Entrevista



David Botelho - Missões é uma causa radical



Por Jamierson Oliveira

Considerado um estrategista de missões aos povos não-alcançados, David Botelho é o líder da Missão Horizontes na América Latina (Monte Verde – MG). Pela fé, abriu mão de um cargo executivo na General Motors do Brasil, onde era coordenador técnico da Engenharia de Produção, para fazer os seminários IBAD e Antioquia. Em1984, teve sua primeira experiência como missionário nas selvas bolivianas, entre os índios Aiores. A primeira igreja pastoreada por ele naquele país investia 78% de sua receita em missões e enviou a primeira missionária boliviana à África. Casado e pai de três filhos, que também são missionários atuantes, em entrevista exclusiva à Defesa da Fé Botelho fala como quem sempre esteve no front, e não apenas como um teórico de missões.

Defesa da Fé – O senhor sempre foi visto como um líder radical em missões. Por quê?

David Botelho – Porque sempre pensamos nos povos do mundo negligenciados pela igreja. Porque deixei um emprego com cargo executivo numa indústria automobilística para, junto com minha esposa, Cleonice, e meu filho, ir para o seminário IBAD, em Pindamonhagaba, SP. E isto sem apoio financeiro da igreja da qual éramos membros. Talvez por usar roupas típicas, barba longa e cabeça raspada etc (Risos). Meu objetivo, com isso, é despertar a igreja brasileira para os povos não-alcançados.

Defesa da Fé – O que é ser um radical na obra de Deus?

Botelho – É sair da perigosa “zona de conforto”. É ter compaixão pelos perdidos. No original, a palavra compaixão significa “forte dor estomacal” (Foi o que Jesus sentiu ao chorar vendo Jerusalém abandonada). É viver diferente da maioria e marchar contra a maré. É entregar-se totalmente por aqueles que não conhecem o Mestre.

Defesa da Fé – Isto não pode ser visto como imprudência, ir ou enviar pessoas ao campo sem maiores garantias?

Botelho – A maior garantia que temos aqui na terra é estar na plena vontade de Deus. Este é o lugar mais seguro. Muitos pensam que ir ao campo missionário é ir para a morte. Para estes digo que já morremos quando nos entregamos a Jesus. Viver nas cidades brasileiras sim é perigoso. Mas não somos omissos quanto à segurança pessoal. Todos os obreiros enviados pela Missão Horizontes para regiões de risco têm seguro de vida, com direito a repatriamento. James Frazer, missionário numa região perigosa e inóspita da China, disse uma frase que me impressiona muito: “Somos imortais até que cumpramos a tarefa que nos foi encomendada”.

Defesa da Fé – O senhor tem pedido os nossos filhos para missões. Qual a visão do projeto Revolução Teen?

Botelho – Já enviamos nossos três filhos que hoje estão em três continentes diferentes, portanto, não temos mais filhos para enviar. Então, temos de enviar os filhos dos outros (Risos). Revolução Teen é um projeto ousado e radical. Com ele, a missões Horizontes está recrutando e capacitando uma força ainda não explorada pela igreja evangélica no mundo: os adolescentes. Após a conclusão do primeiro grau escolar, o jovem faz um estágio de um ano na base de Monte Verde, cursando o primeiro ano do seminário. O segundo estágio será feito numa das bases da Missão Horizontes na América Latina, onde ele dará continuidade ao seminário e concluirá o segundo grau escolar em espanhol, o que lhe permitirá, no final do curso, sair como professor de espanhol. O terceiro estágio será feito num país de língua inglesa e/ou francesa e, finalmente, o último estágio, de um ou dois anos, dentro da Janela 10-40 e missão Além. Ao concluir todo o curso, com 20 ou 21 anos, o futuro missionário estará capacitado nas áreas teológica, missiológica, lingüística e escolar, com fluência em três idiomas diferentes. Hoje, um jovem de 15 anos tem mais informações do que Willian Carey (chamado de o pai das missões modernas) tinha na sua época. Mas isto não tem sido explorado pela igreja.

Defesa da Fé – Como os pais estão reagindo a um desafio tão sério como este?

Botelho – A maioria dos pais está entusiasmada com tal oportunidade. Hoje, já temos dois adolescentes de treze anos estudando na Bolívia. A Igreja Batista da Lagoinha quer enviar um contingente de cinqüenta adolescentes para tal projeto. Cremos que está começando uma revolução em missões. Esta é uma nova geração de missionários que revolucionará o mundo. Os maçons e membros do Rotary Club enviam seus filhos para um intercâmbio nesta idade, e muitos deles, hoje adultos, estão dirigindo nossa nação em influentes cargos públicos ou como políticos.

Defesa da Fé – O senhor encontra esta visão na liderança da igreja brasileira?

Botelho – Ainda não. Cremos que este avivamento está iniciando com o exemplo demonstrado pela Igreja Batista da Lagoinha, que aceitou o desafio de ser uma igreja modelo. Se uma igreja fizer a tarefa bem feita, outras seguirão o exemplo. Vimos a influência da Igreja Moraviana, em Antioquia, da Igreja dos Povos, em Toronto (Canadá), e da Igreja Batista, em Santo André (SP). O pastor Márcio Valadão nos deu a palavra que enviará, em 2004, trezentos jovens e adolescentes ao Monte Verde (MG) para serem treinados e enviados à Janela 10-40 e à missão Além.

Defesa da Fé – O que seria ideal, em verba e em recursos humanos, para que o Brasil se tornasse a força missionária que o mundo espera que ele seja?

Botelho – Na época dos irmãos Morávios, para cada doze membros enviavam um missionário. O verdadeiro Movimento G12. Entendemos que esta geração é a que tem a melhor oportunidade de terminar a tarefa, pois temos hoje o maior contingente de crentes para ser treinado, a maior quantidade de recursos, o melhor treinamento, as melhores informações e recursos tecnológicos em geral. Cremos que este é o “momentum” ou “kairós” de Deus para darmos o estopim para o maior avivamento missionário da história. E cremos ainda que este avivamento virá do Brasil. Se cada crente investir em missões transculturais o correspondente a R$ 10.00 mensais poderemos multiplicar a nossa força em cem vezes. Que revolução seria! Hoje, cada crente investe em média apenas R$ 1,30 por ano.

Defesa da Fé – As agências missionárias estão no caminho certo para ajudar a igreja a alcançar este objetivo?

Botelho – Creio que não. Precisamos nos unir, e não competir. Se nos unirmos poderemos iniciar um processo sinérgico que revolucionará o mundo. Missões não é tarefa isolada de uma igreja, denominação ou organização missionária. Missões é a tarefa do corpo de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Cremos que falta uma orientação prática e projetos dentro do contexto latino. Temos copiado modelos europeus e norte-americanos já ultrapassados. Temos muitas conferências missionárias sem nenhum objetivo prático. Temos de ter alvos claros, objetivos e definidos. Se não duplicarmos os esforços não poderemos terminar a tarefa da evangelização mundial em nossa geração.

Defesa da Fé – Como se desenvolve e como devemos lidar pessoalmente com a questão que se convencionou, no meio evangélico, de “chamada missionária” ?

Botelho – A vocação missionária no meio evangélico é mistificada. Vejamos o exemplo daqueles que trabalharam com o apóstolo Paulo. Somente 15% deles tinham uma chamada específica e mais de 60% foram chamados por Paulo. E o apóstolo tinha bons cooperadores, pois somente em Romanos 16 há o registro de 32 companheiros. Creio que se trata mais de uma questão de obediência.

Defesa da Fé – Como está o avanço evangelístico no mundo islâmico, especialmente na Janela 10 – 40?

Botelho – A revista Times desta semana preparou uma matéria com Luis Bush sobre este assunto. Nunca na história da igreja houve tantos convertidos a Jesus no mundo muçulmano como nos últimos 25 anos. Jesus é o filme mais pirateado no mundo muçulmano. Imagine que este filme foi transmitido em cadeia nacional em duas nações com maioria muçulmana. O presidente de uma nação de maioria muçulmana nos pediu obreiros para ajudar o seu país. Há vários exemplos de muçulmanos que estão tendo sonhos e visões com Jesus e se convertendo. Gordon Peters disse: “O mundo está mais preparado para receber o evangelho do que os cristãos de propagá-lo”.

Defesa da Fé – A Missão Horizontes está lançando o livro “Intercessão Mundial”, de Patrick Johnstone. Qual sua expectativa com esta obra que é uma fonte única de informações estatísticas sobre o campo?

Botelho – Nossa expectativa é que este livro venha a ser o guia de oração para os crentes amantes de missões transculturais. Andrew Murray disse: “Uma igreja informada é uma igreja transformada. A ignorância é a fonte da fraqueza no esforço missionário. Saiba e crerá. Saiba e orará. Saiba e ajudará na primeira fila”. Nós, da Missão Horizontes, cremos no poder da influência da literatura. Há um provérbio congolês que traz uma verdade maravilhosa: “O homem que toca o tambor não tem idéia até onde o som chegará”. Os tocadores de tambor no Congo (África) enviam suas notícias ao entardecer. Este é o período em que a transmissão do som é melhor e as pessoas podem pensar sobre as notícias ao entardecer. A mensagem enviada pelo tambor chega a uma certa vila e, então, é retransmitida a outra. Assim, ela é repassada de vila em vila, mas os primeiros tocadores não têm idéia de até onde o som chegará. Vocês já imaginaram o resultado desta entrevista? Deste livro? Esse leitor pode nos conhecer melhor entrando em contato com a nossa base (35) 3438-1546 ou visitando o nosso site www.mhorizontes.org.br .


  • Leia também

    Bíblia Apologética com Apócrifos Série Apologética Curso Teologia Online Curso Básico de Teologia Curso Médio de Teologia Curso Bacharel de Teologia
    Contato
    Siga

    © 2017 - 2020 ICP - Instituto Cristão de Pesquisas. Todos os direitos reservados