Entrevista



Michael Behe - A caixa preta de Darwin



Por Augustus Nicodemus Lopes
Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Dr. Michael Behe é bioquímico e tornou-se conhecido por defender a existência de complexidades irredutíveis no mundo molecular, as quais jamais poderiam ter se formado por meio do processo defendido pelo darwinismo evolucionista. Behe defende que há um propósito inteligente claramente discernível por detrás da formação das complexas máquinas moleculares que compõem a vida. Ele esteve na Universidade Mackenzie para falar no IV Simpósio Darwinismo Hoje e nos concedeu esta entrevista no programa Academia em Debate, da TV Mackenzie Digital, que disponibilizamos agora para a apreciação dos leitores de Defesa da Fé. Aqui falamos de fé, ciência, ateísmo, evolucionismo e temas afins.

Augustus Nicodemus: O que é de fato a teoria do Design Inteligente e qual o objetivo dela?

Michael Behe: Bem, a teoria do Design Inteligente é apenas a ideia de que muitas partes da natureza são mais bem explicadas como resultado de um design intencional em vez de por meio de leis naturais não guiadas e não inteligentes. Deixe-me dar um exemplo para ilustrar o conceito. Nos EUA temos uma montanha conhecida como monte Rushmore e, neste local, cerca de cinquenta anos atrás, um escultor esculpiu ali os rostos de quatro ex-presidentes dos EUA. Então, pergunto: se você estivesse andando na floresta e se deparasse com o monte Rushmore e mesmo que nunca tivesse ouvido falar dele antes, você facilmente reconheceria que aquela parte da natureza foi resultado de um design inteligente, e a razão pela qual pode perceber isso é porque você vê que todas as partes daquela montanha estão dispostas para retratar as imagens dos presidentes. Pois bem, o design inteligente como ciência é a ideia de que encontramos coisas como o monte Rushmore na célula, na vida e também por todo o universo. Sabemos que as células são controladas por espécies de “máquinas” moleculares. As células são pequenas partículas que constituem todo o nosso corpo, algo que era desconhecido por Darwin e como resultado desse novo conhecimento a teoria do Design Inteligente propõe que devemos reconsiderar nossos pensamentos acerca da origem da vida e propõe que a inteligência estava envolvida nisso.

Augustus Nicodemus: Em sua resposta, várias vezes empregou o termo “inteligente”. Quando você e os demais defensores do Design Inteligente usam esta palavra, o que estão querendo dizer? Seria simplesmente um conceito oposto ao que é aleatório ou àquilo que acontece por acaso?

Michael Behe: Se você voltar ao latim, inteligente significa “fazer uma escolha” e sabemos que seres racionais podem fazer escolhas, sendo que o modo como detectamos a inteligência é pelos efeitos externos de uma mente racional. Por exemplo, se você fosse a outro planeta e visse lá outros seres parecidos conosco, mas que não pudessem escrever nem construir nada e agissem como animais, você pensaria que eles não são inteligentes, pelo menos não inteligentes como nós somos. Ao falar com uma pessoa, frequentemente julgamos a inteligência dela pela linguagem que é capaz de usar ou julgamo-las pela sua capacidade de realização, de construir algo, enfim. Do mesmo modo, descobrimos na “linguagem da natureza” coisas que parecem ser resultado de uma inteligência; coisas que exigiram uma escolha entre opções diferentes, coisas que podem realizar funções, executar trabalhos que são muito sofisticados para os quais sabemos ser necessária grande inteligência.

Augustus Nicodemus: Mas essas coisas que parecem funcionar harmonicamente e que são complexas não podem ter surgido por meio de processos naturais?

Michael Behe: Não. Uma máquina construída ao acaso é algo tão improvável em biologia quanto o seria em nosso cotidiano. Quando vemos uma máquina numa loja de ferramentas, ou uma máquina de cortar grama no quintal de alguém, sabemos imediatamente que não se trata de um produto do acaso porque todas as peças estão encaixadas a fim de realizar uma determinada função e a probabilidade de as peças dessa máquina terem se unido por acaso é muitíssimo pequena, tão pequena que nunca vimos isso acontecer. O mesmo que estamos dizendo sobre a maquinaria serve para o surgimento de nossas vidas. Mesmo as máquinas simples dão conta de ilustrar este conceito. Frequentemente, costumo usar o exemplo da ratoeira, que precisa de muitas peças para funcionar, as quais precisam estar encaixadas entre si; todas elas precisam estar presentes a tal ponto que se você remover uma mola, por exemplo, a ratoeira ficará inutilizada. Desse modo, essas peças não podem ser desenvolvidas gradual ou acidentalmente. O mesmo podemos dizer de muitas máquinas moleculares.

Augustus Nicodemus: Esta teoria tem sido frequentemente atacada por ser uma teoria religiosa, havendo até quem a equivalha ao criacionismo. O que pensa disso?

Michael Behe: A teoria do Design Inteligente não é o mesmo que criacionismo. O criacionismo é uma ideia religiosa. O Design Inteligente é uma ideia científica e a diferença é que o Design Inteligente surge do estudo da natureza em vez da leitura das Escrituras. O método da teoria do Design Inteligente é sair e ver o que há na natureza e tentar encontrar a melhor explicação para isso. Esta teoria surgiu porque, diferentemente do que Darwim esperava, a vida, até mesmo no seu nível mais fundamental, apresenta moléculas celulares extremamente complexas, que contêm maquinaria de verdade. Não estamos falando apenas de analogia. Darwin imaginava que a célula fosse apenas um amontoado de gelatina, um pouco de protoplasma. Então, a ideia do design surge naturalmente dos dados porque quando alguém vê em nosso cotidiano máquinas complexas em funcionamento sabe que desde sempre elas são produtos da inteligência de alguém e não há razão para se pensar diferente sobre as máquinas descobertas nas células. Dessa maneira, o Design Inteligente pode ter implicações religiosas, mas não parte de nenhuma premissa religiosa, apenas do estudo da natureza e, na verdade, não é a única teoria assim. Há uma teoria em física, a teoria do Big Bang, que traz semelhantes implicações. Há cem anos, a maioria dos físicos pensava que o universo era eterno e imutável, mas então foram reunidas evidências de que o universo tivera um começo e muitas pessoas, inclusive cientistas, ficaram muito incomodadas com isso porque sabiam que isso deveria apontar para a hipótese de um criacionista. Mas, apesar de tudo, a teoria do Big Bang era uma teoria científica porque envolvia somente dados científicos e o raciocínio a partir desses dados. Ora, o mesmo ocorre com a teoria do Design Inteligente.

Augustus Nicodemus: Será que existem cientistas ateus ou agnósticos que defendem a teoria do Design Inteligente a fim de que possamos embasar o fato de que esta teoria não tem adesão apenas dos religiosos?

Michael Behe: Poucos ateus defendem a teoria do Design Inteligente porque eles percebem que isso envolve algo que está além do universo. E desde de que por definição um ateu não acredita que haja algo além do universo, ele teria de desistir do ateísmo ou ignorar os dados e desistir do Design Inteligente. Existem alguns agnósticos que pensam que a atual teoria de Darwin é uma pobre explicação sobre como surgiu a vida na Terra. E, respondendo a sua pergunta, acredito que no caso desses agnósticos, a opinião deles é um bom argumento a ser destacado para as pessoas que afirmam ser o Design Inteligente uma teoria religiosa. Além disso, muitas pessoas dizem especificamente que esta é uma teoria religiosa cristã, contudo, ela tem sido defendida por pessoas de inúmeras religiões diferentes, incluindo até mesmo algumas religiões da Ásia. Assim, o Design Inteligente não surge especificamente de ideias cristãs ou de qualquer outra religião, mas surge do estudo da natureza.

Augustus Nicodemus: É verdade que a teoria darwinista da evolução é uma teoria em crise? E que mesmo cientistas que não defendem a teoria do Design Inteligente estão fazendo críticas e mostrando os pontos fracos dessa teoria? E que se espera para breve uma alteração significativa no darwinismo?

Michael Behe: Sim, e isso é interessante. Embora muitos cientistas, em suas publicações, deixem claro que rejeitam a teoria do Design Inteligente, a maioria dos biólogos atuais reconhece que a teoria de Darwin não explica o que a ciência tem descoberto sobre a genética. Eles não esperavam a grande complexidade e a grande quantidade de informação que sabemos hoje que estão presentes nas células. Sendo assim, se você der uma olhada nas publicações científicas das editoras das principais universidades, de autoria até de expoentes biólogos evolucionistas, verá que a maioria propõe adições ou transformações na teoria evolucionista de Darwin e afirma francamente que ela não pode explicar o que encontramos no surgimento da vida. Em geral, eles propõem mais mecanismos não inteligentes para explicar o que há na vida e as ideias deles têm sido aceitas. Eu penso que eles, como dizemos nos EUA, estão “latindo na árvore errada”. Estão procurando no lugar errado porque os sistemas biológicos que vemos apontam claramente para a inteligência do design intencional.

Augustus Nicodemus: Por que uma teoria que apresenta tantas evidências concretas e físicas da presença de um propósito e de uma inteligência por trás da “fábrica da vida” é ridicularizada?

Michael Behe: Eu acho que há muitas razões e a resposta é complexa. Uma das razões é histórica. Quando Darwin propôs pela primeira vez sua teoria, recebeu oposições de algumas pessoas religiosas e também de alguns cientistas, mas alguns biólogos em alguns grupos religiosos permaneceram em desacordo sobre a teoria por algum tempo. Uma segunda razão é o fato de que a ciência é muito conservadora e não desiste muito facilmente de uma teoria. Se alguém considerar a história da ciência em geral, perceberá que muitas teorias continuaram recebendo crédito quando estava claro que tinham muitos problemas e demoraram para serem substituídas por outras mais plausíveis simplesmente porque muitos cientistas resistiam em continuar pensando nos moldes da teoria antiga. Outra razão é mais humana, eu acho. Os cientistas querem ser capazes de explicar tudo e, se houver o Design Inteligente ou algo fora da natureza responsável por algo na biologia, então eles podem perder a capacidade de obter explicação para algumas coisas. A razão final, é que alguns cientistas, especialmente aqueles que são líderes de organizações de cientistas, simplesmente não querem que a teoria do Design Inteligente seja verdadeira. Percebem que há muitas implicações extracientíficas e que muitas pessoas pensarão que o Design Inteligente é Deus, como eu penso que seja, e eles não querem que isso aconteça. São ateus que comprometeriam sua cosmovisão admitindo uma teoria estranha à sua própria ideologia. Então, preferem sempre outra explicação ou até mesmo nenhuma explicação. Preferem deixar os “mistérios” intocáveis até que alguém entre eles elabore algo que julguem minimamente satisfatório.

Augustus Nicodemus: Então, estamos diante de um confronto de dois sistemas religiosos, considerando que o ateísmo é uma espécie de religião. Será que no fundo não seria isso? Um conflito entre duas religiões?

Michael Behe: Sim. Isso certamente é verdade, pelo menos, para um bom número de cientistas. É importante perceber que o materialismo ou o ateísmo não são uma ciência. Não são conclusões às quais chegamos por meio de experiências em um laboratório. O ateísmo é uma filosofia e, assim sendo, a premissa de que o materialismo é tudo o que existe é, na verdade, simplesmente uma pressuposição filosófica e, a propósito, trata-se de uma pressuposição relativamente recente na ciência. Até cerca de 200 anos atrás, quase todos os cientistas eram crentes religiosos. Isaac Newton, Michael Faraday, entre outros, foram homens que contribuíram grandemente para o avanço científico e estavam tentando descobrir como funcionava o mundo criado por Deus. Mesmo assim, parece ter sido no século 19 (eu não sou historiador e não sei responder por que), que a ciência passou a incluir subitamente esta filosofia materialista segundo a qual se a ciência não puder estudar um determinado objeto, então ele não deve existir. Essa postura confunde o público e penso que é ruim para a ciência porque impede alguns cientistas de verem algo muito evidente para alguém que não subscreve essa ideia.

Augustus Nicodemus: Alguns desses cientistas ateus materialistas afirmam que a ciência contemporânea está nos dando cada vez mais respostas para aquilo que antes era atribuído a Deus e que chegará o momento em que a ciência explicará todas as coisas e a ideia de Deus se tornará obsoleta. Para encerrarmos, gostaria que falasse a respeito disso.

Michael Behe: Sim. É realmente irônico que os resultados da ciência, especialmente nos últimos cem anos, têm apontado muito fortemente para algo fora da natureza como explicação para o que descobrimos na própria natureza. É importante fazer sempre distinção entre como funciona a natureza e como surgiu a natureza. Apenas porque uma máquina, como um cortador de grama ou uma ratoeira, funciona e você pode escrever equações para demonstrar isso, mas não significa dizer que essas máquinas não exigiram um design intencional. No século 19, os físicos pensavam que a Terra não era um lugar especial e que a vida provavelmente existisse em Marte, Vênus e em muitos outros planetas. Contudo, a astronomia e a física têm demonstrado que, de fato, a Terra é um lugar muito especial e totalmente adequado para a existência da vida. Semelhantemente, em biologia, Darwin pensou que a célula fosse, como eu já disse, um amontoado de gelatina, e isso também seria fácil de explicar. No entanto, hoje sabemos que quanto mais descobrimos mais e mais complexa e elegante vemos ser a vida. Assim, discordo dos cientistas que pensam que a ciência e seu progresso atual estejam apontando para longe de Deus. Na verdade, é totalmente o contrário disso.


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