Ilustração



Respostas prontas


“Ouça também o sábio e cresça em ciência, e o entendido adquira habilidade” (Pv 1.5)


Certa vez, recebi o convite de um colega para servir de árbitro na revisão de uma prova. Tratava-se de avaliar uma questão de física, realizada por um aluno que havia recebido nota zero. O estudante contestava, alegando que merecia nota máxima pela resposta, a não ser que houvesse uma “conspiração do sistema” contra ele.

Li a questão da prova, que dizia: “Mostre como se pode determinar a altura de um edifício com o auxílio de um barômetro”. A resposta do estudante foi: “Leve o barômetro até o alto do edifício e amarre uma corda nele. Depois, desça o barômetro até a calçada e, em seguida levante, medindo o comprimento da corda. Esse comprimento será igual à altura do edifício”.

Era uma resposta interessante e correta, pois satisfazia o enunciado. Disse ao estudante que ele tinha razão para ter nota máxima, já que respondera a questão completa e corretamente. Entretanto, se assim fosse, estaria caracterizada sua aprovação em um curso de física, mas a resposta não confirmaria isso. Sugeri, então, que fizesse outra tentativa para responder a questão. Ele teria seis minutos para responder, após ter sido prevenido de que sua resposta deveria mostrar, necessariamente, algum conhecimento de física.

Cinco minutos depois, ele não havia escrito nada, apenas olhava pensativamente para o forro da sala. Perguntei-lhe se desejava desistir. Fiquei surpreso quando o estudante anunciou que não queria desistir. Na realidade, tinha muitas respostas e estava escolhendo a melhor.

Desculpei-me pela interrupção e solicitei que continuasse. No momento seguinte, ele escreveu a resposta: “Vá ao alto do edifico, incline-se numa ponta do telhado e solte o barômetro, medindo o tempo “t” de queda desde a largada até o toque com o solo. Depois, empregando a fórmula “h.3.d. (1/2)gt2”, calcule a altura do edifício”.

Perguntei então ao meu professor se ele estava satisfeito com a nova resposta, e se concordava com a minha disposição em conferir nota máxima à prova. Concordou, embora sentisse nele uma expressão de descontentamento, talvez inconformismo.

Ao sair da sala, lembrei-me de que o estudante havia dito ter outras respostas para o problema. Não resisti à curiosidade e perguntei-lhe quais eram elas. Perante a minha curiosidade e a perplexidade de meu colega, o estudante desfilou as seguintes explicações:

• “Num belo dia de sol, pode-se medir a altura do barômetro e o comprimento de sua sombra projetada no solo, bem como a do edifício. Depois, usando-se uma simples regra de três, determina-se a altura do edifício”.

• “Outro método de medida bastante simples é subir as escadas do edifício fazendo marcas na parede, espaçadas da altura do barômetro. Contando o número de marcas ter-se-á a altura do edifício em unidades barométricas”.

• “Se não for cobrada uma solução física para o problema, existem ainda outras respostas. Pode-se ir até o edifício e bater à porta do síndico. Quando ele aparecer, diz-se: “Caro senhor síndico, trago aqui um ótimo barômetro e, se o senhor me disser a altura deste edifício, eu lhe darei o barômetro de presente”.

A esta altura, perguntei ao estudante se ele não sabia qual era a resposta “esperada” para o problema. Ele admitiu que sabia, mas estava tão farto com as tentativas dos professores de controlar o seu raciocínio e cobrar respostas prontas com base em informações mecanicamente arroladas, que resolveu contestar aquilo que considerava, principalmente, uma farsa.

Disse certa vez Henry Beecher, renomado cientista: “A alma sem imaginação é o mesmo que um observatório sem telescópio”.


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