Defesa da Fé


O movimento da espiritualidade sem a mediação de Cristo


Por Augustus Nicodemus Lopes

Mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em interpretação bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA)


Existe, em todo o mundo, um movimento envolvendo católicos e protestantes que visa resgatar a mística medieval, especialmente as práticas e disciplinas espirituais dos cristãos da Idade Média como modelo para uma nova espiritualidade hoje, em reação à frieza, à carnalidade e ao mundanismo da cristandade moderna.

Esse movimento, geralmente, é conhecido como “espiritualidade” e tem atraído não poucos líderes católicos e protestantes. Apesar do nome, é bom lembrar que existem importantes diferenças entre esse movimento e a busca tradicional de uma vida espiritual mais profunda por parte do cristianismo histórico.

Que esse movimento tenha adeptos entre os católicos não é de admirar, pois é entre eles que está a sua origem e se encontram seus ícones. O que espanta é a sua presença entre os protestantes, mesmo aqueles de convicções mais conservadoras.

Até entendemos o motivo pelo qual o movimento de espiritualidade tem conseguido atrair pastores e líderes das igrejas históricas e conservadoras em nosso país. Primeiro, porque existe uma decepção justificada por parte desses líderes diante da falta das práticas devocionais em boa parte dos que são teologicamente mais conservadores.

Infelizmente, os quartéis conservadores abrigam pastores assim, que não oram, não jejuam, não investem tempo em ler a Palavra e meditar nela, buscando uma comunhão mais profunda com Deus e a plenitude do seu Espírito Santo.

Recentemente, conversei com outro pastor, meu amigo, que se queixava de colegas de ministério que ficam na cama até perto do meio-dia, que gastam a maior parte do tempo na Internet, que não trabalham, não evangelizam, não investem tempo em buscar o Senhor Deus e em cuidar do rebanho. Ou seja, pastores que vão levando o ministério nessa farsa.

Não é de espantar que suas igrejas sejam minúsculas, problemáticas. Que eles não se demorem muito tempo em um mesmo local. E que, quando saem, deixam atrás de si um rastro de destruição, confusão, insatisfação e problemas não resolvidos. É lógico que esses líderes não representam a totalidade dos pastores conservadores, e muito menos a teologia reformada, que, tradicionalmente, sempre valorizou a vida de piedade ao lado do cultivo intelectual da mente.

Todavia, o fato de permanecerem, anos a fio, em seus presbitérios e convenções, enterrando igrejas, criando problemas, sem que sejam questionados ou confrontados, dá aos demais conservadores ares de cumplicidade e abre portas para que movimentos como esse, de espiritualidade, encontrem mentes e corações ávidos, cansados da frieza, da carnalidade e da politicagem que encontram entre os conservadores.

Além de tudo isso, existe, no próprio meio conservador, um desencanto com a piedade pentecostal, que já teve melhores dias entre nós. Muitos pastores conservadores, que um dia se sentiram atraídos pelas ofertas do pentecostalismo: batismo com o Espírito Santo, falar em línguas, sonhos e visões, profecias, sinais e prodígios, têm recuado diante da aparente superficialidade e da ênfase desmedida em algumas dessas experiências.

Em verdade, querem uma piedade mais solidamente enraizada nas Escrituras, que ofereça alguma salvaguarda para os exageros, falsificações e eventuais interferências humanas nas experiências. Então, diante disso, surge o movimento de espiritualidade, que se distancia do pentecostalismo em vários aspectos e promete aquilo que todos desejam: uma proximidade com Deus nunca antes experimentada mediante as práticas devocionais.

Outro atrativo no movimento é que ele se reveste de um misticismo que apela profundamente às almas que, por natureza, são mais piedosas e religiosas, as quais também se encontram nos limites da tradição mais conservadora. Para tais pessoas, a ideia de se gastar tempo em silêncio, contemplando o divino, ouvindo a voz de Deus, penetrando os tabernáculos celestes, tocando nas vestes de Cristo, mortificando a carne e suas paixões mediante o jejum e a abstinência de alguns confortos terrenos e físicos, é um atrativo poderoso, como sempre foi ao longo da história da Igreja.

Confessamos, todavia, que nunca nos sentimos realmente atraído por esse tipo de espiritualidade. Não gostaria de pensar que isso é porque somos um daqueles pastores frios e sem o Espírito Santo que mencionei em algum parágrafo anterior. Conscientemente, não nos sentimos interessados nessa espiritualidade, acima de tudo, pelo fato de que ela é defendida por padres e leigos católicos e que, entre os protestantes, ganhou muitos adeptos e defensores da parte dos liberais. Desconfiamos de tudo o que os liberais apoiam e defendem.

Não estamos dizendo que todos os protestantes que adotaram ou aderiram ao movimento de espiritualidade são liberais. Conhecemos uma meia dúzia que não é. Deve haver muitos outros. O que estamos afirmando é que, para nós, é, no mínimo, intrigante que os liberais, que sempre se disseram progressistas e amantes do novo, defendam, com tanto interesse, um modelo de espiritualidade que tem como ícones monges e freiras católicos da Idade Média e o seu tipo de práticas espirituais.

Não discordamos de tudo que os defensores da espiritualidade pregam. Quebrantamento, despojamento, mortificação, humildade e amor ao próximo são conceitos bíblicos. E encontramos vários desses conceitos defendidos pelos seguidores da espiritualidade. Nossa oposição não é tanto em relação ao que eles dizem.

Sentimos falta, por exemplo, de uma ênfase na justificação pela fé em Cristo, pela graça, sem as obras ou méritos humanos, como raiz da espiritualidade. Uma espiritualidade que não se baseia na justificação pela fé e não nasce dela, está fadada a virar, em algum momento, uma tentativa de justificação pela espiritualidade ou piedade pessoal. Não estamos dizendo que os defensores da espiritualidade negam a justificação pela fé somente — talvez, os defensores católicos façam isso, pois a doutrina católica, de fato, anatematiza quem defende a salvação pela fé somente. O que estamos dizendo é que não encontramos essa ênfase na justificação pela fé em Cristo nos escritos que defendem a espiritualidade.

Sentimos falta, igualmente, de uma declaração mais aberta e explícita de que a espiritualidade começa com a regeneração, o novo nascimento, e que somente pessoas que nasceram de novo, que foram regeneradas pelo Espírito Santo de Deus, que são uma nova criatura, um novo homem, é que podem realmente se santificar, crescer espiritualmente e ter comunhão íntima com Deus. A ausência da doutrina da regeneração no movimento pode dar a impressão de que, por detrás de tudo, está a ideia de que a religião natural, inata, do ser humano, por causa da imago dei (“semelhança de Deus”), é suficiente para uma aproximação espiritual com Deus, por meio do emprego das práticas devocionais.

O caráter progressivo na santificação também está faltando na pregação do movimento. Quando não mantemos em mente o fato de que a santificação é imperfeita neste mundo, que nunca ficaremos aqui totalmente livres da nossa natureza pecaminosa e de seus efeitos, facilmente podemos nos inclinar ao perfeccionismo, que, ao fim, traz arrogância e/ou frustração.

Também, gostaria de ver mais claramente explicado o que significa imitar a Jesus como uma das características da vida cristã. Pois, até onde sabemos, Jesus não era cristão. A religião dele era totalmente diferente da nossa. Somos pecadores. Jesus não era. Logo, Ele não se arrependia, não pedia perdão, não mortificava uma natureza pecaminosa, não lamentava e chorava por seus pecados. Ele não orava em nome de alguém, nem precisava de um mediador entre Deus e Ele. Jesus não tinha consciência de pecado nem sentia culpa — a não ser quando levou sobre si nossos pecados na cruz. Jesus não precisava ser justificado de seus pecados nem experimentava o processo crescente e contínuo de santificação.

A religião de Jesus era a religião do Éden, a religião de Adão e Eva antes de pecarem. Somente eles viveram essa religião. Nós somos cristãos. Eles nunca foram. Jesus nunca foi. Como, portanto, vou imitá-lo nesse sentido?

É esse tipo de definição e esclarecimento que sinto falta na literatura da espiritualidade que, constantemente, se refere à imitação de Cristo sem maiores qualificações. Quando vemos Jesus somente como exemplo a ser seguido, podemos perdê-lo de vista como nosso Senhor e Salvador. Quando o Novo Testamento fala em imitarmos a Cristo, é sempre em sua disposição de renunciar a si mesmo para fazer a vontade de Deus, sofrendo mansamente as contradições (Fp 2.5; 1Pe 2.21). Mas, nunca em imitarmos Jesus como cristão, em suas práticas devocionais e sua espiritualidade.

Faltam, ainda, outras definições em pontos cruciais. Por exemplo, o que realmente significa “ouvir a voz de Deus”? Algo que aparece constantemente no discurso dos defensores da espiritualidade. Quando ficamos em silêncio, meditando nas Escrituras, abertos para Deus, o que de fato estamos esperando? Ouvir a voz de Deus com esses ouvidos que um dia a terra há de comer? Ouvir uma voz interior, como os Quackers? Sentir uma presença espiritual poderosa, definida, que afeta inclusive o nosso corpo, com tremores e arrepios? Ver uma luz interior, ou até mesmo ter uma visão do Cristo glorificado e manter diálogos com Ele, como Teresa D’Ávila, Inácio de Loyola, a freira Hildegard e, mais recentemente, Benny Hinn? Ou, talvez, essa indefinição do que seja “ouvir a voz de Deus”, seja intencional, visto que a indefinição abriga todas as coisas mencionadas acima e outras mais, unindo, por essas experiências vagas, pessoas das mais diferentes persuasões doutrinárias e teológicas, como católicos e evangélicos, conservadores e liberais?

Por fim, entendemos que, biblicamente, os meios exteriores e ordinários, pelos quais Cristo comunica à sua Igreja os benefícios de sua mediação, de seu sacrifício e de sua ressurreição, são a Palavra, as ordenanças e a oração. Outros meios, como, por exemplo, silêncio, meditação, contemplação, isolamento, mortificação asceta do corpo, não são reconhecidos como meios de graça, embora possam ter algum valor temporal acessório às ordenanças de Cristo.

Como ensinou Paulo, seguir uma lista daquilo que podemos ou não manusear, tocar e provar tem “aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não tem valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.20-23).


Considerações finais


Por todos esses motivos, nunca realmente nos sentiremos interessados na espiritualidade proposta por esse movimento. Parece-nos uma tentativa de elevação espiritual sem a teologia bíblica, uma tentativa de buscar o Senhor Deus por parte de quem já desistiu da doutrina cristã, das verdades formuladas nas Escrituras, de maneira proposicional. Preferimos a espiritualidade evangélica tradicional, centrada na justificação pela fé, que enfatiza a graça de Deus recebida mediante a Palavra, as ordenanças e a oração, e que vê a santidade como um processo inacabado neste mundo, embora tenha como alvo a perfeição final.

Franklin Ferreira, conversando conosco sobre esse assunto, escreveu o texto que segue, o qual reproduzimos literalmente, por retratar, de forma sintética e profunda, o que consideramos o principal problema com a espiritualidade defendida pelo movimento que leva esse nome:

“Acho que você conhece a distinção que Lutero fez entre a ‘teologia da glória’ e a ‘teologia da cruz’. Muito do movimento de espiritualidade moderno cai, justamente, no que Lutero chamou de ‘teologia da glória’, isto é, a tentativa de chegar a Deus de forma imediata, ou por meio de legalismo (mortificação, flagelação da carne, etc.) e especulação teológica (como no liberalismo de Tillich ou no misticismo: as escadas da ascensão da alma para o céu, com a necessária purgação, mortificação e iluminação). Note que, nessas três escadas, o que se fala é da união da alma de forma imediata com Deus, sem a mediação do Cristo crucificado. Para Lutero, o fiel só encontra Deus não nas manifestações de poder que supostamente cercam as três escadas, mas na fraqueza, na cruz, pois, pela cruz, somos justificados”.

Que Deus nos guarde de irmos contra a busca de uma vida cristã superior, de desenvolvermos a vida interior.

Que o Senhor igualmente nos guarde de qualquer tentativa de alcançar tudo o que não esteja solidamente embasada em sua Palavra!


“Uma espiritualidade que não se baseia na justificação pela fé está fadada a virar uma tentativa de justificação pela piedade pessoal”


“Se não mantermos em mente o fato de que a santificação é imperfeita neste mundo, e que nunca ficaremos aqui totalmente livres da nossa natureza pecaminosa e de seus efeitos, podemos nos inclinar para o perfeccionismo que, ao fim, traz arrogância e/ou frustração”

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