal foi uma invenção da Igreja Católica


Esse argumento se utiliza do preconceito natural que muitos evangélicos têm pelos costumes católicos romanos. É verdade que isso vem desde a época da Reforma, e alguns tentam usar as palavras dos primeiros reformadores sobre o assunto, mas aqueles homens viviam num contexto completamente diferente, que era resgatar as doutrinas cristãs originais, e isso, com certeza, os influenciava sobre vários aspectos (um exemplo clássico foi a antipatia de Lutero pela epístola de Tiago).

De qualquer forma, em primeiro lugar, ninguém sabe ao certo “quando, como e qual” Igreja Católica inventou. Devemos nos lembrar de que até a primeira divisão da Igreja, entre romanos e gregos, só existia Igreja Católica – que quer dizer “universal” – e até a Reforma Protestante, todo cristão ocidental era católico, tanto que, no Credo Apostólico, muitas igrejas protestantes usam a expressão “Creio na Igreja Católica”.

Não tenho qualquer dificuldade em dar mais crédito a escritos de católicos do passado, como Agostinho, Anselmo, Irineu e Justino, entre outros, que às teorias da conspiração de muitos “evangélicos” do presente. Da mesma forma, o fato de um escritor antigo e importante, seja Agostinho, Lutero ou Calvino, tomar uma posição sobre determinado assunto não nos dá a obrigação de ter a mesma opinião (evidentemente, não estou falando de conceitos doutrinários básicos das Escrituras).

Em um bom texto, Cleriston Andrade, colaborador do CAPC, cita algo interessante: “Muitos [incluo aqui historiadores sérios] afirmam que o domingo foi escolhido como dia de culto pela malvada Igreja Católica de Roma para confrontar os pagãos que comemoravam sua festa dedicada ao Sol nesse dia – por isso, os saxões e descendentes, o chamam de Sun-day [“Dia do Sol”]. Parece muito com o caso do Natal ou é impressão minha? Deveríamos repensar esta prática de cultuar no domingo? Mas, não se esqueça de que o Satur-day também deveria ser errado, pois era designado para outro deus, a saber, Saturno”.


O princípio regulador do culto


Este é o argumento usado pelos reformados tradicionais (como C. Mattew McMahon, citado anteriormente), que nos ensinam a não acrescentarmos nada no culto além do que foi ensinado na Bíblia. Concordo com a ideia e a preocupação dos reformadores quanto a isso, e devemos sempre estar atentos às inovações no culto. Mas, com base apenas na falta de unidade das opiniões dos cristãos reformados , tenho de fazer a polêmica sugestão, com todo o respeito, de que se regule melhor o princípio regulador, numa ideal associação entre a Bíblia e o bom-senso. Enquanto isso impede que muitas bobagens tomem conta das igrejas cristãs, se levarmos o princípio ao seu outro extremo, teríamos de excluir as escolas bíblicas dominicais, os cultos com as crianças, a apresentação dos visitantes, as cantatas, os grupos vocais, entre muitos outros, que também não estão prescritos na Bíblia.


O fator conscientização


Quando pensamos em celebração natalina, evidentemente, estamos falando da festa realizada pela comunidade cristã. Não estou, de forma alguma, apoiando o consumismo, a glutonaria e toda essa subversão de nossa sociedade, que desvirtuou o motivo original da festa. Por isso, a Igreja de Cristo deve preocupar-se em conscientizar as pessoas, especialmente as crianças, de que a festa de Natal é apenas uma celebração simbólica instituída e não literalmente o aniversário de Jesus Cristo. Além disso, deve deixar claro que o Papai Noel e crendices relacionadas são tão importantes e relevantes para o Natal quanto o “homem-aranha” é para o dia da Reforma Protestante. Ou seja, nada acrescentam. Além dessa admoestação, não vejo motivo para não glorificar a Deus e pregarmos o evangelho por meio desta festa que relembra algo tão magnífico, que marca a história, tanto do homem quanto da salvação.

“Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10.31).


Referências:

Embora discorde da opinião do autor sobre o Natal, faço minhas as palavras dele ao rebater os argumentos mais comuns. O texto (em inglês) se encontra em http://www.apuritansmind.com/Christmas/Christmas.htm

ANDRADE, Cleriston. Os judaizantes de hoje. http://www.cacp.org.br/judaizantes_de_hoje.htm. Acesso em 22/9/11.

Vide, por exemplo, John Piper escrevendo a favor. Acesso em 22/9/11.

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