Defesa da Fé


O desafio cristão para cuidar do meio ambiente


Por John T. Houghton

Físico climatologista, presidente da JRI, Instituo de Pesquisas sobre meio ambiente, ciência e cristianismo


Ao longo da história humana, alguns têm tomado conta de seu ambiente com grande cuidado, certificando-se de que poderiam passar suas terras para os seus filhos e netos de forma ainda melhor do que receberam. Outros têm explorado seu meio ambiente para seus próprios fins, sem pensar nas consequências futuras, ou tendo sido os poluidores do ar, da terra ou do mar, causando danos que, em alguns casos, foram irreversíveis. Estamos muito conscientes de que os escombros, as terras e os rios contaminados das nações do mundo desenvolvido continuam sendo um legado da Revolução Industrial.

Durante as últimas décadas, grandes esforços têm sido feitos com sucesso considerável para reduzir a poluição, especialmente a poluição do ar e da água, que ocorre em uma escala relativamente local. No entanto, com o grande aumento da população e da escala das atividades humanas, somos, agora, confrontados com a degradação ambiental em uma enorme escala e com a poluição que é global em sua extensão.

Problemas ambientais globais estão na agenda dos políticos, das indústrias e de pessoas em todo o mundo. Os problemas ambientais são, contudo, não apenas os problemas de âmbito global que o mundo enfrenta. Há muitos outros: a pobreza, a disponibilidade e a utilização dos recursos, a segurança e o crescimento populacional. Tudo em sua influência transforma o ambiente, todos eles precisam ser tomados em conjunto. Os cristãos e a Igreja precisam considerar todos eles e procederem de maneira a dar exemplo ao mundo.


A mordomia da terra, segundo o cristianismo


A relação entre o homem e a terra é, frequentemente, apresentada como um tipo de mordomia. Sermos mordomos da criação nos confere, fundamentalmente, a noção de responsabilidade. Em primeiro lugar, para com Deus e, em segundo, para com o resto da criação.

Uma imagem útil sobre a mordomia é encontrada na tradição judaico-cristã, na história da criação nos primeiros capítulos da Bíblia. Adão e Eva foram colocados em um jardim, o Jardim do Éden, “para trabalhá-lo e cuidar dele” (Gn 2.15). Notemos que a palavra “trabalho” é, muitas vezes, traduzida para “servir”. Logo, o homem tinha (e ainda tem) a função de servir como “jardineiro” de Deus nesta terra.


Quatro implicações em ser um “jardineiro” de Deus


1. Um jardim fornece comida e água e outros materiais para sustentar a vida em todas as suas formas. Notemos que a história do livro de Gênesis não menciona apenas água e comida, mas, também, recursos minerais (Gn 2.12).

2. Um jardim deve ser mantido como um lugar de beleza. As árvores no jardim do Éden eram “agradáveis aos olhos”. Ao contemplar a criação, experimentamos um sentimento de espanto e admiração em face de sua dimensão, complexidade e magnificência (Cf. os salmos, especialmente os Salmos 104 e 148). Milhões de pessoas, a cada ano, visitam jardins que foram projetados especialmente para mostrar a incrível variedade e beleza da natureza.

3. Um jardim é um lugar onde os seres humanos podem ser criativos. Fomos criados à imagem de Deus (Gn 1.26), o que implica que nós, assim como Deus, também temos criatividade. Os seres humanos aprenderam a utilizar os conhecimentos científicos e técnicos (por exemplo, gerar novas variedades de plantas), aliados à enorme variedade de recursos do planeta Terra para criar novas possibilidades de vida e sua fruição.

4. Um jardim deve ser mantido para beneficiar as gerações futuras. Grande parte do nosso planejamento e plantio de jardins tem claramente as gerações futuras em mente! Nós todos queremos passar para a próxima geração uma terra melhor do que a que herdamos.

Quão apropriado é compararmos a nós mesmos como jardineiros que cuidam da terra. Em contrapartida, somos, com mais freqüência, exploradores e saqueadores, em vez de jardineiros. Alguns cristãos têm interpretado mal o “domínio” dado aos seres humanos em Gênesis 1.26 como desculpa para a exploração desenfreada. No entanto, o livro de Gênesis, assim como outras partes das Escrituras, insiste em afirmar que a gestão humana sobre a criação deve ser exercida sob Deus, o governante máximo da criação, com o tipo de cuidado exemplificado por esse retrato de seres humanos como "jardineiros".


Muita conversa e pouca ação


Muitos desses princípios de boa gestão do “jardim” estão incluídos, pelo menos implicitamente, em muito do que é escrito sobre o meio ambiente nos tratados internacionais. A Conferência de Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992, foi a maior conferência internacional de todas as ocorridas, com mais de 25 mil participantes. Milhões de palavras resultaram de suas convenções e resoluções. A partir desse evento, a sensibilização para as questões ambientais se tornou muito mais evidente e não carecemos mais de declarações e pilhas de documentos e tratados de acordo.

O que parecem faltar, em geral, são a capacidade e a vontade de realizar tudo o que está discriminado nesses documentos. Há muita conversa, mas relativamente pouca ação. Estamos muito conscientes de que usar os recursos do mundo para satisfazer o nosso próprio egoísmo é ganância. Esse não é um problema novo, pelo contrário, é muito antigo. Na narrativa sobre o jardim do Éden, em Gênesis, somos apresentados ao pecado humano, com suas consequências trágicas (Gn 3). O ser humano desobedeceu ao Senhor Deus, rejeitando a sua presença. Esse relacionamento rompido com Deus conduziu a relacionamentos rompidos em outros lugares também. Os desastres, que encontramos por toda a parte no ambiente, falam, eloquentemente, sobre as consequências desse relacionamento quebrado.

Ao pensar no pecado e no mal que resulta de um relacionamento rompido com Deus, os cristãos, geralmente, pensam no pecado contra as pessoas e não contra o ambiente. Mas, se levarmos a sério a clara responsabilidade de cuidar da terra dada por Deus aos seres humanos, somos obrigados a reconhecer que também a falha nesta tarefa não é apenas um pecado contra a natureza, mas um pecado contra o próprio Deus. Trata-se de um pecado que leva à extinção de espécies, à redução da diversidade genética, à poluição da água, da terra e do ar, à destruição do hábitat e à ruptura do desenvolvimento de estilos de vida.


A redenção da matéria


Mas, alguém poderia muito bem fazer a pergunta: o pecado humano não arruinou tudo? Na tentativa de cuidar da terra, não estaríamos enfrentando uma batalha perdida? Existe um futuro para a terra? Alguns cristãos responderiam, prontamente: não!

Tomando em consideração, de maneira isolada e particular, os versículos da Bíblia que parecem sugerir que não há futuro para a terra física, alguns cristãos têm, frequentemente, argumentado que apenas a salvação espiritual importa e a matéria não merece qualquer preocupação. Pensar dessa forma, porém, é ignorar o fato de que os temas centrais da teologia cristã — a criação e a salvação — estão, intimamente, ligados pela encarnação e ressurreição de Jesus.

A decadência humana e o pecado não puseram fim aos propósitos de Deus para os seres humanos. Quando Deus se tornou humano em Jesus pela encarnação, demonstrou, o mais profundo possível, seu comprometimento para com o mundo material. William Temple, arcebispo de Cantuária, sessenta anos atrás, escreveu: “No cristianismo [...] a sentença mais central é: ‘o Verbo se fez carne’ (Jo 1.14). Pela própria natureza da sua doutrina central, o cristianismo está comprometido com uma crença [...] na realidade da matéria e seu lugar no plano divino”.

Além dessa relação entre a encarnação de Jesus e sua relação com a matéria, a ressurreição de Jesus é a chave para a nossa esperança para o futuro. Quando Jesus ressuscitou dos mortos, Ele não abandonou a matéria, o corpo tangível. Em vez disso, demonstrou seu poder de transformação sobre a matéria. O apóstolo Paulo aborda o tema da redenção da criação em uma passagem marcante, Romanos 8.19-21, nos seguintes termos: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua própria escolha, mas pela vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação seja libertada da escravidão da corrupção e levada para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.

A despeito das interpretações controversas que há sobre os símbolos contidos no livro de Apocalipse, nele também há ênfase na ressurreição e redenção, à medida que apresenta a maravilhosa visão que João teve dos novos céus e da nova terra — um lugar redimido, transformado, habitado por povo liberto do pecado.

Portanto, há um futuro para a terra. Precisamos de uma teologia da criação que inclui, como temas centrais, a encarnação e a ressurreição de Cristo, fundamentos nos quais essa teologia tem de ser construída. Jesus Cristo é central para todo e qualquer pensamento que tenhamos sobre a criação — e a criação faz parte do futuro que Cristo veio estabelecer.


Uma parceria com Deus


A mordomia da terra, na prática, é atacada pelo egoísmo e pela ganância humana, que levam à exploração dos recursos da terra, além do problema da impotência humana, pois sabemos o que fazer, mas falta a vontade de fazê-lo. Alguns se desesperam e julgam que esse problema está além da capacidade da raça humana para enfrentá-lo adequadamente. Não podemos ignorar que, de fato, esse problema possui um viés espiritual.

Entretanto, não podemos perder de vista que não temos de carregar a responsabilidade de cuidar da terra contando apenas com os nossos próprios recursos humanos. O nosso parceiro não é outro senão o próprio Deus. A narrativa bíblica do jardim de Gênesis contém uma bela descrição dessa parceria quando fala de Deus “caminhando no jardim no frescor do dia” (Gn 3.8). Podemos questionar sobre o que Deus, Adão e Eva conversaram nos passeios noturnos. Certamente, teriam falado sobre o jardim e como eles (o casal) estavam começando a descobrir sobre ele e a cuidar dele, do jardim.

Na mensagem cristã, o material e o espiritual estão intimamente ligados. Certa vez, Jesus disse aos seus discípulos: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Isso é, geralmente, interpretado como se referindo, particularmente, à esfera espiritual e à atividade religiosa. Mas, Jesus não restringiu sua palavra dessa forma, e sua declaração pode ser aplicada a tudo o que fazemos para Deus, em qualquer âmbito, afinal, cuidar da terra também é um dos trabalhos de Deus.

Além disso, Jesus explicou aos discípulos que Ele não estava chamando-os de servos, mas de amigos (Jo 15.15). Aos servos, são dadas instruções sem explicação; como amigos, porém, somos trazidos para a confiança de nosso Senhor. Não recebemos prescrições de medidas precisas, mas espera-se que usemos os dons que nos foram dados para realizar nossas tarefas em uma verdadeira parceria.

Dentro da própria criação, há um enorme potencial que pode nos ajudar no cumprimento dessa tarefa. A busca pelo conhecimento científico e a aplicação da tecnologia são uma parte essencial da nossa mordomia. Ambos precisam ser perseguidos e utilizados com a humildade adequada. Um entendimento claro das responsabilidades que nos foram dadas juntamente com a confiança na presença e na fidelidade de Deus é a mistura que torna a mordomia cristã emocionante e desafiadora.

Para finalizar, reconhecemos que este tema poderia, em muito, contribuir para demonstrar ao mundo o valor da fé cristã para algumas pessoas que, de outra forma, jamais dariam ouvidos à mensagem do evangelho. A inclusão das preocupações ambientais como parte de sua missão é um grande desafio para a igreja atual.


Resumo dos desafios


1. O mundo está enfrentando crises ambientais de magnitude sem precedentes, inclusive, algumas delas em escala global.

2. Cuidar da terra é uma responsabilidade dada por Deus. Portanto, não cuidar da terra é um pecado.

3. Os cristãos precisam voltar a salientar que as doutrinas da criação, da encarnação e da ressurreição são indissociáveis. O espiritual não deve ser visto como separado do material. Uma teologia aprofundada do meio ambiente tem de ser desenvolvida.

4. Nossa mordomia da terra, como cristãos, deve ser buscada na dependência e na parceria com Deus.

5. A aplicação da ciência e da tecnologia é um componente importante desta mordomia. A humildade é um ingrediente essencial para a pesquisa e para a aplicação da ciência e da tecnologia.

6. Tudo isso proporciona uma enorme oportunidade para o cristão testemunhar, hoje, seu comprometimento com Deus, especialmente porque muitos cristãos têm negligenciado a importância da criação e o seu lugar na mensagem cristã.


Fonte:

Science. 15 August 1997: vol. 277, no 5328, p.890–3. In: Scientific Community: Science and God: A Warming Trend? Gregg Easterbrook. (Este artigo informativo foi baseado na palestra ministrada pelo autor em Drawbridge, em 1996, para a Christian Evidence Society).

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