Entrevista



Rodolfo Montosa - Liderança no divã



Por Jamierson Oliveira

Ser líder é o sonho ou o pesadelo de muitos que estão a frente de empresas, instituições e principalmente de igrejas. Isso porque estar à frente de pessoas é mais complexo do que parece. Pensando nisso, muitos ministérios foram formados para auxiliar esse contingente de pessoas devotadas e que precisam ser orientadas e treinadas. Um desses profissionais que desenvolve um ministério voltado para esse propósito é o executivo Rodolfo Montosa, 37 anos. Graduado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas, MBA pela USP, com extensão na Universidade de Vanderbilt (USA) e École de Management du Lyon (França) e bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA), Rodolfo possui larga experiência em treinamento e aconselhamento para líderes. Com o crescimento desse trabalho fundou o Instituto Jetro, numa referência ao exemplo de conselheiro que foi o sogro de Moisés, líder do povo de Israel que se encontrava sob pressão pelo acumulo de atividades, algo freqüente na vida de todo grande líder. Acompanhe nesta edição a entrevista que ele nos concedeu.

Defesa da Fé – Pode-se traçar um perfil de liderança independentemente do tempo?

Rodolfo Montosa – Absolutamente não. A linha do tempo traz consigo mudanças tanto na dimensão pessoal (idade cronológica, experimentações de vida etc.) como na dimensão comunitária (valores, ênfases culturais, tecnologias etc.). O perfil de liderança de uma pessoa está sempre sendo influenciado por essas duas dimensões.

Defesa da Fé – E quais seriam os aspectos, nas duas dimensões, que mais sofrem essas interferências?

Rodolfo – Os aspectos da dimensão pessoal interferem de várias maneiras na conduta de um líder. Por exemplo, líderes jovens são mais precipitados, envolvem menos outras pessoas na tomada de decisões, arriscam-se mais, não calculam muito bem todos os impactos e recursos de uma determinada iniciativa, desistem mais facilmente até por mudarem o foco mais rapidamente. Já os aspectos da dimensão comunitária interferem nas ênfases contextuais. Por exemplo, Responsabilidade Social é uma expressão de modismo que têm afetado muitas organizações a tomarem determinados rumos “para não ficarem de fora”.

Defesa da Fé – Fala-se que um líder nasce pronto. Isso é verdade?

Rodolfo – Muitos estudiosos desta matéria comentam que as características de um líder são obtidas por duas maneiras principais: através de aptidões naturais e através de habilidades adquiridas. Pessoas com determinadas aptidões são eleitas desde sua infância por seu pequeno grupo para representarem seus interesses, ou como modelos a serem seguidos. Isso ajuda em muito na carreira de um líder, mas não é a garantia de ser bem-sucedido. Outras pessoas desenvolvem determinadas habilidades que as conduzirá à ocupação de posições de liderança, mesmo não tendo determinadas aptidões clássicas de um líder carismático. Assim, um líder de verdade não nasce pronto e deve ser duramente desenvolvido nas várias competências necessárias para o sucesso de sua Missão.

Defesa da Fé – Quais os referenciais de liderança que temos hoje no mundo?

Rodolfo – Os esteriótipos mais ovacionados são aqueles de pessoas que aparentam firmeza de decisão, determinação nos propósitos, persistência diante de adversidades, obsessão pelos resultados, clareza na comunicação, elevado senso de urgência, visão muito além dos pobres mortais liderados.

Defesa da Fé – Vivemos uma crise de liderança?

Rodolfo – Já tivemos presidentes de nações com o esteriótipo acima. Testemunhamos o fracasso da maioria, não é verdade? O que faltou, então? Consistência de conteúdo, propósitos altruístas, firmeza de caráter e coerência entre o que se faz e o que se fala. A crise então é mais por conta do caráter e do coração dos líderes e menos da competência de liderar. “Espinheiros” tem governado sobre muitas nações e organizações em geral. Lembremos os escândalos corporativos ao redor do mundo nos últimos 5 anos.

Defesa da Fé – De quem é a culpa pelo fracasso desses líderes?

Rodolfo – Não sei se é uma questão de culpa. Mas o caminho para mudança está nas mãos de quem os coloca naquela posição de exercício da liderança. Líderes precisam ser mais bem avaliados.

Defesa da Fé – Você concorda com o ditado que diz: “O povo tem o líder que merece”?

Rodolfo – Não exatamente. Vejo muita ignorância no processo de escolha dos líderes, às vezes proveniente da própria deficiência de educação de quem os escolhe. As deficiências dos sistemas realimentam-se mutuamente. Sem dúvida uma das soluções é dar mais educação, em todos os sentidos, aos liderados, sejam eles num âmbito de uma nação, empresa ou igreja.

Defesa da Fé – Na igreja essa situação de crise é diferente?

Rodolfo – Infelizmente não. Temos tido muitos contatos com líderes com coração, mas sem muita capacitação, e vice-versa. No Instituto Jetro temos um lema que é “Pastoreando com o coração e liderando com excelência”.

Defesa da Fé – Aqui também não há culpados?

Rodolfo – Talvez aqui seja um pouco diferente. Os líderes cristãos respondem perante Deus. Apesar de parecer um pouco subjetivo isso, sabemos da seriedade de prestar contas a Deus. Por certo, Deus mesmo se envolve de tempos em tempos (ou a todo o tempo) nesse assunto “dando uma limpa”. Quanto àqueles que têm mais consciência cabe o papel profético (sem o modismo deste termo) de comprometimento com a verdade. Existem muitas instituições que levam o nome de cristãs passando por profundas crises de caráter e que precisam ser confrontadas.

Defesa da Fé – Pastores devem ser pastoreados? E por quem?

Rodolfo – Um amigo deve afiar outro amigo. Não existe ministério solitário. Pastores isolados correm grande perigo. Existe um ditado popular que diz: “amigo é aquele que fala que o outro está com mau hálito”. Todos devemos buscar amigos verdadeiros. O caminho é a ministração “um ao outro” como nos ensina o Novo Testamento. Um orando pelo outro, um incentivando o outro, um exortando o outro etc.

Defesa da Fé – Você não acha que para isso é preciso mais humildade, admitir suas fragilidades etc?

Rodolfo – Nosso Instituto chama-se Jetro. Em Êxodo 18, lemos sobre sua interação com o líder Moisés. O momento na vida e Moisés e do povo era muito especial, com grandes acontecimentos de libertação, envolvendo muitas manifestações do poder de Deus. Eles viviam um tempo de muito impacto. Mesmo assim, Moisés não sabia como lidar com o pastoreamento daquele povo. Chega Jetro com seu conselho direto e útil, mas o ponto aqui é o coração aberto de Moisés. Ele ouviu e aplicou o conselho, que implicou na divisão do seu poder. Assim hoje, que não tiver bons conselheiros, mentores, pastores, amigos na caminhada, sucumbirão em seus ministérios. Quem não tiver humildade, será humilhado, pois a obra é muito maior do que qualquer um de nós.

Defesa da Fé – A renovação do ministério é um processo difícil e pouco praticado.

Rodolfo – Sim, a renovação refere-se mais à forma que ao conteúdo. Renovar é reformar, sem mudar a essência. Ë claro que a compreensão da essência vai aumentando com o tempo. Em nome de renovação, muitos abandonam coisas essenciais. O desafio então fica por conta de mudar a forma sem comprometer a essência. Renovação da mente, do coração. Esse tema vai longe...

Defesa da Fé – A formação intelectual pesa no ministério?

Rodolfo – Sem dúvida. Acrescento a essa pergunta a formação emocional. Nossas ações são respostas à leitura que fazemos do que nos circunda. Nossa leitura é diretamente afetada pelos referenciais intelectuais e emocionais formados ao longo de nossa história. Livros e pessoas são os principais influenciadores nesse processo.

Defesa da Fé – Falando em livros: qual a maior lição de liderança depreendida das Escrituras?

Rodolfo – Em minha modesta opinião é a do serviço. Líder é aquele que serve, e não aquele que é servido. Este é um grande oposto aos valores de liderança deste mundo que vivemos. Liderança pelo exemplo é outra grande lição, ao invés do “faça o que eu mando”. Liderança focada em pessoas também deve ser destacada.

Defesa da Fé – Talvez o maior desafio de um líder é fazer um sucessor.

Rodolfo – Não sei se você já pensou na expressão “ser bem-sucedido”. Jesus é nosso maior referencial. Quero seguir seu modelo e sua missão, mesmo distante em mais de 2.000 anos. Ele foi bem-sucedido. Quantos poderíamos citar nesta esteira? A escolha de um sucessor, ou mais de um, deve envolver tanto o aspecto do coração (caráter) quanto o aspecto da competência (habilidade). Se um desses dois aspectos for ignorado, haverá falência. Nisso todo o investimento deve ser feito para que o sucessor tenha suas motivações lapidadas e saiba o que fazer para chegar onde se quer. Um dos principais papéis então do líder é formar esse(s) sucessor(es).

Defesa da Fé – O que se pode dizer do grupo escolhido por Jesus?

Rodolfo – Pessoas comuns, como nós, com fortes e claras motivações, capacitados pelo Espírito Santo em toda a habilidade necessária na caminhada. Cumpriram sua missão e foram bem-sucedidos. Seu coração tratado foi mais importante que suas habilidades adquiridas!

Defesa da Fé – Você está enfatizando bastante a questão emocional. Por quê?

Rodolfo – Percebo, na prática, que as questões emocionais afetam mais os líderes que as questões intelectuais. Como lidam com pessoas, como decidem sobre finanças, como projetam o futuro, como interagem com adversidades, tudo isso é muito afetado pelas emoções. No assunto liderança, os melhores são aqueles que têm inteligência emocional. Relacione aqueles que você conhece e confirme minha afirmação.

Defesa da Fé – Como os liderados podem contribuir mais para com seus líderes?

Rodolfo – Sendo sinceros e não os “canonizando” como perfeitos. Não devem colocar em pedestais pessoas comuns, pois todos somos como Elias, sujeitos às mesmas paixões. Às vezes os líderes são muito mais carentes e com maiores necessidades que seus próprios liderados.


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