Entrevista



Danilo Raphael A. Moraes - A importância e a atualidade do Antigo Testamento



Por Elvis Brassaroto Aleixo


Danilo Raphael A. Moraes é presbítero e mestre em teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo (FTBSP), com especialização em Antigo Testamento. Em sua dissertação, escreveu sobre “A formação do Pentateuco”. O desenvolvimento dessa matéria foi o ponto de partida para realizar uma análise das pesquisas modernas e seus pressupostos científicos correlacionados à autoridade bíblica e seus fundamentos. Formado em apologética cristã pelo ICP – Faculdade Dr. Walter Martin, é palestrante deste instituto desde o ano 2000 e autor de diversos artigos publicados na Defesa da Fé. Além disso, supervisiona e escreve para o portal Creia em Jesus e auxilia o INAPS – Instituto Nova Aliança de Promoção Social. Na entrevista que segue, afirma, com total confiança de quem conhece o assunto: “O estudo do Antigo Testamento sobreviveu ao criticismo e ao liberalismo”.

Defesa da Fé – Em homenagem à clássica obra de Gleason Archer Jr., iniciamos esta entrevista com a seguinte pergunta: “Merece confiança o Antigo Testamento?”.

Danilo Moraes – Sim! A obra de G. Archer Jr., embora tenha sido escrita em 1964, merece credibilidade ainda hoje. Da década de 60 até os dias atuais, o campo de pesquisa veterotestamentário não progrediu como esperavam os críticos da época. No início da década de 70, já era notável, no meio acadêmico, certo mal-estar, insatisfação e desnorteamento com os resultados das pesquisas sobre o Pentateuco e o método histórico-crítico. O que se pôde presenciar nas últimas décadas é a ênfase sobre o texto final, tal como se apresenta em nossas bíblias. O interesse pelas fontes que deram origem aos textos bíblicos se mostrou infrutífero. Os pressupostos críticos e liberais estão dando, cada vez mais, lugar a uma interpretação conservadora, por meio da qual se busca o significado do texto dentro do próprio texto. A referida obra de G. Archer propõe responder às duras críticas que o Antigo Testamento sofreu e vem sofrendo, principalmente a partir do Iluminismo, que teve seu início no começo do século 17. No cenário brasileiro atual, percebemos que grandes instituições teológicas estão se dobrando ante o liberalismo teológico que propõe um viés científico ao estudo bíblico, o que, sorrateiramente, passa uma áurea de superioridade intelectual aos seus alunos. Mas, na verdade, é um ledo engano! O estudo do Antigo Testamento sobreviveu ao criticismo e ao liberalismo, seus maiores algozes. A confiança que temos hoje está muito mais alicerçada. O que poderia ser uma pergunta para muitos irmãos de décadas passadas, hoje, no entanto, já pode ser uma afirmativa: O Antigo Testamento merece confiança!

Defesa da Fé – Como devemos lidar com a revelação do Antigo Testamento? Essencialmente, em que consistiria o valor teológico e prático dos livros da antiga aliança para os cristãos?

Danilo Moraes – Um dos pontos da teologia moderna afirma que o Antigo Testamento não é uma revelação, tal como compreendemos por toda a história da Igreja. O termo “revelação” assumiu, em primeiro lugar, uma conotação moral e, depois, cultual. O conceito de que Deus se revela diretamente pelo seu povo é descartado. O sobrenatural não tem lugar em muitos círculos acadêmicos. Diante disso, para muitos, o Antigo Testamento é simplesmente um livro como qualquer outro. Todavia, o valor teológico e prático dos livros da antiga aliança que temos é o mesmo que Jesus atribuiu a esses livros. Jesus interpretou a lei, os escritos e os profetas como sendo históricos e dignos de confiabilidade. Contudo, o que quero dizer é que qualquer coisa no Antigo Testamento que tenha sido declarada por nosso Senhor como um fato, ou implicada em um fato, deveria ser, então, conclusiva para aqueles que sustentam que Jesus é infalível. Os apóstolos e os Pais da Igreja, seguindo a interpretação dada pelo Mestre, atribuíram tanto ao Antigo quanto ao Novo Testamento o conjunto de fé e prática da Igreja de Cristo.

Defesa da Fé – A teologia da prosperidade, entre outras teologias, explora bastante os textos veterotestamentários segundo sua própria conveniência. Até que ponto a igreja cristã pode se apropriar das histórias e biografias do Antigo Testamento para que possa aplicá-las ao cotidiano cristão? Seria uma apropriação sem limites?

Danilo Moraes – A teologia da prosperidade é um câncer que vem se alastrando pelos múltiplos órgãos da igreja brasileira. Quando observadas a exegese e a base de sua hermenêutica, fica evidente a discrepância com que tratam os textos do Antigo Testamento. São ignorados, por parte da referida teologia, o público-alvo, a intenção do autor e, principalmente, o contexto em que o texto foi escrito. Vejo que a igreja pode se aproximar “sem medo” do Antigo Testamento, desde que respeite algumas regras básicas da exegese e da hermenêutica. A interpretação que Jesus e os apóstolos deram ao Antigo Testamento é o melhor parâmetro. Pode-se dizer que o Novo Testamento é o manual de interpretação do Antigo. A aplicação do Antigo Testamento ao contexto das igrejas e da vida cristã deve ser norteada pelo conceito da nova aliança, à qual estamos sujeitos. Ninguém pode, como acontece em alguns púlpitos, impor leis e conceitos veterotestamentários relacionados a Israel como se fossem dirigidos à Igreja de Cristo.

Defesa da Fé – Os cristãos estão preparados para defender a legitimidade do Antigo Testamento? No âmbito apologético, quais são os tópicos do Antigo Testamento mais alvejados pelos opositores às Escrituras?

Danilo Moraes – Infelizmente, são poucos que se interessam pelo estudo sério do Antigo Testamento. Mesmo em nossas igrejas pouco se prega o Antigo Testamento. Não nego o papel fundamental que o Novo Testamento exerce sobre nós, os cristãos, pois estamos debaixo da nova aliança e não da antiga. A meu ver, na prática, poucos estão preparados para defender a legitimidade do Antigo Testamento. Infelizmente, o despreparo está no âmbito geral da fé cristã. Mas, nos últimos anos, o mercado editorial brasileiro vem se esforçando para suprir essa necessidade lançando livros de cunho apologético e teológico sadios. Nesse sentido, o ICP está fazendo a sua parte. E sua excelente contribuição é notória por meio da revista Defesa da Fé, da Bíblia Apologética e dos cursos e palestras que ministra. Mas, é de suma importância que as igrejas se voltem cada vez mais para o ensino responsável das Escrituras. Entre os ataques da crítica destrutiva e das teologias ditas “modernas”, verifica-se a forte rejeição ao sobrenaturalismo. Se o valor histórico das Escrituras é descartado e os milagres são impossíveis, nada fica na Bíblia que mereça crédito. Para muitos críticos, a simples presença de um elemento sobrenatural no texto serve de evidência suficiente para que sua historicidade seja rejeitada. Quando os críticos negam a intervenção sobrenatural de Deus, fazem isso baseados em suas pressuposições filosóficas e não na análise das evidências históricas.

Defesa da Fé – E o que dizer das seitas? Elas empregam o Antigo Testamento? O senhor poderia destacar exemplos de alguns grupos e suas respectivas doutrinas? Há livros prediletos para esse ataque?

Danilo Moraes – O emprego que as seitas pseudocristãs dão ao Antigo Testamento difere da aplicação das grandes religiões. As seitas pseudocristãs, em sua grande maioria, aceitam a historicidade dos textos do Antigo Testamento, mas pecam muito em sua interpretação dos textos proféticos. E fazem grande esforço para “ajustar” os textos proféticos aos seus ensinamentos. E isso acontece principalmente nas seitas que possuem forte tendência escatológica, cuja doutrina é baseada no “agendamento” de datas para o fim do mundo. As Testemunhas de Jeová se destacam entre esses grupos. Já marcaram várias datas para o fim do mundo, o que, segundo eles, iria acontecer nos seguintes anos: 1914, 1918, 1920, 1925 e 1975. Agora, apregoam que o fim do mundo dar-se-á em 2034, de acordo com a revista A Sentinela (edição de 15/12/2003, página 15, parágrafos 6 e 7). Já as grandes religiões tendem a negar o valor histórico e religioso do Antigo Testamento. Ou, a exemplo do islamismo, tendem a distorcer fatos históricos e teológicos. Nota-se, por parte das seitas e das religiões, um grande interesse em reinterpretar doutrinas cristãs sólidas, que se sustentam, principalmente, no livro de Gênesis, para embasarem suas heresias. Entre elas, destacam-se: a criação ex-nihilo, a historicidade de Adão e Eva, o pecado original e a revelação, além de outras.

Defesa da Fé – No contexto secular, o Antigo Testamento é tomado por muitos como um compêndio de mitologia judaica. Se considerarmos o gênero mitologia, haveria mesmo semelhanças entre as narrativas mitológicas em geral e as histórias de Israel? O que caracteriza a supremacia do Antigo Testamento sobre as mitologias das diversas culturas?

Danilo Moraes – Infelizmente, o mito, quando aplicado ao âmbito religioso, é quase sempre apresentado como uma forma de expressão da humanidade em sua fase infantil de desenvolvimento. Esse desenvolvimento estende-se desde o pensar infantil-mítico até o estágio supremo da religião cristã. Hermann Gunkel (1862-1932) demonstrava rejeição ao sobrenatural. Ele considerava os onze primeiros capítulos de Gênesis como mitos e as histórias dos patriarcas como lendas, que fazem parte de uma tradição oral, ou como poemas épicos. Ficções míticas e legendárias são incompatíveis não apenas com o caráter do Deus de toda a verdade, mas, também, com a verdade, a confiabilidade e a absoluta autoridade da Palavra de Deus. O conceito de mito é, entretanto, motivado mais pela relutância e inabilidade dos intérpretes modernos em aceitar a realidade do mundo do Gênesis do que por uma compreensão clara da intenção do texto. O Antigo Testamento, por adotar um caráter teológico e histórico, não era propício à formação de mitos. Contudo, os autores veterotestamentários, ocasionalmente, podiam tomar emprestadas concepções míticas de povos vizinhos e adaptá-las à sua própria fé. Existe afinidade entre as narrações bíblicas e a literatura mítica pelo simples fato de ambas fazerem parte do gênero literário narrativo. As semelhanças entre as técnicas narrativas são numerosas, mas as diferenças são evidentes quando comparamos as respectivas finalidades. Nisso, vejo a supremacia do Antigo Testamento sobre as mitologias das diversas culturas. A finalidade das narrativas do Antigo Testamento é expressar os acontecimentos históricos. Já o mito, como bem definiu Fernando Pessoa, “é o nada que é tudo”. O mito possui um forte caráter simbólico, não se preocupa em expressar a realidade histórica.

Defesa da Fé – Há críticos que alegam haver contradições entre o Deus revelado no Antigo Testamento e o Deus revelado no Novo Testamento, confronto que seria expresso sob o binômio “Deus de ira” versus “Deus de amor”. Como responder a essa acusação?

Danilo Moraes – Márcion, no segundo século 2o d.C., foi o primeiro a declarar que o Deus do Antigo Testamento era duro, severo e cruel, enquanto o Deus revelado em Jesus Cristo era carinhoso, calmo, bom e amoroso. Atualmente, alguns grupos sectários comungam da mesma idéia, como, por exemplo, o espiritismo kardecista. Essa questão é muito delicada, e está presente nas grandes indagações sobre a fé cristã, o que confunde a grande maioria dos cristãos. Em primeiro lugar, devemos saber que a inspiração divina se dá por meio do arcabouço cultural e das limitações pessoais do escritor sagrado. Nesse sentido, uma das características da linguagem semita era o uso de hipérboles. Dada a sua vivacidade, o israelita era muito propenso às expressões fortes, exageradas e contrastantes. Daí ocorrerem, no Antigo Testamento, principalmente nos salmos, fórmulas em que o autor sagrado, ou outro personagem, deseja mal àqueles que o angustiam. A acusação de que o Deus do Antigo Testamento é mau e o do Novo é bom é falsa, porque deriva de conceitos que, em geral, não têm nenhuma relação com a religião judaica, representando, tão-somente, uma perspectiva culturalmente fechada. Deus se apresenta coerentemente por toda a Bíblia. Seu amor e compaixão são encontrados no Antigo Testamento da mesma maneira que sua cólera contra o pecado está claramente evidenciada no Novo Testamento. É preciso entender que o Novo Testamento não é apenas o “complemento” do Antigo Testamento, mas seu ápice.

Defesa da Fé – Deixe uma mensagem extraída de um dos livros do Antigo Testamento para os leitores de Defesa da Fé.

Danilo Moraes – Aprecio muito a profissão de fé central do judaísmo: o Shemá. “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.4).

Amém!


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