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Defesa da Fé


O crescimento da classe média brasileira e o impacto sobre as igrejas evangélicas


Por Rubens Muzio

Mestre em teologia pastoral pelo Calvin Thelogical Seminary e doutor em teologia pastoral pelo Westminster Theological Seminary


O crescimento contínuo da economia brasileira, aliada a uma estabilidade nunca antes experimentada, fez surgir um novo conceito de classe média. A classe “C” é a classe média, acima das classes “D” e “E” e abaixo das classes “A” e “B”. E possui casa própria, carro, computador, crédito, carteira assinada, viaja de avião e até mesmo faz cruzeiros marítimos, coisas inimagináveis alguns anos atrás.

A renda familiar mensal calculada para essa faixa da população está entre R$ 1.064,00 e R$ 4.561,00. Isso pode parecer pouco numa cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro, cujos aluguéis ultrapassam facilmente a casa dos quatro dígitos. Contudo, a renda média brasileira é alta em relação a muitos países, onde 80% da população vive em níveis de renda per capita menor que a brasileira.

A Fundação Getúlio Vargas realizou, em 2008, um grande estudo sobre a nova classe média brasileira baseado no PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE. Esse estudo acurado também serviu para abrir os olhos para a enorme diminuição da miserabilidade no Brasil, explicando, ainda, algumas das razões que levaram a ONU (Organização das Nações Unidas) a incluir o Brasil entre os países com alto índice de desenvolvimento humano (IDH).

Mas, o que isso tem a ver com a família evangélica brasileira? A família evangélica brasileira é mais rica, mais urbana e mais consumista. Amamos o mundo do tênis Nike, dos perfumes do Boticário, dos sorvetes Haagen-Dazs, das lojas elegantes dos Shoppings, dos jeans GAP, dos tapetes persas, do Audi e da Ferrari, da Disney, do Spa, das férias na praia, do cruzeiro marítimo, da iminência da Copa do Mundo de 2014 e assim por diante.

Tal qual uma boa parte da sociedade brasileira, nos aprisionamos num labirinto frenético de eventos e encontros, festas e conferências, entretenimento e muita comida. Testados pelo congestionamento urbano crescente, ansiosamente forçados a calcular a agenda, tempo e distância em relação a minutos e segundos, guiados por laptops, controlados por GPS, Ipods, Ipads e todo tipo de parafernália eletrônica, buscamos nossos próprios projetos pessoais e, por conta disso, temos menos tempo para a igreja e mantemos nossas interações humanas superficiais e individualistas.

A nossa concentração é frequentemente interrompida pelo celular tocando, mesmo durante os cultos do domingo, e pelas reuniões sempre urgentes. Bombardeados pelas crises emocionais e sociais, com pouquíssimo tempo para responder às prioridades diárias mais importantes e às pessoas mais próximas de maneira humanizada, levantamos já cansados quando o relógio determina, insensíveis às trágicas manchetes de jornais que parecem próximas e remotas ao mesmo tempo.

Sem tempo para orar a Deus e meditar na Palavra, nos lançamos à atividade, à busca do sucesso, ao consumo e à produtividade, esgotados por inúmeras operações mecânicas e técnicas. Sufocados, apressados, confinados, temos pouco tempo para celebrar a vida, pouco tempo para beijar e abraçar a esposa e tomar café juntos com os amigos. Temos pouco tempo para adquirir sabedoria, pouco tempo para encontrar alegria, pouco tempo para aumentar o vigor espiritual da alma.

Assimilamos prazerosa e entusiasticamente os princípios que regem o estilo de vida do mercado moderno. Diante da competitividade, da busca pela excelência e da felicidade, a família está mais e mais insatisfeita e exigente com a qualidade dos ministérios, pregações e cultos na igreja local. A mentalidade consumista fermenta a igreja. Muitas igrejas e ministérios tornaram-se verdadeiras empresas, repletas de “crentes clientes”, produtoras dos bens religiosos que competem entre si para atrair consumidores em potencial. Muitas delas passaram a disputar a fidelidade dos membros, desenvolvendo estratégias de propaganda e marketing para garantir sua permanência. Querem satisfazer seus desejos oferecendo produtos diferenciados das igrejas vizinhas e específicos às suas necessidades físicas, emocionais, profissionais e espirituais. Dominadas por uma prática de vida autocentrada, egoísta, gerencial e mercadológica, essas igrejas e ministérios estão mais preocupados com a edificação de seus impérios pessoais do que com a expansão do reino de Deus.

A verdade é que a família evangélica brasileira é hoje maior, mais superficial e mais nominalista. O nominalismo já era comum entre os católicos, quando muitos se declaravam assim, mas não praticantes. A própria CNBB reconheceu que o nominalismo católico é um problema sério. Da mesma forma, estão surgindo evangélicos nominais, não praticantes. Deus encontra-se na periferia de suas decisões principais. Eles não vivem regularmente a vida da igreja, mas também não seguem outra religião.

Devido à superficialidade da evangelização e do cristianismo, infelizmente presenciaremos em anos futuros o abandono da fé em massa, tal como ocorreu na América do Norte e na Europa. A Igreja brasileira realizou um excelente trabalho de parteira, de obstetra, mas ainda falta aprofundamento na vida cristã e no discipulado. A porcentagem daqueles que se afirmam “sem-religião” já chega a 10%.

Normalmente, os períodos históricos em que o povo cristão mais se desenvolveu foram também eras de sofrimento, perseguição e dificuldades sociais. Com o crescimento econômico, necessidades mais básicas, como a falta de saúde, bens materiais e doenças, tendem a diminuir. A fé passa a ser a razão existencial para viver e não a solução dos problemas diários. Talvez, o cristianismo leve à prosperidade, mas a prosperidade enfraquece e ameaça o cristianismo.

Com a classe média mais forte, vemos uma aceleração da dualidade entre “vida religiosa” e “vida secular”. Isso se deve principalmente ao que Gerd Theisen chama de função compensatória da religião. (Gerd THEISEN, Sociologia do movimento de Jesus, p. 128). Essa função se mostra na formação de uma imagem contrária da realidade social. Ou seja, qualquer impulso humano gerado pela insatisfação dos níveis político, econômico ou social pode ser desviado para objetos religiosos. Assim, a insatisfação não é externada com revoltas sociais, mas interiorizada com objetos religiosos, como cultos, cursos, orações, músicas, e assim por diante.

Nesse sentido, a igreja local pode funcionar para “descarga e neutralização das tensões sociais”, perdendo sua visão missionária e missão integral. O desafio para a família evangélica brasileira será a transição da transformação espiritual para uma transformação social e cultural. A sociedade muda a partir do momento em que a pessoa muda. As igrejas evangélicas, hoje, têm mais universitários, professores, mestres, doutores, empresários e muitas outras pessoas colocadas em funções sociais estratégicas. As famílias cristãs têm, assim, a oportunidade para causar tremendo impacto na sociedade brasileira com os valores cristãos, como, por exemplo, justiça, retidão e paz, mediante a vocação transformadora de homens e mulheres, filhos e filhas que entendam sua profissão como dádiva divina e façam tudo para a glória do Senhor e expansão do seu reino na terra!


“A verdade é que a família evangélica brasileira é hoje maior, mais superficial e mais nominalista”


“Com a classe média mais forte, vemos uma aceleração da dualidade entre vida religiosa e vida secular”

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