Defesa da Fé


Relativismo totalitário


Por Eguinaldo Hélio de Souza

Membro da agência missionária Missão Antioquia, onde atua como docente e deão do Seminário Teológico e capelão do Colégio Vale da Bênção


Precisamos entender um pouco a nossa civilização, que um dia foi chamada de cristã, mas, dia após dia, torna-se um pouco mais anticristã.

Primeiro, veio a liberdade de pensamento, de expressão, de religião. Cada um podia pensar o que quisesse, dizer o que bem entendesse e crer em qualquer coisa. E, assim nosso mundo tornou-se um multiverso (em oposição ao universo), com centenas de ideias e crenças diferentes e distintas. Nenhum problema. Até aqui, tudo bem.

De repente, alguém disse que o pensamento e as crenças do outro estavam errados e que suas palavras também estavam erradas. Então, surgiram alguns e começaram a dizer que nada estava errado porque tudo era relativo. Não havia preto ou branco. Só cinza. Os conceitos de bem ou mal dependiam das ideias de cada um. Também, não havia qualquer certeza em religião alguma. Todas estavam certas.

Parecia uma boa saída para que religiões e opiniões diferentes pudessem caminhar juntas sem se chocarem. Todo mundo estava certo, não havia verdades absolutas para serem defendidas. Sem perceber, essa filosofia, chamada relativismo, matou a verdade onde quer que ela se encontrasse. O relativismo passou a reinar soberano. Entretanto, o relativismo não passa de uma ilusão, e é sobre isso que pretendemos discorrer.


Etimologia


“Relativo, do latim relativu, quer dizer, precisamente, o que indica relação, ou seja, algo que se julga por comparação. Assim, não pode existir lógica na expressão ‘tudo é relativo’ (nem Einstein jamais disse ou insinuou uma estultice desta ordem), por uma simples razão: para algo ser relativo tem de existir o ponto de comparação, ao qual, tomado como padrão, podemos afirmar: isto é assim em relação àquilo. Mas, simplesmente tudo é relativo não faz sentido, pois tudo é relativo em relação a quê? Assim, observamos que os que usam tal artifício falacioso estão tentando, na verdade, fugir do problema da comparação. Ou, pior ainda, do problema de uma escala de valores. Em última análise, ao que é bom ou ao que é mau. Dessa forma, a questão é muito profunda e de ordem filosófica”.

A verdade é absoluta por sua própria natureza. É como a esfericidade do globo ou a redondeza do círculo. Se tirarmos o absoluto da verdade não existe mais nada. Toda verdade é exclusivista. Se algo é branco, então, não é preto, azul ou amarelo. Não é de qualquer outra cor. É branco e pronto.

O cristianismo se sustenta sobre a verdade absoluta. Suas afirmações são definitivas. Jesus é a Verdade com “V” maiúsculo e não uma verdade entre tantas verdades que temos por aí. Só em Jesus há salvação e em nenhum outro (At 4.12). A Bíblia é a Palavra de Deus, onde a estrutura da realidade é devidamente representada e suas normas morais são indiscutíveis e definitivas. Os mandamentos de Deus são o fundamento absoluto do certo e do errado.

Com o relativismo, a nossa sociedade pluralista foi-se tornando cada dia menos cristã e, agora, está-se tornando cada dia mais anticristã. Os valores morais e espirituais do cristianismo, por serem absolutos, vão sendo sufocados por políticas estatais que não se ajustam a tal relativismo. Pelo menos em três áreas isso é visível. A saber:


Relativismo moral


“Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal! Que fazem das trevas luz, e da luz, trevas, e fazem do amargo doce, e do doce, amargo!” (Is 5.20).

O certo e o errado não possuem mais um padrão absoluto. Antes, até poderia ser estabelecido pela maioria, mas, agora, as minorias também podem impor suas normas morais por meio de ações políticas. Basta lembrar do gayzismo, esse movimento que está tentando transformar uma prática sexual condenada universalmente no mundo e na história em uma casta privilegiada que não pode ser criticada de forma alguma. Uma ação que um dia foi crime hoje criminaliza quem a condena.

O mesmo podemos dizer da bruxaria. Outrora, definia práticas demoníacas e condenáveis. Hoje, seus praticantes a ensinam para crianças e adolescentes até com certo glamour. Porque a linha que separa o certo do errado foi perdida, então, o diabólico passou a ser aceito ao lado do divino, como se ambos tivessem o mesmo valor. Não há mais parapeitos nos abismos espirituais, não há limitações para as atividades religiosas e, por isso, muitos estão se precipitando em uma queda sem fim.


Relativismo cultural


“Quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá, não procurem imitar as coisas repugnantes que as nações de lá praticam [...] O Senhor tem repugnância por quem pratica essas coisas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, o seu Deus, vai expulsar aquelas nações da presença de vocês (Dt 18.9,12).

As culturas foram sacralizadas, isto é, tudo nelas se tornou intocável. Quando o cristianismo começou a singrar os mares, o canibalismo, o infanticídio e a queima de viúvas sobre os túmulos dos maridos foram abolidos. Entendia-se que aqueles elementos eram errados porque eram condenados pela revelação divina em sua Palavra.

Se fosse hoje, os europeus seriam criticados e criminalizados por se escandalizarem com os sacrifícios humanos dos astecas, por exemplo. Os antropólogos condenam qualquer atividade missionária, pois, segundo eles, isso altera a cultura indígena. O infanticídio, comum entre certas tribos, não pode ser proibido porque é “cultural”. Dessa forma, o crime não é mais matar uma criança inocente e indefesa. O crime maior seria abolir esse ato, porque isso mudaria uma cultura.

Todo mal se envolve, de certa forma, com questões culturais. E nem todos os aspectos de uma cultura são aprovados por Deus. Mas, como dizer que determinada tradição cultural é má se a própria noção de mal foi relativizada? Os livros de história e as ciências humanas não são mais capazes de enxergar a boa herança do cristianismo. Apenas o criminalizam como destruidor cultural.


Relativismo religioso


“Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus pelos israelitas é que eles sejam salvos. Posso testemunhar que eles têm zelo por Deus, mas o seu zelo não se baseia no conhecimento” (Rm 10.1,2).

Absolutamente, só H2O forma a água. Dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Nada diferente disso será água, pelo menos não como a conhecemos naturalmente. A realidade tem uma estrutura absoluta.

Mas, no trato com as coisas espirituais o relativismo quer igualar tudo. Tanto faz se uma religião prega o amor ao próximo e o sacrifício em favor dos outros, como faz o cristianismo, ou se fura um boneco para destruir a vida do inimigo, como faz o Vodu. Todas as religiões têm o mesmo valor. Na Inglaterra, um presidiário ganhou o direito de praticar o satanismo na cadeia. É a liberdade religiosa.

Qualquer crítica que o cristianismo faça às outras religiões começa a ser considerada ofensa grave. Em alguns lugares dos EUA, já não se pode falar “Feliz Natal” para não ofender adeptos de outras religiões. Em certos países, pregar o evangelho é proselitismo e considerado ilegal. E não estamos falando de países muçulmanos, mas daqueles que um dia foram chamados de cristãos.

Enquanto muçulmanos impregnam todo o seu ambiente com os valores e a cosmovisão islâmica, países outrora cristãos expulsam de seu seio toda referência ao cristianismo. Não admira que a Europa esteja se islamizando na medida em que é “descristianizada”. O espírito humano não permite o vácuo. No fundo, o secularismo adorará outro deus, seja ele Allah ou os espíritos da Nova Era.

Os absolutos do cristianismo estão-se chocando com o relativismo secular. E o secularismo é a filosofia oficial das nações ocidentais. Isso significa que cada vez mais o cristianismo será tolhido pelas políticas estatais. Leis anticristãs tornar-se-ão cada vez mais influentes. Essa é a nossa situação. Ainda que este mundo não seja mesmo o nosso lugar, contudo, é a terra de nossa peregrinação, e não podemos nos calar diante da ditadura do relativismo.

Urge uma resposta nossa. E essa resposta depende da nossa visão de cristianismo e de mundo. Deus nos ajude a tomarmos as atitudes certas.


“O cristianismo está sendo discriminado por condenar práticas imorais ao demonstrar que existem o certo e o errado”


“Os cristianismo está, aos poucos, sendo marginalizado no meio acadêmico por colocar Deus acima da cultura”


“O cristianismo está sendo condenado por se declarar o único caminho capaz de ligar o homem a Deus”


i SAMPAIO. Fernando G. Tudo é relativo: uma falácia. São Paulo: ESGE, p.1, s/d.

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