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Se Deus é sempre o mesmo, isto significa que ele sempre age da mesma forma?


Apesar de a Bíblia nos ensinar que Deus é imutável – ele é o mesmo hoje, ontem e para sempre (Hb 13.8) – não podemos perder de vista o fato de que as Escrituras nos ensinam que Deus nem sempre age da mesma forma em todas as épocas. Este é o problema com muitas pessoas. Elas pensam que Deus deve agir hoje exatamente como agiu no período bíblico, pois ele é o mesmo, sempre. Mas, será que a imutabilidade de Deus é uma espécie de promessa de que ele sempre agirá da mesma forma na história dos homens?

Todos concordamos, por exemplo, que Deus é capaz de criar outra vez mundos, sóis e estrelas; entretanto, segundo as Escrituras, ele já cessou da sua obra de criação. Todos concordamos que Deus poderia hoje criar mundos do nada exatamente como fez no princípio, mas nenhum de nós espera realmente que ele faça isso e nem ora por isso. O fato de que nosso Deus é o mesmo hoje, ontem e para sempre não significa que ele sempre terá de criar mundos. A criação do mundo é um exemplo de uma manifestação sobrenatural do poder divino que não se repete na história. Essa constatação é, no mínimo, um precedente para considerarmos a possibilidade de que Deus pode cessar de agir de determinadas formas na história.

Há outros precedentes na Bíblia de atividades sobrenaturais que cessaram. Um deles é o dos profetas do Antigo Testamento. O Senhor Jesus afirmou que João foi o maior e último deles (Mt 11.13; Lc 16.16). Os profetas do Antigo Testamento são encarados pelos escritores do Novo como um grupo definido e fechado, frequentemente referidos como “os profetas” (ver Mt 11.13; 23.29; 1Ts 2.15; Hb 11.32; Tg 5.10; 1Pe 1.10-12), cujos escritos são mencionados ao lado da Lei, escrita por Moisés.

O autor de Hebreus declara que a atividade dos profetas do Antigo Testamento já havia cessado, fazendo parte do modo antigo de Deus se revelar ao seu povo, sendo substituída por uma revelação maior e mais excelente, que foi aquela através de Cristo: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo” (Hb 1.1-2).

Os profetas antigos são considerados, já no tempo do Novo Testamento, como homens santos, inspirados por Deus, a quem foi revelado o mistério de Cristo, revelação essa que ganhou forma escrita: “sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo.” (2Pe 1.20-21).

Semelhantemente, não temos mais homens com os poderes concedidos aos apóstolos, os legítimos sucessores dos antigos profetas, de inspiração e infalibilidade, de realizar curas tão extraordinárias. O ofício apostólico, restrito aos doze e a Paulo, cessou quando eles morreram. A igreja não nomeou ou elegeu outros apóstolos para substituir os que iam morrendo. E com os apóstolos parece haver cessado alguns dons relacionados com o ofício apostólico.

Todos nós cremos que Deus poderia hoje levantar pessoas assim outra vez e inspirá-las de modo a escreverem de forma inerrante a sua revelação ao povo, mas todos nós entendemos claramente pelas próprias Escrituras que essa atividade sobrenatural cessou. As Escrituras já estão completas. Não esperamos que hoje novas Escrituras sejam produzidas. Assim, a inspiração dos profetas antigos – e semelhantemente, a dos apóstolos – é mais um exemplo de atividade sobrenatural que ocorreu num determinado período da história da salvação e que, havendo cumprido seu propósito, encerrou-se. É mais um precedente em favor do que estamos argumentando, que Deus não age sempre do mesmo modo.

Ninguém hoje espera mais que Deus chame uma pessoa e lhe faça as mesmas promessas que fez a Abraão, de que o Salvador do mundo nasceria de sua semente. Ninguém espera hoje que o Filho de Deus, outra vez, se faça homem no ventre de uma virgem e que morra outra vez na cruz pelos pecados do seu povo. Teoricamente, Deus, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre, poderia fazer todas estas coisas acontecerem outra vez, mas certamente não as fará mais. Elas aconteceram de uma vez para sempre, cumprindo um propósito único e definido na história da redenção.

Da mesma forma, Deus não parece estar disposto a realizar, outra vez, os grandes milagres do passado, que se encontram registrados no Antigo Testamento. Não esperamos como uma possibilidade, mesmo que remota, que Deus hoje abra mares, à vista de todo um exército de incrédulos, para seu povo passar, num momento de crise. É claro que ele poderia fazê-lo, mas não temos qualquer garantia ou promessa de que ele o fará. Ou ainda, esperamos realmente que Deus hoje sustente um povo por 40 anos com pão do céu e água da rocha e com sandálias que não se acabam no deserto? Ou que faça o sol parar no firmamento por um dia inteiro? Ou que levante líderes dotados de força física sobrenatural como Sansão? Não há nenhuma promessa de que Deus fará isso sempre – ou, outra vez. E de fato, até onde sabemos, não há registro na história de que esses fatos aconteceram outra vez. Tais eventos miraculosos foram realizados num determinado período da história e com um propósito definido, que já se concretizou. Não é uma questão de termos fé ou de orarmos por estas coisas. Deus simplesmente não nos promete que as fará outra vez. Entretanto, ele permanece sendo o Deus onipotente e Todo-Poderoso de sempre. Apenas, em sua sabedoria, ele tem formas diferentes de agir em épocas diferentes.

Portanto, o argumento de que Deus hoje age exatamente da mesma forma como agiu no período bíblico carece de fundamentação exegética e ignora a evidência bíblica de que o Senhor age de acordo com um plano, cujas etapas se completam dentro de períodos definidos da história. Precisamos ter cuidado antes de dizer que tudo o que ocorria no culto das igrejas do período apostólico deverá ocorrer hoje, se tão somente estivermos abertos, buscando com fé. Não podemos deixar o propósito de Deus fora dessa questão.


Por Augustus Nicodemus

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