Defesa da Fé

Edição 94

É lícito comemorar aniversário natalício?


Da Redação

Quando uma pessoa aceita um estudo baseado nas publicações da Torre de Vigia, organização das testemunhas de Jeová, passa a receber, progressivamente, os ensinos característicos dessa entidade e, naturalmente, passa a adotá-los como bússola orientadora que determinará seu comportamento e ações dali para frente. Nesse ponto, um dos ensinos que talvez seja muito difícil de ser entendido, e até mesmo aceito, é a proibição que as testemunhas de Jeová impõem à comemoração de aniversários natalícios. De fato, as testemunhas de Jeová, já de longa data, têm ensinado que é errada, sendo até mesmo idolatria, a comemoração de aniversários natalícios.

Dizemos difícil de ser aceito e entendido pelo fato de que, quando se ouve a explicação do motivo que leva a essa proibição, tal explicação nos parece um tanto quanto inconsistente e superficial. Talvez, por isso mesmo, alguns optaram por ignorar tal ensino, embora estejam oficialmente ligados às testemunhas de Jeová. Afinal, o que poderia haver de errado ou nocivo em uma festividade de caráter essencialmente pessoal? Na realidade, esse raciocínio óbvio faz que surjam algumas perguntas pertinentes. Vejamos:

• Qual é o fundamento desse ensino?

• Existe alguma lógica nessa doutrina ou ela não passa de uma doutrina sem base bíblica?

A seguir, alguns raciocínios que visam esclarecer o assunto.

Em que se baseiam as testemunhas de Jeová para proibir a comemoração de aniversários natalícios?


Aniversários associados a mortes


Baseiam sua premissa em duas passagens bíblicas. Argumentam que, em dois relatos de aniversários natalícios na Bíblia (teoricamente únicos), ocorreram coisas que desagradaram a Deus. Portanto, a partir desse argumento, decidiram adotar uma posição contrária à comemoração de aniversários natalícios. Estamos nos referindo aos relatos de Gênesis 40.20, onde um faraó mata seu padeiro durante um aniversário natalício. E Mateus 14.6, onde o rei Herodes mata João Batista durante uma festa de aniversário. Mas, serão esses argumentos realmente válidos? Será mesmo que a Bíblia não relata outros aniversários natalícios? Aparentemente, ao menos uma família o fazia.

Leiamos o seguinte relato bíblico:

“E seus filhos foram e realizaram um banquete na casa de cada um [deles] no seu próprio dia; e mandaram convidar suas três irmãs para comerem e beberem com eles. E dava-se que, tendo os dias de banquete completado o ciclo, Jó mandava santificá-los; e ele se levantava de manhã cedo e oferecia sacrifícios queimados segundo o número de todos eles; pois, dizia Jó, meus filhos, talvez, tenham pecado e amaldiçoado a Deus no seu coração. Assim Jó fazia sempre” (Jó 1.4,5).

Ao que o texto indica, a festa mencionada era mesmo de aniversário natalício (isto ainda será discutido). Jó, porém, não participava somente, pois, como é deixado claro, isso era um costume deles. Afinal, “assim fazia Jó sempre!”. Mas, como sabemos que a expressão “cada um [deles] no seu próprio dia” referia-se a um aniversário natalício?

A resposta vem logo após:

“Foi depois disso que Jó abriu a boca e começou a invocar o mal sobre o seu dia. Jó respondeu então e disse: Pereça o dia em que vim a nascer, também a noite em que alguém disse: Foi concebido um varão vigoroso!” (Jó 3.1-3).

Interessante que o livro Estudo perspicaz das Escrituras (editado e publicado pela Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados) cita que o termo hebraico, utilizado em Jó 1.4 (yohm), não é aplicável à festividade de aniversário natalício, ao dia específico do nascimento. No entanto, a mesma palavra hebraica aparece em Jó 3.1,3, referindo-se, indubitavelmente, ao dia específico do nascimento e não a outro período ou época, conforme afirmado no livro em referência acima.

Assim, a utilização do termo hebraico yohm, em Jó 3.1,3, deixa claro que o mesmo se aplica ao dia do nascimento — embora não seja uma comemoração em si, na forma como é apresentada em Jó 1.4. Diante disso, resta alguma dúvida de que a expressão “seu próprio dia” ou “seu dia” refere-se ao dia do nascimento? Cremos que não! Portanto, se Jó e seus filhos comemoravam regularmente “seu próprio dia”, se comemoravam o dia do seu nascimento, o que estavam eles comemorando senão o aniversário natalício?

Assim, são derrubados dois mitos. Primeiro, os aniversários natalícios, mencionados na Bíblia, não foram somente aqueles dois “famigerados”. Antes, até mesmo servos de Deus, servos fiéis, celebravam festas em comemoração ao dia do seu nascimento. De fato, é de conhecimento de todos que muitos servos de Deus no passado realizavam grandes festividades, por ocasião do nascimento de seus filhos.

Notem o que o Estudo perspicaz das Escrituras afirma sobre esse aspecto: “De acordo com as Escrituras, o dia em que o bebê nascia era usualmente um dia de regozijo e de ações de graças da parte dos pais, e isso de direito, pois ‘eis que os filhos são uma herança da parte de Jeová; o fruto do ventre é uma recompensa’” (Sl 127.3; Jr 20.15; Lc 1.57,58).

A partir dessa descrição, pergunte-se: qual é a diferença entre celebrar o nascimento no dia em que acontece (ou aproximamente) e celebrar o mesmo anualmente? Do ponto de vista lógico, não existe diferença – ambas as ocasiões celebram o mesmo fato; a saber: o momento em que um indivíduo veio ao mundo. Além disso, será que uma testemunha de Jeová saberia responder por que a Torre de Vigia proíbe a celebração anual do aniversário natalício, mas não proíbe a celebração, também anual, dos aniversários de casamento?

Segundo mito derrubado: os dois relatos negativos não condenam a comemoração de aniversários natalícios, nem mesmo outra parte da Bíblia o faz. Isso nos faz chegar à conclusão de que qualquer proibição imposta no sentido de não se comemorar aniversários natalícios — proibição esta que não se encontra na Bíblia — seria ir além das coisas escritas, explicitamente falando. E o que a Bíblia diz sobre isso? Vejamos: “Agora, irmãos, estas coisas passei a aplicar a mim mesmo e a Apolo, para o vosso bem, para que, em nosso caso, aprendais a [regra]: Não vades além das coisas que estão escritas” (1Co 4.6).

O que está fazendo uma pessoa ou entidade religiosa quando impõe uma proibição sequer mencionada ou sugerida na Bíblia? Não faz ela exatamente o que diz o versículo bíblico citado? Esse raciocínio tem feito que pessoas de reflexão, pessoas inteligentes que se recusam a aceitar dogmas insanos, deixem de observar uma proibição humana e sem qualquer fundamento bíblico ou cristão.


Adoração aos aniversariantes


Alguns insistem em dizer que os aniversários natalícios são ocasiões em que se dá indevida honra a seres humanos, honra esta que deveria ser dada a Deus. À primeira vista, esse argumento parece ser um excelente argumento para aquele que não está bem familiarizado com as Escrituras. Mas, será realmente que não se pode dar honra a seres humanos? É verdade que, por honrarmos seres humanos, estamos desonrando a Deus? O que se deve dar a Deus?

Meditemos nesse interessante versículo: “Não deves fazer para ti imagem esculpida, nem semelhança de algo que há nos céus em cima, ou do que há na terra embaixo, ou do que há nas águas abaixo da terra. Não te deves curvar diante delas, nem ser induzido a servi-las, porque eu, Jeová, teu Deus, sou um Deus que exige devoção exclusiva” (Êx 20.4,5).

Uma testemunha de Jeová seria capaz de encontrar, aqui ou em qualquer outro lugar na Bíblia, a proibição de que se dê honra a outros seres humanos? Naturalmente, a adoração a outros não é tolerada por Deus. Mas, e a honra a outros humanos, é tolerada biblicamente?

A Bíblia nos responde. Observe a opinião divina a respeito de se dar honra a seres humanos: “Rendei a todos o que lhes é devido, a quem [exigir] imposto, o imposto; a quem [exigir] tributo, o tributo; a quem [exigir] temor, tal temor; a quem [exigir] honra, tal honra” (Rm 13.7).

Este versículo deveria induzir aqueles que defendem a tese de que os aniversários natalícios dão indevida honra a um ser humano a reformular seu modo de pensar e a admitir que a honra dada a seres humanos não constitui violação de mandados divinos, desde que não se converta em atos de veneração. O próprio Deus nunca condenou que se honrasse os humanos; antes, condenou que se prestassem atos de adoração em detrimento a Ele.

Ademais, se pararmos para observar certos acontecimentos à nossa volta, notaremos que, em diversas situações, seres humanos recebem honra em muito mais alto grau e mais frequentemente do que um aniversariante recebe, mesmo na organização das testemunhas de Jeová. Afinal, o aniversariante recebe certa medida de atenção anualmente apenas por um curtíssimo período de tempo. Mas, se o leitor raciocinar à luz da razão, dar-se-á conta de que um superintendente de circuito das testemunhas de Jeová recebe honra semanal muito maior do que a “honra” ou atenção dada a um aniversariante.

Na realidade, este constitui um capítulo à parte no complexo campo de se dar honra ou atenção em excesso a homens, quando o assunto é o comportamento das testemunhas de Jeová. Se alguém é, ou mesmo se já foi testemunha de Jeová, certamente percebe que os líderes espirituais — anciãos de destaque, superintendentes de circuito e distrito, representantes de Betel e outros — recebem uma atenção que classificaríamos como, no mínimo, descomunal.

Imaginamos que todos os que têm ou já tiveram contato com os procedimentos da Torre de Vigia já se deram conta do enorme alarde e movimento criado em torno da visita de um superintendente de circuito ou distrito à congregação local.

É fato inegável que tais privilegiados homens recebem o tipo de tratamento que, exceto em raras ocasiões, nenhum outro membro das testemunhas receberá. Existe, portanto, neste caso, um excesso de atenção e dedicado trabalho — bem como gastos materiais — voltados a uma pessoa em particular.

Naturalmente, pelo empenho pessoal por uma causa tida como nobre — ainda mais se considerando que não existe ganho material substancial — esses homens merecem nossos elogios e esforços, no sentido de serem bem acolhidos. Mas, o que, inegavelmente, se vê nas congregações nos dias que antecedem suas visitas, bem como durante as mesmas, é uma verdadeira corrida frenética, uma verdadeira loucura para agradar e exaltar tais pessoas — algo que todos aqueles que observam os fatos de maneira isenta não podem deixar de notar.

Vale ressaltar que os superintendentes de circuito e distrito não recebem essa extraordinária atenção anualmente; antes, isso acontece com eles semanalmente, em cada congregação que visitam — algo muito mais frequente do que acontece com certa pessoa, por ocasião do aniversário natalício, que é uma celebração anual.

Alongando ainda mais este assunto, há de se notar que nas publicações da Torre de Vigia se dão incessantes e constantes créditos pessoais a líderes organizacionais, tais como: Charles Taze Russell e Joseph Franklin Rutherford. Na realidade, poder-se-ia dizer, sem margem de dúvida, que esses personagens chegam mesmo a ser considerados semideuses. Pode, por acaso, uma testemunha de Jeová fiel negar que, nas publicações da Torre de Vigia, se fazem constantes alusões a essas pessoas, como responsáveis pelo conhecimento espiritual sustentado, hoje, por tal organização?

Ainda sobre esse tópico, questionamos: Quem recebe mais honra? Um aniversariante ou um casal de noivos, durante sua festa de casamento? Vestidos com roupas especiais, sendo o centro de toda a atenção, o que faz que eles sejam diferentes de um aniversariante? Por que se diz que o aniversariante recebe atenção antibíblica e não se diz o mesmo de um par de noivos durante sua festa?


As testemunhas de Jeová celebravam o aniversário de Jesus


Como sabemos, as testemunhas de Jeová não comemoram o Natal, em decorrência da proibição à celebração de aniversários natalícios. Não dão presentes, não montam árvores natalinas e muito menos enfeitam suas casas com luzes pisca-pisca. Entretanto, isso nem sempre foi assim. No passado, elas também comemoravam o Natal, realizando, inclusive, cerimônias de confraternização no refeitório do Betel. As testemunhas de Jeová comemoraram o Natal por várias décadas, mas, em 1926, Rutherford, então presidente da Torre de Vigia, determinou que fosse abandonada tal prática, por ser pagã.

Hoje, as testemunhas de Jeová são fortes opositoras do Natal. Suas recusas à comemoração desse feriado se tornaram uma das “importantes verdades” divulgadas pela religião, a fim de se provar verdadeira (curioso é que várias de suas práticas ainda contêm origens pagãs, mas elas não abandonam). No final de cada ano, é comum lançarem uma publicação destinada a expor a “verdade sobre o Natal” e, em 2011, não poderia ser diferente.

A imagem que a Sociedade Torre de Vigia passa do Natal é das piores, a de que as pessoas usam a data para se embriagar e cometer práticas imorais. Mas, como todos sabemos, o lado belo e fraternal do Natal também existe e ainda é o motivo principal de confraternização entre familiares. Aos que se dedicam, hoje, à confraternização natalina em família, desejamos muita felicidade e alegria, assim também como para todos os nossos conhecidos, colegas e amigos, que são testemunhas de Jeová.

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