Religiões



Sikhismo - A religião dos gurus, os guias



Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte (Sl 48.14)


O sikhismo foi fundado há mais de 500 anos e é um modo de vida e filosofia bem à frente de seu tempo. É uma religião desconhecida no ocidente e seus adeptos encontram-se, na sua maioria, na região indiana de Punjabe. O sikhismo exige uma intensa vida devocional para com seu deus, declara defender uma vida reta e que preserve e respeite a igualdade do gênero humano e a justiça social. Por isso, o sikhismo é considerado uma religião de reforma, pois protesta contra alguns conceitos do hinduísmo e do islamismo e destas duas grandes religiões ele extrai seu corpo doutrinário, tarefa conferida ao seu fundador, o principal dos gurus, Nanaque.


Quem é o que é um sikh?

A palavra é oriunda do língua punjabe e significa "discípulo". Os sikhs se denominam discípulos de Deus e seguidores dos escritos e ensinamentos de um grupo seleto de dez gurus sikhs. A obra sagrada que encerra a "sabedoria" destes ensinos é o guru Granth Sahib. Esta escritura é também designada por meio da palavra guru porque os sikhs a relacionam (a palavra) não somente a homens, mas também a Deus e às escrituras. O teor de seus ensinamentos é prático e universal, isto é, pode e deve ser seguido por todo o gênero humano, pelo menos, esta é a aspiração sikh. A importância desta obra é tão grande que em 1708, a primazia de lealdade dos sikhs foi transferida da autoridade pessoal dos gurus para o Granth Sahib, livro sagrado do sikhismo compilado por um dos seguidores de Angade (substituto de Nanaque), chamado Arjan - o quinto guru.


O cânon sikhista

O fato de os sikhs unificarem as idéias do islamismo e hinduísmo não significa que tenham empregado a literatura religiosa de qualquer dessas crenças. Os sikhistas preferiram compor seus próprios escritos sacros, que são baseados em interpretações particulares derivadas de idéias difundidas nestas religiões, o que acaba resultando numa miscelânea teológica.

Como já vimos, os escritos sagrados do sikhismo são conhecidos como Granth Sahib, ou o "livro do Senhor". Esta literatura foi desenvolvida por inúmeros autores e, curiosamente, alguns deles viveram num período que antecede a existência do próprio Nanaque, e cuja relação com o sikhismo não excedeu o superficial.

O livro é composto por uma coletânea de poemas de várias dimensões, perfazendo um total aproximado de 29.500 versos, todos em rima, com um teor que enfoca a atenção sobre a exaltação do nome divino, além de advertências pertinentes à conduta diária de seus seguidores.

Uma característica destes versos que merece atenção é a exploração da filologia em seis idiomas diferentes e diversos dialetos, tornando-a praticamente impossível de ser estudada pelos próprios sikhs com profundidade. Isso acaba por excluir qualquer possibilidade de aprofundamento por parte dos adeptos iletrados. Isso culminou por determinar a existência de um seletíssimo grupo entre os sikhs que estivesse habilitado a interpretar o Granth Sahib em sua integralidade, o que obviamente impediu a instituição de escolas especializadas na interpretação e estudos referentes a esta sagrada literatura.

Ao contrário do que se poderia imaginar, isso tudo não promoveu a rejeição ou desdém de seus seguidores para com a sua literatura maior, pelo contrário, eles observam uma exigente reverência à obra, quase que a ponto da idolatria.


Pontos básicos da doutrina sikh

A teologia sikhista detém uma crença quanto à divindade que se assemelha ao islamismo. A primeira declaração de Nanaque a este respeito consta no Granth Sahib e diz o seguinte: "Há somente um Deus, cujo nome e verdadeiro criador, isento de temor e inimizade, imortal, não-nascido, auto-existente, grande e generoso. O verdadeiro que estava no começo".

A terminologia normalmente empregada pelos sikhs para referirem-se a deidade é Sat Nam, significando "nome verdadeiro". Mas apesar disso, é possível também observar uma variedade de nomes que são atribuídos a Deus, todos distintos, o que está conforme a crença sikh de que Deus se apresenta em diversas manifestações. Sobre isso, assim ensina o Granth Sahib: "Tu, ó Senhor, és um, mas muitas são as suas manifestações". No entanto, apesar de o deus sikh ser basicamente uma unidade, não é considerado um ser pessoal, antes, filosoficamente, é assemelhado à verdade e à realidade.

Outra disciplina que podemos destacar no sikhismo é a sua soteriologia. Ensinam que a salvação consiste em conhecer Deus, em obter Deus e em sermos absorvidos por Ele. Este método parece estar de acordo com a supremacia de um Deus incompreensível, além das doutrinas relacionadas à indignidade da humanidade e do desamparo humano. Portanto, a salvação se daria por meio de uma assimilação introspectiva de Deus que alcance o espírito; do "eu" de cada indivíduo em relação à alma do mundo místico. Este conceito atinge uma forte semelhança à idéia que refere salvação que é propagada entre os upanishads, seguidores do hinduísmo.


O que muda no sikhismo?

Em relação ao hinduísmo, teoricamente, há certa concordância quanto à crença em uma Unidade Suprema mística, e uma certa aplicação teísta que se observa no panteísmo, na forma como ocorre com os upanishads e no Bhagavad Gita.

Assim como se dá com os hinduístas, os sikhistas crêem na mesma forma de salvação pela fé em seu deus, na doutrina do carma e na transmigração da alma. Discorda, porém, do politeísmo hindu, das peregrinações ditadas pela norma, da ritualística e do modo de vida asceta, embora aplique a adoração ao que é puro.

Rejeita também os escritos hindus e a degradação a qual as comunidades hindus infligem suas mulheres, por acreditar que elas mereçam consideração mais elevada. Preferem um aumento na taxa de natalidade ao infanticídio, que é prática hindu comum, desobrigando ainda, a suposta necessidade de um vegetarianismo total, proporcionando a todos uma dieta que inclui carnes.

Em relação ao islamismo houve a extração da crença da Unidade do Supremo Ser, bem como a soberania deste Ser Absoluto e sua divindade incompreensível. É comum também a esperança que se baseia na sujeição a Deus e a adoração que se efetua na repetição do nome da divindade. Concorda com a constante repetição das orações prescritas e com a devoção que dirige ao fundador, como sendo legítimo emissário divino.

Assim como os muçulmanos, os sikhs são reverentes aos escritos sagrados, entendendo ser correta a linhagem de sucessores que se forma após a morte de seu fundador (Nanaque para os sikhs e Maomé para os muçulmanos), além de adotar uma estrutura de governo que esteja intimamente ligada à religião.

A unidade entre os seguidores e a definição de um santuário principal muito reverenciado por todos (Amritsar para os sikhs e Meca para os islâmicos), são pontos concordes em ambas, assim como a abominação à idolatria.

Em divergência aos muçulmanos, os sikhs destacam a natureza colérica de Maomé enquanto Nanaque era um líder gentil. Desta mesma forma, a divindade sikh não é rude e severa como aquela do Islã.


Algumas importantes celebrações sikhs

No início da vida: A nomeação de uma criança

Tão logo a mãe e o recém-nascido estejam em condições de viajar, a família deve visitar o Gurdwara. Neste templo, eles recitam hinos de júbilo constantes no Granth Sahib a fim de celebrar o nascimento da criança. Uma espécie de pudim sagrado (karah prashad) deve ser preparado pela família, assim como uma porção de água doce (amrit) igualmente deve ser administrada à mão e ao filho. O guru designado para a cerimônia abre o Granth Sahib aleatoriamente e recita o hino constante naquela página. O nome da criança deve começar pela primeira letra da primeira palavra do hino escolhido à congregação.


No transcurso da vida: O casamento

O enlace proporcionado pelo casamento no siquismo é contraído não somente pelos noivos, mas também por suas respectivas famílias. Costumeiramente, a mulher se apresenta ao noivo em vestido vermelho. A cerimônia é conduzida por um oficial. Em atitude de reverência os noivos assentam-se em frente ao Granth Sahib e ouvem o sermão ministrado pelo oficiante. Versos das escrituras são recitados e os noivos dão uma volta em torno do do livro sagrado a cada verso. Os sikhs dispensam a assinatura de quaisquer espécies de contratos.


No fim da vida: A cerimônia funerária

No sikhismo a morte é encarada com bastante naturalidade. Qualquer exibição pública de aflição diante do funeral como lamentar ou chorar é algo reprovável. A cremação é o método mais comum à disposição, embora outros métodos como o enterro ou a submersão em mar sejam aceitáveis. Antes da cremação os sikhs recitam hinos que induzem à reflexão e ao sentimento de separação entre o morto e a congregação. As cinzas devem ser depositadas no rio mais próximo. Uma leitura contínua e completa do Granth Sahib é empreendida até o décimo dia a partir da data de morte do sikh. A conclusão deste ritual encerra o período de luto.


Os dez gurus do sikhismo

Conhecer um pouco da importância que é atribuída aos gurus no sikhismo é essencial para melhor compreensão desta religião. A palavra "guru" significa "o pesado", uma referência àquele que deve carregar o peso da sabedoria e do conhecimento. O conceito de "guru" é fundamental para a fé sikh e direciona-se não somente aos "mestres iluminados", mas também a Deus, às escrituras e até à comunidade.

A autoridade sikhista Rahit Maryada define o sikh como alguém que acredita nos dez gurus e seus ensinamentos e na iniciação (amrit) instituída pelo décimo guru. Eles são os mestres da comunidade religiosa sikh, são eles: Nanak (1469-1539), é o principal dos gurus; Angad (1504-1552), sucessor de Nanak e compositor do gurmukhi , além de 62 canções sagradas constantes no guru Granth Sahib; Amar Das (1479-1574), responsável por criar rituais sikhs para nascimento e morte diferentes dos hindus; Ram Das (1534-1581), fundador de Amritsar, a cidade mais sagrada dos sikhs, situada no estado de Punjab (Índia); Arjan (1563-1606), responsável por erguer o templo dourado tendo como objetivo principal abrigar o livro sagrado - Granth Sahib; Hargobind (1592-1644), acrescentou ao conceito de guru o papel de líder militar, desencadeando sérios conflitos entre os sikhs e o imperador mongol, Shah Jahan; Har Rai (1630-1661), passou para a história por ter alterado um trecho das escrituras sikhs que denegria o imperador mongol; Har Krishan (1656-1664), profetizou acerca de seu sucessor, dizendo que este viria de um vilarejo chamado Bakala; Tegh Bahadur (1621-1675), foi martirizado por se opor ferrenhamente aos muçulmanos; e, por fim, Gobind Singh (1666-1708), décimo guru e ocupa um lugar privilegiado na hierarquia sikh, ficando abaixo apenas de Nanak.


O que representam as cores dos turbantes utilizados pelos sikhs?

São três as cores a que se atribui alguma representação no sikhismo. O emprego de turbantes de outras cores não mencionadas a seguir não reveste-se de quaisquer significados relevantes. Vejamos: O turbante preto é empregado com o fim de rememorar impetrada pelos ingleses contra os sikhs em 1919. O turbante branco reclama o significado de santidade e exemplo de vida a ser seguido. E, por fim, o turbante azul sugere uma analogia entre a amplidão do céu com a mente.


O fundador

Nanaque nasceu em Talwandi, aldeia situada no Sudoeste da capital, Punjabe, em 1469 d.C. Depois de passar um tempo orando e meditando na floresta, retornou como um profeta visionário. Segundo sua visão, Deus teria lhe dito: "Vai e repete meu nome, ensinando a todos a que procedam da mesma forma, praticando a repetição do meu nome, a caridade, as abluções, a adoração e a meditação [...] meu nome é Deus, o Brahma primeiro, e tu, o guru divino". Decorridos três dias desse fato, Nanaque ressurgiu na floresta e bradou sobre a inexistência de hindus ou islâmicos. Mais tarde, um de seus discípulos chegou a ensinar a igualdade de Nanaque com Deus.

Assim como o evangelho de Lucas relata o fato de Jesus ensinar aos doutores no templo quando contava com apenas 12 anos de idade, há um relato folclórico (não fato) de que Nanaque em seu estágio juvenil teria dirigido exortações a mestres hindus. Em verdade Nanaque preferia prender-se às práticas religiosas como a meditação e os rituais, do que ao trabalho temporal. Acreditava que ao ter alcançado trinta e três anos de idade, recebera o divino chamamento.

Nanaque faleceu com aproximados setenta anos de idade, mas não sem antes tomar o cuidado de nomear um sucessor, para que continuasse a difundir suas idéias. Esta tarefa ficou a cargo de Angade, um digno e fiel discípulo, que manteve a rejeição e o combate ao hinduísmo e ao islamismo.


Nota:

1 A palavra gurmukhi significa literalmente "aquele que é orientado para tornar-se guru".


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