Defesa da Fé


A teologia relativista da nossa geração


Por Augustus Nicodemus Lopes

Mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em interpretação bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA)


Temos sempre nos deparado com pastores e teólogos que acreditam que teologia boa é só aquela que está sendo feita agora. Recentemente, encontramos mais um desses. Chamou-nos de fundamentalista porque acreditamos que existe teologia certa e teologia errada, e porque incluímos na primeira categoria os antigos credos cristãos e as confissões reformadas. Ensinou-nos com aquela pachorra típica de quem é iluminado e se depara com um pobre fundamentalista obscurantista e tapado, que “a teologia é apenas um construto humano, limitado, provisório, subjetivo, que tem de ser feito por essa geração, pois não atende mais às necessidades da próxima”.

Era óbvio que estávamos diante, mais uma vez, daquela cena hilária em que o relativista declara, com toda autoridade e convicção, que “não existe verdade absoluta, tudo é relativo”. Mas, vamos supor, ainda que por um momento, que esses teólogos (nem sabemos em que categoria enquadrá-los, pois nem liberais são, já que os liberais de verdade acreditavam em certo e errado) estejam certos. Vamos supor que cada geração entende Deus, a Bíblia e as grandes verdades do cristianismo de uma maneira totalmente diferente de outra geração e de pessoas de outra cultura, a ponto de não podermos adotar as suas reflexões teológicas como verdadeiras e válidas para a nossa geração. Se levada às últimas consequências, essa perspectiva sobre a teologia criaria uma série de problemas, inclusive para os que a defendem.


Primeira dificuldade


Vamos começar pelo fato de que cada nova geração teria de definir, de novo, o que é o cristianismo. Explico. O cristianismo, como religião, foi definido, e os seus limites estabelecidos, durante os primeiros séculos depois de Cristo, quando os primeiros cristãos foram confrontados com explicações diferentes, contraditórias e alternativas da mensagem de Jesus e dos apóstolos, como o montanismo, as ideias de Marcião, os gnósticos, os docetistas e os ebionitas, para mencionar alguns.

Os grandes credos ecumênicos da cristandade, estabelecidos nas gerações posteriores, nos deram, de forma sintetizada, a doutrina de Cristo, da Trindade, entre outras, as quais o cristianismo histórico adota até hoje. Para que pudéssemos seguir o que esse pastor estava nos dizendo, teríamos de jogar tudo isso fora e recomeçar, refazer, redefinir o cristianismo a partir da nossa própria situação.


Segunda dificuldade


Na verdade, essa perspectiva acaba pegando mal para os seus próprios defensores. Perguntamos: o que eles têm descoberto e oferecido mais recentemente, que seja novo, sobre o ser e as obras de Deus, da pessoa de Cristo e de sua morte e ressurreição? Quando não caem nas antigas heresias, repetem simplesmente o que já foi dito por outros em tempos passados. A “nova perspectiva sobre Paulo” não deixa de ser uma antiga perspectiva sobre o judaísmo. A nova “busca do Jesus histórico” não tem conseguido oferecer nenhuma reconstrução do Jesus da história que esteja em harmonia com o quadro que temos dele nos evangelhos. A teologia relacional não consegue ir adiante do Deus sociniano, que também desconhecia o futuro. Percebamos, então, que tais teólogos não têm contribuído efetivamente com a sua própria geração.


Teologia socianista


O socianismo ou socinianismo é um sumário das crenças dos socinianos, seguidores de Fausto Socino (falecido na Polônia, em 1604), que desenvolveu sua teologia inspirada em seu tio, Lélio Socino (morto em 1562, em Zurique). A doutrina sociniana é antitrinitária e considera que, em Deus, há uma única pessoa, e que Jesus de Nazaré é um homem. Os socinianos se estabeleceram, principalmente, na Transilvânia, na Polônia e nos Países Baixos. Suas crenças, resumidas no Catecismo Racoviano, são:


A Bíblia era a única autoridade, mas tem de ser interpretada pela razão

Rejeição aos mistérios divinos.

Ênfase na unidade, eternidade, onipotência, justiça e sabedoria de Deus.

A razão é capaz de compreender Deus para a salvação humana, mas sua imensidão, onipresença e ser infinito são além da compreensão humana, portanto, desnecessárias à salvação.

Rejeição à doutrina do pecado original.

Celebração do batismo e da santa ceia como símbolos memorativos, sem serem eficazes meios da graça.


Terceira dificuldade


Essa perspectiva acaba, realmente, com a distinção entre a teologia certa e a teologia errada e anistia todas as heresias já surgidas na história da Igreja. Vamos tomar, por exemplo, a área da soteriologia, que trata da questão da salvação do homem. A doutrina de que o homem é justificado pela fé somente, sem as obras ou méritos humanos, foi estabelecida cedo na Igreja cristã e reafirmada na Reforma Protestante. Depois de tantos séculos, os nossos teólogos progressistas têm algo de novo para nos dizer sobre esse ponto? Os que tentaram, caíram nas antigas heresias soteriológicas já discutidas e refutadas, ad nauseam (“até enjoar”, “sem parar”), pelos pais da Igreja e, também, pelos reformadores.


Uma teologia agnóstica


Caro leitor, não nos entenda mal, mas também acreditamos que a teologia é um construto humano e, como tal, imperfeito, incompleto e, certamente, relativo. Estamos longe de adotar, para com a teologia reformada, uma postura similar àquela que considera a tradição aristotélica-tomista como filosofia e/ou teologia “perene”. Também, consideramos que a teologia é fruto da reflexão humana e, portanto, sempre sujeita às vulnerabilidades da nossa natureza humana decaída. Mas, não a ponto de não poder refletir, com uma medida de veracidade e fidelidade, a revelação de Deus nas Escrituras. O problema com essa postura relativista é que ela desistiu completamente da verdade. É agnóstica. Acreditamos que a teologia, se feita “levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5), se for fiel à revelação bíblica, produzirá sínteses confiáveis que podem servir de referencial para as igrejas de todas as gerações, conforme, aliás, as confissões reformadas, elaboradas nos séculos 16 e 17, vêm fazendo há alguns séculos.

Mas, os teólogos relativistas acreditam em quê? Em tudo e, portanto, em nada. Tentam manter todo fluido, em permanente devir, sempre abertos a todas as possibilidades. Mas, neste caso, não teriam que, forçados pela própria lógica, aceitar também a teologia conservadora como uma teologia legítima? Mas, é aqui que a lógica relativista se quebra. Pois, para eles, todas as opiniões estão corretas — menos aquela dos conservadores.

Um amigo nosso, que é teólogo, nos disse, outro dia, numa conversa: “A verdade é absoluta, mas minha percepção dela é sempre relativa”. Até hoje, estou intrigado com essa declaração. Nós o conhecemos o suficiente para saber que ele não é relativista. Somos obrigados a reconhecer, por força do conhecimento da nossa própria limitação e subjetividade, que ele está certo quanto à relatividade da nossa percepção teológica. Mas, por outro lado, relutamos em aceitar as consequências plenas dessa declaração.

Primeiro, como podemos falar de verdade absoluta se sempre temos uma percepção relativa dela? Se existe verdade absoluta, não seria teoricamente possível conhecê-la como tal?

Segundo, porque, embora pareça humildade, admitir o caráter sempre relativo da nossa percepção implica em admitir que ninguém tem a verdade, o que acaba com a possibilidade do certo e do errado, do verdadeiro e do falso como conceitos públicos, transformando cada indivíduo, ao final, no referencial último dessas coisas. Será que não poderíamos dizer que nós, mesmo enviesados por nossos pressupostos e preconceitos (horizontes), ainda somos capazes, em virtude da nossa humanidade básica compartilhada com as pessoas de todas as épocas (para não mencionar a graça comum e a ação do Espírito Santo) de perceber a verdade da mesma forma que outras pessoas a perceberam em outros tempos e em outros lugares?

Aqui, as palavras de Anthony Thiselton são pertinentes: “O que será da ética cristã se adotarmos uma perspectiva relativista da natureza humana? Se a experiência da dor, do sofrimento e da cura no mundo antigo não tem qualquer continuidade com qualquer conceito moderno, o que poderemos dizer sobre o amor, o autossacrifício, a santidade, a fé, o pecado e a rebelião? Ninguém, em um departamento de línguas clássicas, literatura ou filosofia de uma universidade, aceitaria as implicações de um relativismo tão radical. Nada poderíamos aprender sobre a vida, o pensamento, ou a ética dos escritores que viveram em culturas antigas. Com certeza, nenhum estudioso, se pressionado com essas implicações, defenderia, até o fim, esse tipo de relativismo”.


Considerações finais


Para encerrar, desejamos mencionar que essa visão, se levada às últimas consequências, acaba nos privando da Bíblia. Vejamos. Quem defende essa visão (há exceções, sabemos) geralmente tem dificuldades em aceitar que as Escrituras do Antigo Testamento e do Novo Testamento foram dadas por inspiração divina; portanto, são infalíveis. Nessa lógica, as Escrituras são apenas a reflexão teológica de Israel e da Igreja cristã primitiva. Consideremos as cartas de Paulo. Elas são a teologia do apóstolo, resultado da aplicação que ele fazia das boas-novas às situações novas das igrejas nascentes no mundo helênico.

Para ser coerente, quem defende que toda teologia é relativa, imperfeita e subjetiva, sendo válida somente nos limites da cultura e geração em que foi produzida, não poderia aceitar para hoje a teologia de Paulo, de Pedro, de João, de Isaías. Teria de rejeitar as Escrituras como um todo, pois, elas são a teologia de Israel e da Igreja, elaboradas em uma época e cultura completamente diferentes da nossa época e cultura.

Para dizer a verdade, há quem faça isso mesmo. Os antigos liberais faziam. Para eles, a Bíblia nada mais era do que a teologia (ultrapassada) dos seus autores. O cristianismo se reduzia a valores éticos e morais, que eram as únicas coisas permanentes neste mundo. Admiramos e respeitamos os antigos liberais (em certo sentido). Os de hoje, contudo, precisariam assumir o discurso relativista e levá-lo às últimas consequências. Pode ser que não conseguiriam absolutamente nada com isso, como julgamos que não vão conseguir. Mas, pelo menos, teriam o nosso respeito para um início de conversa.


“Como podemos falar de verdade absoluta se sempre temos uma percepção relativa dela?”


“Quem defende que toda teologia é relativa e, por isso, válida somente nos limites da cultura e geração em que foi produzida, não poderia aceitar para hoje a teologia de Paulo, de Pedro, de João, de Isaías”


1 THISELTON, Anthony C., The Two Horizons: New Testament Hermeneutics and Philosophical Description (Grand Rapids: Eerdmans, 1980).

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