Defesa da Fé


A crítica bíblica e suas escolas


Uma avaliação de seus métodos e pressupostos


Por Danilo Moraes

Mestre em teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo (FTBSP), com especialização em Antigo Testamento.


Os membros de igrejas, habituados a compreender a Bíblia apenas em seu campo religioso, passam por um “verdadeiro parto” ao se depararem com concepções científicas da Bíblia. E, por conta disso, começam logo a questionar sua fé e valores, travando, assim, uma luta em suas mentes para que possam se adaptar às novas descobertas no campo das pesquisas bíblicas. Isso ocorre praticamente em todos os casos. Afinal, a crítica é, por natureza, inimiga da estabilidade. Mas, assim como as dores do parto são necessárias, também é necessário que o cristão fiel passe por esta experiência, a fim de que possa amadurecer e fortalecer sua fé.

Nesse âmbito, é importante termos em mente o que de fato é o criticismo.

Vejamos uma das possíveis definições:

“Em oposição ao dogmatismo, que pressupõe, sem exame, a validade de nosso conhecimento, especialmente do conhecimento metafísico, e ao ceticismo, para o qual a dúvida universal continua sendo a última palavra, o criticismo, em geral, é aquela atitude mental que torna dependente de uma prévia investigação da capacidade e limites do nosso conhecimento o destino da filosofia especulativa e, principalmente, o da metafísica” (BRUGGER, 1962, p.142).


Concepções sobre a crítica bíblica


A palavra “crítica” vem da raiz grega, krino, que significa “cortar”, e em sua forma adjetiva kritikos, que quer dizer: “apto para julgar”. Com isso, em seu sentido etimológico, vemos que a crítica tem o sentido de juízo, julgamento e avaliação. “Crítica é a ciência ou arte de avaliação das qualidades de uma produção qualquer, literária ou artística” (KERR, 1956, p. 11).

A crítica bíblica emergiu graças ao racionalismo dos séculos 17 e 18. No século 19, ela se dividiu entre a “alta crítica” (isto é, o estudo da composição e história dos textos bíblicos) e a “baixa crítica” (a análise crítica dos textos visando estabelecer sua leitura correta ou original).

Esses termos são praticamente deixados de lado hoje em dia, e a crítica contemporânea assistiu à emergência de novas perspectivas que se baseiam em abordagens literárias e sociológicas na busca do significado dos textos.

Segundo La Bruyère, a crítica, muitas vezes, não é uma ciência. “É uma função em que mais saúde que espírito se torna necessária, mais trabalho que capacidade, hábito mais que gênero. Se proceder de um homem que possua menos discernimento que leitura em que por certos capítulos se exerça, corrompe os leitores e o escritor” (STEINMANN, 1960, p. 7).

Conforme Alfredo Loisy (1857-1940), crítico francês do século 19, “a crítica é antes uma arte que ciência, supondo não somente conhecimentos suficientes do assunto a que se aplica, mas também a experiência das coisas que se trata de julgar” (STEINMANN, 1960, p. 53).

A crítica bíblica é uma atividade necessária para o aprofundamento do nosso conhecimento bíblico e teológico. As afirmações do texto bíblico são basicamente teológicas, devido a isso, é impraticável ousar fazer uma análise exegética crítica sem levar em consideração o conteúdo teológico do texto.


A crítica construtiva e a crítica destrutiva


Não devemos nos esquecer de que não pode haver uma boa teologia sem crítica. Também não pode existir uma boa crítica sem teologia. “Sem a teologia, o reconhecimento da verdade e valor da Bíblia, como um todo, não tem fundamento para nós, hoje” (KNIERIM, 1990, p.15). Muitas questões que a crítica levanta são legítimas e não podemos desprezá-las quando feitas em reverência à autoridade da Palavra de Deus e no intuito de encontrar a verdade.

Temos de ser cautelosos, porque “alguns críticos partem da intenção de destruir a fé, por causa de alguma distorção psicológica que os leva a destruir em vez de edificar. Alguns deles parecem indignados diante da Igreja cristã e seus ensinos. Outros se sentem insatisfeitos com o próprio cristianismo” (CHAMPLIN, 2002, p. 994).

Alguns conservadores fazem parecer importante para a fé aquilo que não tem importância. É necessário, pois, um equilíbrio ao se fazer uma crítica no campo bíblico e teológico. A verdadeira crítica não parte do pressuposto de destruir a autoridade e ensinamento das Escrituras. Tanto os críticos radicais quanto os críticos conservadores precisam evitar cuidadosamente preconceitos teológicos.

A Bíblia, definitivamente, não é um livro de ciência, antes, suas preocupações e enfoques são teológicos. Sua preocupação não está no “como” e no “quando”, mas no “quem” e no “por que”. Consequentemente, qualquer intérprete que se aproxime das Escrituras não pode ignorar esse “fundamento” em seu processo interpretativo.

Geisler (2002, p.116) apresenta um quadro comparativo entre a crítica construtiva (evangélica) e a crítica destrutiva (liberal):


Crítica positiva (construtiva) - Crítica negativa (destrutiva)


Base - Sobrenaturalista - Naturalista

Regra - O texto é “inocente até que prove ser culpado” - O texto é “culpado até que prove ser inocente”

Resultado - A Bíblia é completamente verdadeira - A Bíblia é parcialmente verdadeira

Autoridade final - Palavra de Deus - Mente do homem

Papel da razão - Descobrir a verdade (racionalidade) - Determinar a verdade (racionalismo)


Ainda segundo Geisler, quando um liberal afirma que pode julgar o sobrenatural, ele, na verdade, o traz para o plano natural e nega com isso, de antemão, sua realidade. A crítica “errou” ao adotar o pressuposto contrário ao caráter potencial do objeto sob julgamento. (GEISLER, 2003, p. 115).

Entre os críticos do século 18, encontramos Johann Salomo Semler (1725-1791), um dos fundadores do criticismo histórico da Bíblia. Ele apregoava que “a Palavra de Deus e as Sagradas Escrituras não eram a mesma coisa, sugerindo que nem toda a Bíblia é resultado da inspiração, sendo apenas um documento histórico, que deveria ser examinado como qualquer outro documento congênere; ou seja, por meio do método histórico-crítico” (COSTA, 2004, p. 304).

Semler também não aceitava o cânon bíblico, rejeitava a inspiração verbal das Escrituras e, segundo ele, os ensinamentos bíblicos devem ser considerados apenas moralmente. Semler, Reimarus e Lessing partiram do pressuposto de que não existe o sobrenatural, e tudo que entre em oposição a isso é racionalizado.

Outro crítico do século 18 foi Hermann Samuel Reimarus (1694-1768), que postulava que as evidências históricas eram insuficientes para a fé. Jesus teria sido um “Messias político judaico”. Não havia o sobrenatural nos evangelhos. Os milagres foram invenções dos apóstolos. E Jesus não ressuscitou. Acreditava, também, que a travessia do mar Vermelho foi uma grande mentira da parte de Moisés. Com isso, Reimarus postulava a religião natural e rejeitava a religião revelada.

Ainda, Gotthold Efraim Lessing (1729-1781) apregoava que todas as religiões conciliam o homem com Deus; que a revelação era uma etapa ultrapassada e o seu conteúdo podia ser transformado em verdade racional; que o que importa não é ter certeza, mas a busca da certeza.

Por fim, no século 19, a crítica bíblica teve maior aceitação e difusão, devido a vários fatores, entre eles, o “espírito da época”. E, nesta mesma época, o liberalismo teológico se propagou, tendo como seu território a prática da crítica bíblica.


Tipologia de análises críticas


Segue-se um breve resumo dos tipos de análises críticas:


Crítica textual


Faz a seguinte pergunta: “Quais palavras estavam no texto original?”. Seu objetivo, com isso, é restaurar ao texto a sua forma canônica original. Também, é chamada de “baixa crítica”.

É necessário distinguir a tarefa da crítica textual daquela da crítica literária, ou seja, da “alta crítica”.

“A crítica textual procura estabelecer a expressão original dos livros bíblicos em sua fase conclusiva, enquanto a crítica literária tenta determinar sua história pré-literária até a forma que hoje conhecemos” (WOLFF, 1978, p. 69).


A baixa crítica

Também chamada de crítica textual ou crítica inferior, denomina-se “baixa” para se contrastar com a “alta” e não por ser inferior. Enquadra-se na crítica que visa a natureza verbal e histórica sobre os vocábulos do texto. Com isso, a baixa crítica busca restaurar o texto original, comparando-o com os textos existentes. Seu foco principal é com os manuscritos e com a transmissão textual, tendo como objetivo recuperar a redação original do texto, localizando todas as variantes possíveis.

Esta reconstrução do texto bíblico pode ser interna (literária) ou externa (histórica). A crítica textual também tem a finalidade de determinar a história da transmissão e do desenvolvimento do texto que temos hoje.

O papel tanto da “baixa” quanto da “alta” crítica é fazer perguntas, é questionar. A diferença de uma para outra está, principalmente, no tipo de pergunta que é feita ao texto e na intenção ao se perguntar. Em geral, o trabalho desses críticos é construtivo e sua atitude básica, positiva.


Crítica literária


Faz a seguinte pergunta ao texto: “Quais são as circunstâncias da literatura?”. Autor, data, lugar, ouvintes, fontes, propósito. Trata-se, assim, de uma “crítica da constituição do texto”. A crítica literária foi possível graças ao estímulo do humanismo e sua aplicação ao texto bíblico no tempo da Reforma, mas sua maturidade se deu no Iluminismo. A crítica literária engloba a crítica das fontes e da redação, incluindo, assim, análise da língua, estilo e vocabulário.

A crítica literária é, também, conhecida por “alta crítica”. O objetivo do seu trabalho é descobrir e destacar as fontes, reconhecer e separar as elaborações, classificar os estratos pela sua antiguidade e sucessão. Visa, ainda, compreender o modo e os motivos de seu entrelaçamento com a obra literária em questão.

Finalmente, procura determinar, no decurso da história cultural do Antigo Testamento, o lugar certo de cada trecho e de suas coleções (SHREINER, 2004, p. 62).


A alta crítica

Quando se aplica o julgamento dos estudiosos à autenticidade do texto bíblico, esse julgamento se chama “alta crítica”. O assunto desse tipo de julgamento dos especialistas diz respeito à data do texto, ao seu estilo literário, à sua estrutura, sua historicidade, à sua autoria, aos problemas linguísticos e à unidade literária. Entre outros.

Segundo Strong, assim como a baixa crítica, a alta é, também, uma crítica de estrutura. Um ilustre francês descreveu a crítica literária como alguém que destrói uma boneca para obter a serragem que está dentro dela. Isso pode ser feito com espírito cético ou hostil, e pode haver pouca dúvida de que algumas das mais elevadas críticas do Antigo Testamento tenham dado início aos seus estudos com predisposição contra o sobrenatural, o que tem viciado suas conclusões (2002, p. 256).

Essa forma de crítica e seus resultados não prestam benefícios ao estudo bíblico, mas a alta crítica, em sua forma como acabamos de descrevê-la, além de ser comparada a alguém que destrói uma boneca por uma “cirurgia crítica” para obter a serragem que está dentro dela, pode-se dizer, também, que ela deixa a boneca toda aberta, não voltando a fechá-la. Assim, esse papel de “desentranhar” o texto bíblico de forma crítica deve ter suas precauções.

C. S. Lewis, sem dúvida o apologista cristão mais influente do século XX, em seu artigo “A teologia moderna e a crítica da Bíblia”, tece alguns comentários que transcrevemos a seguir:

“Em primeiro lugar, o que quer que esses homens possam ser como críticos da Bíblia, desconfio deles como críticos. Se tal homem chega e diz que alguma coisa, em um dos evangelhos, é lendária ou romântica, então, quero saber quantas lendas e romances ele já leu, o quanto está desenvolvido o seu gosto literário para poder detectar lendas e romances, e não quantos anos ele já passou estudando aquele evangelho. Esses homens ainda me pedem que eu acredite que eles podem ler as entrelinhas dos textos antigos; mas, todas as evidências me levam a perceber a sua óbvia incapacidade de lerem (em qualquer sentido digno de discussão) as próprias linhas. Afirmam que podem ver coisinhas minúsculas, mas não podem ver um elefante a dez metros de distância, em plena luz do dia” (1997, p. 522).


Crítica das fontes


Faz a seguinte pergunta: “Quais são as fontes por trás do texto atual?”. Desde o século 15, essa pergunta vem, esporadicamente, sendo utilizada. Todavia, foi a partir do século 19 que passou a ser utilizada sistematicamente. Entre os seus objetivos, encontram-se: verificar se determinado texto provém de um só autor ou se é material compósito. Ao detectar as fontes, mediante diferenças de estilo, procura-se reconstituí-las à sua forma original, analisando uma a uma. O fator teológico também é usado para distinguir uma fonte da outra.


Crítica linguística


Faz a seguinte pergunta ao texto: “O que as palavras e frases significam?”. Há a necessidade de se recorrer à chamada crítica lingüística, a fim de que se possa recuperar o significado de determinada lexia no recorte sincrônico em que se pretende estudá-la. A crítica linguística, quando aplicada à Bíblia, consiste em estudar as línguas bíblicas em seu escopo mais amplo, de modo que o vocabulário, a gramática e o estilo dos escritos bíblicos possam ser compreendidos da maneira mais precisa, não apenas pela comparação com outros escritos bíblicos, mas, também, com outros escritos na mesma língua ou em línguas afins.


Crítica da forma


Faz as seguintes perguntas ao texto: “Qual é o gênero literário, oral ou escrito, de cada parte? O que fez surgir esse gênero?”.

“A identificação do ambiente vital consiste em buscar o tipo de situação ou experiência que deu origem a um gênero literário particular ou que motivou sua utilização” (MAINVILLE, 1999, p. 92). Entre seus objetivos, o mais importante é buscar conhecer o quadro cultural do qual provém o texto, para, com isso, buscar compreender o sentido e o propósito do texto.

Segundo Alt (apud SCHMIDT, 1994, p. 61-2), a crítica da forma, ou história das formas, se baseia “na percepção de que, em cada gênero literário, enquanto este tiver vida própria, determinados conteúdos se vinculam estreitamente a determinadas formas de expressão e na percepção de que esses vínculos característicos não foram sobrepostos ao material, posteriormente e de modo arbitrário, pelos autores. Pelo contrário. Constituíam uma unidade essencial desde sempre, portanto, também, já no período de formação e transmissão oral popular, antes que se tornassem literatura, visto que correspondiam aos eventos e necessidades vitais recorrentes, a partir dos quais cada um dos gêneros literários se desenvolveu.


Crítica histórica


Faz a seguinte pergunta ao texto: “Qual é o contexto histórico que gerou essa obra literária?”. Seu objetivo é reconstruir o contexto do texto bíblico. O crítico histórico busca reconstruir o que “verdadeiramente” aconteceu em determinada narrativa. Alguns críticos, utilizam esse método crítico para dar uma explicação natural a algumas passagens bíblicas.


Crítica da redação


Faz as seguintes perguntas ao texto: “Como e para que finalidade a obra literária foi compilada? Qual é a relação entre a historicidade do primeiro relato escrito e o texto oral? Qual é a cronologia das intervenções redacionais e do que se utilizaram?”.

“Geralmente, o crítico redacional trabalha com as fontes identificadas pelo crítico das fontes [...] o sucesso do método depende da integridade do trabalho com as fontes” (HILL, 2006, p. 640).

A crítica da redação valoriza a forma final do texto e o redator passa a ter função de autor e teólogo. Cabe à crítica da redação, ainda, analisar o texto desde a sua forma inicial até a sua forma final, observando cada etapa do desenvolvimento textual.


Crítica da tradição


Faz as seguintes perguntas ao texto: “Quais são os estágios pelos quais a peça literária passou e se desenvolveu? Quais são ‘os livros’ que o autor leu para influenciar sua mensagem? Quais são as tradições culturais que os autores receberam, tanto bíblicas como da cultura do Antigo Oriente? A tradição identificada faz parte de um conjunto de tradições? O autor do texto modifica a tradição ou a corrige?”.

Este método crítico tem seu maior interesse na pré-história do texto que, possivelmente, estava na forma oral, até o momento em que foi registrado em forma escrita. Entre suas contribuições para a crítica, demonstrou a antiguidade e importância das tradições da fé em Israel.


Crítica canônica


Faz a seguinte pergunta ao texto: “Qual é a função que a forma final da literatura canônica teve na comunidade religiosa?”. O interesse principal da crítica canônica está no texto final, no seu estado acabado, e seus defensores estão interessados em saber como o texto foi desenvolvido e interpretado. Esse método considera o cânon todo como contexto para análise.


Tipos de crítica - Perguntas norteadoras


Crítica textual - Quais palavras estavam no texto original?

Crítica literária - Quais são as circunstâncias da literatura?

Crítica das fontes - Quais são as fontes por trás do texto atual?

Crítica linguística - O que as palavras e frases significam?

Crítica da forma - Qual é o gênero literário, oral ou escrito, de cada parte? O que fez surgir esse gênero?

Crítica histórica - Qual é o contexto histórico que gerou essa obra literária?

Crítica da redação - Qual é a relação entre a historicidade do primeiro relato escrito e o texto oral? Qual é a cronologia das intervenções redacionais e do que se utilizaram?

Crítica da tradição - Quais são os estágios pelos quais a peça literária passou e se desenvolveu? Quais foram as tradições culturais que os autores receberam? O autor do texto modifica a tradição ou a corrige?

Crítica canônica - Qual função que a forma final da literatura canônica teve entre a da comunidade religiosa?


O método histórico-crítico


Quando se fala de “método histórico-crítico” ou “historicismo”, vale salientar que não se trata de um método, mas de vários métodos de análises textuais. Esse método de análise de texto surgiu em função do desenvolvimento da ciência e cultura da época, e buscou tornar os estudos bíblicos ajustados com o campo acadêmico em vigor, buscando explicar personagens e acontecimentos dos quais não temos uma correspondência direta. Para isso, utiliza-se das ferramentas da história, da literatura, da arqueologia, da religião e da teologia. Ao surgir juntamente com o Iluminismo, adotou pressupostos racionalistas que culminaram no abandono do aspecto divino e sobrenatural das Escrituras.

Podemos encontrar raízes do método histórico-crítico no final do século 17. Seu desenvolvimento se deu no Iluminismo e no deísmo nos séculos 18 e 19, e perdeu suas forças no final do século XX. Isso não significa que ele foi extinto. “Uma boa parte dos supostos resultados ‘infalíveis’ desse método continua, ainda hoje, a influenciar os estudos acadêmicos da Bíblia, como fatos provados, em vez do que são na realidade: meras hipóteses” (LOPES, 2004, p. 189).

Kaiser (2002, p. 30) teceu considerações a esse respeito:

“Este modelo enfatiza sua lealdade mais a teorias contemporâneas sobre a formação de textos e a supostas fontes orientais e clássicas que estão por trás delas do que a uma consideração daquilo que o texto, tanto em suas partes quanto em sua totalidade, tinha a dizer”.

Devemos ter a precaução de não jogar a “água da bacia com a criança junto”, pois a crítica, aplicada de maneira consciente, orienta o estudioso a obter uma compreensão mais exata da Bíblia, e o auxilia a encontrar o sentido literal dos textos e a intenção original do autor. Embora, muitas vezes, o método histórico-crítico alegue ser o único método capaz de interpretar a Bíblia corretamente, ele acaba caindo no mesmo erro do dogmatismo hermenêutico, o qual tanto censura. O pesquisador deve ter sempre em mente que este método deve ser empregado como um meio e não como um fim em si mesmo.

Devemos nos precaver dos resultados que esse método tem causado, conforme Gerhard Maier (apud, FEE, 1997, p.262) expôs em sua obra O fim do método histórico-crítico: “Não importa quão certo seja para o método histórico continuar sendo a melhor maneira de aprender realidades históricas [...] Não obstante, não deveríamos tentar ocultar as consequências negativas da crítica radical protestante no que refere à Bíblia, e encobrir este fato, ou fazê-lo parecer inofensivo [...] A crítica bíblica, por duzentos anos, tem provado ser um fardo intolerável às congregações e não só na Alemanha [...] Hoje, como no passado, ela continua jogando um balde de água fria no entusiasmo missionário dos jovens estudantes de teologia”.

Esse método não deve deixar de ser crítico para com os seus próprios instrumentos. Gottwald (1988, p. 33), ao escrever sobre os limites do método histórico-crítico, comparou-o com os métodos confessionais. Vejamos:

“Exatamente como a aproximação religiosa confessional mais antiga perdeu poder explicativo quando deu respostas dogmáticas a perguntas históricas, assim o método histórico-crítico revelou seus limites quando pôde só responder adequadamente a algumas perguntas históricas e quando se percebeu que novas perguntas a respeito da forma literária da Bíblia e do ambiente social do antigo Israel se achavam além da sua competência”.

Childs (apud, HASEL, 1992, p. 97) considera o método histórico-crítico impróprio para se estudar a Bíblia. Vejamos:

“O método histórico-crítico é impróprio para se estudar a Bíblia como as Escrituras da Igreja, porque não parte do contexto exigido [...] Quando encaradas no contexto do cânon, as questões de que o texto denotava e o que denota ficam inseparavelmente ligadas e são objeto da interpretação como Escritura. Na medida em que o emprego do método crítico ergue uma cortina de ferro entre o passado e o presente, ele é impróprio para se estudar a Bíblia como Escritura da Igreja”.

No Brasil, o método histórico-crítico tem-se mostrado favorável em alguns seminários e meios acadêmicos. O grande desafio é saber usar as ferramentas proporcionadas pelo método, desvinculando-as de seus pressupostos que, muitas vezes, são contrários a uma postura teológica bíblica.

Com isso, conforme Lopes (2004, p. 242) ao analisar sobre o fato de se usar ou não esse método, ele responde: “A nossa resposta a essa questão é um ‘sim’ cauteloso”.


“Não devemos nos esquecer de que não pode haver uma boa teologia sem ‘crítica’ nem uma boa ‘crítica’ sem teologia”


“Devo concordar com as Escrituras canônicas sem desacordo” (Agostinho)


Referências bibliográficas:

ARMSTRONG, Karen. A Bíblia uma biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

BRUGGER, Walter. Dicionário de filosofia. São Paulo: Herder, 1962.

CHAMPLIN, Russel Norman Champlin. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. 6a ed. São Paulo : Hagnos, 2002.

COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Raízes da teologia contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês?. 2a ed. São Paulo: Vida Nova, 1997.

GEISLER, Norman L. Enciclopédia de apologética: respostas aos críticos da fé cristã. São Paulo: Vida, 2002.

________ (Org). A inerrância da Bíblia. São Paulo: Vida, 2003.

GOTTWALD, Norman. K. Introdução socioliterária à Bíblia hebraica. 2a ed. São Paulo: Paulus, 1988.

HASEL, Gerhard F. Teologia do Antigo Testamento: questões fundamentais no debate atual. 2a ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1992.

HILL, Andrew E; WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2006.

KAISER, Walter.; MOISÉS, Silva. Introdução à hermenêutica bíblica: como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

KERR, Guilherme. Alta crítica, avanços e recuos. 2a ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1956.

KNIERIM, Rolf P. A interpretação do Antigo Testamento. São Bernardo do Campo: EDITEO, 1990.

LOPES, Augustus Nicodemos. A Bíblia e seus Intérpretes – uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

MAINVILLE, Odette. A Bíblia à luz da história, um guia de exegese histórico-crítica. São Paulo: Paulinas, 1999.

MCDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredito. São Paulo: Candeia, 1997. (v. 1,2).

SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. 3a ed. São Leopoldo: Sinodal, 1994.

SHREINER. J. Palavra e mensagem do Antigo Testamento. 2a ed. São Paulo: Teológica, 2004.

STEINMANN, Jean. A crítica em face da Bíblia. São Paulo: Flamboyant, 1960.

STRONG, Augustus H. Teologia sistemática. São Paulo: Teológica, 2002. (v. 1).

TORREY, R. A. (ed.), Os fundamentos: A famosa coletânea de textos das verdades bíblicas fundamentais. São Paulo: Hagnos, 2005.

WOLFF, H. W. Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo. São Paulo: Paulinas, 1978.

Curso Teologia Online Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Básico de Teologia Série Apologética Curso Médio de Teologia Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Bacharel de Teologia Série Apologética

ICP - Instituto Cristão de Pesquisas © Todos os direitos reservados. 2017